segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

El Heraldo de Madrid

Às duas da tarde, aguentado um sol que emanava chispas, que era capaz, pela sua intensidade, de levantar erupções na pele, aproximei-me da estação de onde partem os Vapores Lisbonenses no Cais do Sodré.

Embarque na ponte dos Vapores Lisbonenses, fotografia de Joshua Benoliel (1873-1972).
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Já embarcado, recordava-me de sensações análogas de júbilo dos sentidos, experimentadas ao atravessar em semelhantes barcos o porto de Havana ou a baía de Nova York. Transportava-me mentalmente sobretudo às paragens de Cuba, de luz tão intensa, tão tremendamente intensa, que deslumbra e cega. Lisboa tem um céu de Cuba, um céu dos trópicos.

Parte-se do Cais do Sodré e atravessa-se o Tejo, o rio Tejo, que ao desembocar no oceano forma o radiante porto de Lisboa. Conforme vamos avançando no vaporzinho vou descobrindo as belezas sem par desta capital.

Adamastor, cruzador da Armada Real Portuguesa.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Passo junto aos navios de guerra amarrados no porto, os pequenos, porém gentis e novos cruzadores que se chamam D. Carlos, D. Amélia S. Gabriel, a canhoeira Pátria, feita pela subscrição dos portugueses no Brasil quando do ultimato de Inglaterra com motivo no conflito colonial em África, o torpedeiro Tejo, que é um interessante modelo no seu género.

Dom Carlos I, cruzador da Armada Real Portuguesa
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Passo pelo meio de navios mercantes de diferentes nacionalidades, e nenhum de Espanha. Neste porto não se vê mais que raramente a nossa bandeira, não obstante sermos vizinhos e cantar-se a cada momento em Espanha e Portugal a necessidade de comunicação de almas e interesses.

À medida que o vaporzinho se distancia de Lisboa, a cidade toda inteira aparece a meus olhos, fica um pouco na sombra comparada com a luz que nos banha e nos inunda. E como fica na sombra, posso observá-la melhor mais consciente e a meu gosto.

Vejo a Praça do Comércio, vulgarmente conhecida com o nome de Terreiro do Paço. Foi construída depois do tremor de terra de 1755. É quadrada, ampla, vastissina, plantada de árvores e cheia de edifícios com aparência monumental, a Bolsa, o Tribunal de Cassação, a Casa dos Correios. 

Praça do Comércio vista do rio Tejo.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Ao centro destaca-se a estátua equestre do Rei D. José I, e, abaixo da estátua, um medalhão com o busto do Marquês de Pombal. Há que esperar que algum dia a história  realize um acto de justiça e o símbolo régio desça e o grande estadista Pombal suba às altura, alturas dignas de sua fama e seus serviços à pátria.

Panorâmica da praça do Comércio e encosta do Castelo de São Jorge.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Desde o Tejo descobre-se bem a magnificência do arco da rua Augusta, e logo, por muito que a vista penetre pelo largo do Terreiro do Paço, os olhos não acertam em distinguir contornos e proporções. É um dédalo confuso de ruas, de grandes artérias, pelas quais desemboca na Praça do Comércio, e no porto, toda a vida da cidade.

Eu diria que vejo de um observatório marítimo, posto que está muito alto, Praça de D. Pedro ou Rossio, com o seu Teatro D. Maria, ainda que não mentisse, não poderia jurá-lo. O vaporzinho foi-se distanciando tanto, que tudo são massas confusas, indistintas, indeterminadas. Parecem-me os edifícios públicos, as igrejas e as casas, como se fossem matronas vestidas de branco e purpura, envoltas em seus panos esculturais, que se assomam para nos ver melhor por cima da varanda do porto.

E as matronas, ao assomarem-se, adotam posturas de deusas, avançam a passo, enviam-nos beijos, como se quisessem reter-nos, a fim que não abandonássemos a cidade formosa...

O vaporzinho chegou à outra margem do Tejo. 

Barco a vapor a atracar em Cacilhas.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Amarra junto à costa, e num instante desembarcam todos os passageiros. Estamos em Cacilhas. É um lugar de casas muito brancas, limpo e puro, sem luxo; porém com todo o encanto de uma praia meridional bem ensolarada. Uma aglomerado de cocheiros disputa a honra de nos levar do pequeno lugar até acima, ao castelo de Almada ou ao palácio do Alfeite, ou à Cova da Piedade.

Começa um regateio curioso, e brigam entre si os cocheiros, porque todos nos querem conquistar. Por fim escolho um coche, e depois de arreados os cavalinhos pelo seu condutor, começam a subida da ingreme encosta.

Almada, Pharol de Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 03, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Acima, no castelo de Almada o panorama é maravilhoso. Volto a distinguir os cruzadores, o torpedeiro e a canhoeira. Desde o castelo parecem muito mais pequenos do que realmente são. porém não me entretenho a fazer considerações sobre a frota de Portugal, porque recordo que no meu país andamos pouco mais ou menos pelo mesmo em matéria de esquadra.

Navios de guerra ingleses no Rio Tejo, década de 1910.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Com a diferença que a nós nada nos protege as "costas", mesmo com os interesses que costuma cobrar a Inglaterra. (1)


(1) Luis Morote, El Heraldo de Madrid, 16/08/1904

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

As meninas da Torre

À volta do leito do enfermo, não faltam os parentes — os sobrinhos o Rafael e o Nuno — ou os amigos que costumam acorrer ás alegres refeições. D. Maria Isabel Bernaud, que estivera de joelhos a chorar e orar, ergue-se cambaleante. Não pode mais. Aquela comédia da serenidade, quando o seu coração estala de dor, é mais forte do que as suas forças. 

A casa no Largo da Torre onde viveu Bulhão Pato, 1956.
Imagem: Fundação Mário Soares

O médico, o dr. Pinto, empunha já a seringa. O doente, muito rouqueja. A injecção é por assim dizer um pró-forma ou destino de consciência. Mas, num subito clarão da sua portentosa natureza, o doente exclama, como se a sua voz viesse já de além tumulo:

— Ainda senti a picada!

Foram as suas ultimas palavras. D. Maria Isabel é empolgada pelos braços carinhosos dos amigos, principalmente os do afilhado, o António Maria Povas, a quem mais tarde deixará todos os bens do casal sem filhos.

D. Isabel Maria Bernaud.
Imagem: Hemeroteca Digital

Naquela madrugada de 24 de Agosto de 1912 já não se descerraram as janelas do prédio do lugar da Torre, a cerca de 200 ou 300 metros do Monte de Caparica. Também os olhos do autor de "O patilhão vermelho" ali escrito, e de "Sob os ciprestes", ali também gerado, não voltarão a abrir-se, a perscrutar a luz da vida. A da morte nunca lhe interessou. Não sendo religioso, nem acreditando na vida eterna, Bulhão Pato costumava comentar com ironia, ao apontar com a bengala a terra que o havia de comer:

—  O general Hugo de Lacerda julga que vai para o Céu. Mas eu tenho a certeza de que fico aqui.

O enterro de Bulhão Pato. O cortejo a caminho do cemitério do Monte de Caparica, 1912.
Imagem: Hemeroteca Digital

Essa fraca ortodoxia não o impediria nunca de ser amigo do sr. prior do Monte. rev. padre José Joaquim Marques, que á hora a que hoje se almoça, lá ia jantar, bastantes vezes, muitas mais, tomar café, á sobremesa.

Discutiam religião? Se discutiam, não só nunca houve progresso no catolicismo de Bulhão Pato, que não ia á missa, mas, ainda as conversas não decorriam em termos de ser entendidas pelas pequenas.

As pequenas de então estão agora aqui na nossa frente, com a sua roda de anos bem puxados. Andam á volta dos 70 e Ramada Curto podia tê-las conhecido, quando escreveu "As meninas da Fonte da Bica".

São uma página de literatura já feita. A dificuldade estaria em pegar-lhes sem as destruir no que elas têm de vulnerávelmente espiritual e simples.

As meninas da Torre são três, e são solteiras (os homens empatam muito, dizem elas, que têm imenso que fazer, na sua qualidade de mestras das primeiras letras).

Des glaneuses dit aussi Les glaneuses, Jean-François Millet (1814-1875).
Imagem: profondeurdechamps

—  Hoje, somos aqui, as unicas que conhemos o sr. Pato! dizem com simplicidade e um tudo nada de saudade.

Saudade, e como não hão-de ter saudades as meninas da Torre, cada urna delas com o seu caracter, a sua maneira, de ser, a sua humilde e recatada pobreza?

Só duas delas, porém, se resolvem a fazer evocações. A mana mais velha, a D. Laura da Conceição, viveu trinta e tantos anos com uns parentes ricos em Lisboa. Quase não privou com o sr. Pato. Hoje é a "dona da casa", a que trata o seu governo, distante, hierática e silenciosa, ficando-se muda e impenetrável, enquanto as manas mais novas, D. Carolina de Jesus, miudinha, um pouco estonteada, fala ou ouve falar a outra mana, a Isaura Augusta, a mais desenvolta, talvez a mais intelectualmente vigorosa.

Colheita ou Ceifeiras, Silva Porto, 1893.
Imagem: Wikipédia

Filhas e um mestre de obras, o que construira a casa onde havia de morar Bulhão Pato, quando o escritor para ali foi em 1890, mesmo na casa ao lado, foram elas, com os pais, as únicas admitidas a sua convivência.

Bulhão Pato que era muito bondoso, muito, tinha os seus paradoxos: não gostava de crianças, porque eram barulhentas, mas, chamava as filhas do sr. Marques para a sua beira; amava o silêricio e tinha sempre á sua roda á barulho de uma alegre e palradora convivência, médicos e escritores, sobretudo.

Tudo, porém, finalizara naquele colapso cardiaco. Bulhão Pato acabava de morrer, faz hoje precisamente quarenta e quatro anos. Os seus restos mortais jazem num mausoleu do cemiteriozinho do Monte, esquecidos dos homens e da criada do afilhado Povas que, morrendo sem filhos, lhe deixou o que herdara do padrinho.

—  Estamos a vê-lo, ao sr. Pato, muito fino, muito educado, um pouco baixo e de barbas muito brancas, com uma manta alentejana pelos ombros: "vamos a ver se ainda deito este Janeiro fora!" Costumava passear por aí, com a sua bengalinha mas, sendo muito sociável, não admitia certas liberdades...

Só duas das meninas da Torre se deixaram fotografar, D. Carolina de Jesus e D. Isaura Augusta, 1956.
Imagem: Fundação Mário Soares

Quem conta isto é a menina Carolina de Jesus que se ri:

—  Vinha muito por aí o dr. João Barreira. Ficava ás semanas e viamo-lo, através da janela, pendurado além, nas grades do jardim, a esticar-se, como se quisesse ficar mais alto. Tinha uns olhos de pássaro tonto que nos assustavam. Ali ao lado, havia um celeiro. Ás vezes, o caseiro da sr.a condessa dos Arcos ia para lá tocar harmónica. Como doido, o dr. João Barreira desatáva ás voltas, com as mãos nos ouvidos e aqueles olhos, a gritar, "que é isto, que é isto?" Este tocador de harmónio [?] era o mesmo que um dia, cumprimentando o sr. Pato, lhe estendeu a mão e a quem o escritor admoestou serenamente: "que é isso, rapaz, estende a mão só aos que forem teus iguais".

Professor João Barreira (1866-1961).
Imagem: ARTIS

— Apesar disso — acrescenta a mana Isaura Augusta —  o sr. Pato era muito bondoso, muito. Acudia pelas criadas, obrigava-as a ir cedo para a cama, que não queria excessos de trabalho lá em casa.

Depois, a propósito de criadas, vem a história da Elisa. Bulhão Pato. além da cozinheira e do criado, tinha sempre uma "criadinha fina", uma rapariga de serviços de fora que pudesse acompanhar D. Maria Isabel.

— O sr. Pato gostava de ter caras jovens e bonitas á sua roda. Mas a história da Elisa é muito triste. Um dia, vieram dizer ao escritor que ela andava de amores com uma visita da casa, o jornalista, sr. Urbano de Castro. Viam-nos juntos em Lisboa, nas folgas da Elisa...

O sr. Pato chamou-a, ralhou-lhe tanto, tanto, que ele, segundo diziam, era um trovão quando se zangava, que a rapariga, envergonhada, matou-se com um desinfectante com que andava a tratar-se...

O sr. Pato chorou e fez-lhe uns versos. Havia uma quadra que dizia assim:
Senti bater o caixão
Quando te foste enterrar
Era tarde de Verão
O Sol morria no mar.
Fora uma amiga da casa, a D. Elvira Bastos — elucida a outra mana — quem levara a novidade lá a casa. Nunca mais ali se pronunciou o seu nome.

— E Urbano de Castro?

— Bem, continuou a ir lá a casa. Havia as relações das senhoras...

D. Carolina de Jesus suspende o "crochet" e dobra a folha impressa de onde o estava a copiar. Já não vê e não há luz eléctrica lá em casa. Uma das manas vai acender o candeeirinho de petróleo (desculpe, somos pobres... não repare, esta sala é a das aulas...).

A mana continua:

— O sr. Pato gostava da boa mesa e que lhe gabassem o "roast-beef" mas mal provava os petiscos. Dizia sempre: "não tenho que comer!" E a senhora protestava: "Oh! Raimundo, que cisma a tua!" D. Isabel tratava-o por tu. Ele, falando com a esposa, dizia sempre "você".

Mas, enfim, se o sr. Pato não comia muito, bebia bastante e sempre bebidas finas. Fumava muito e levantava-se cedo, para trabalhar cedo. Cedo também se deitava.

— Mesmo assim, tinha uma intensa vida de sociedade... Devia ser rico...

—  Não sabiamos de onde lhe vinham os rendimentos. Rico, rico, porém, não seria, porque lhe vinham duas vezes por semana, ás quintas e domingos, grandes cestas de fruta e legumes, oferecidos pela familia Pinto Basto, da sua quinta aqui de perto, que está hoje nas mãos dos Quintelas. Mas com o não ser rico não deixava de ser muito esmoler, o sr. Pato. A casa aqui ao lado. estava mais que modestamente mobilada.

O mais importante eram, no escritório, os livros, um retrato do escritor, pintado por Lupi e que está hoje no, Museu de Arte Contemporanea e um outro de Alexandre Herculano (1810-1877), a quem era muito dedicado, mas que não nos lembra ver por cá. Devia já ter morrido.

—  Em que passava o tempo o escritor?

—  Se não escrevia, conversava sobre as suas viagens, falava de livros, fazia "pic-nics" na Quinta da Estrela ou caçava nos juncais de Caparica. Uma vez por semana, parece-nos que ás quintas-feiras, saia para Lisboa com a senhora, muito bonita com as suas mangas de presunto e os seus grandes laços de tule á volta do pescoço.

O Joaquim da Fidalgo vinha buscá-los, com o seu velho trem puxado por dois cavalinhos velhotes e eles aí iam a caminho de Lisboa. para almoçar não nos lembra se no Leão de Ouro se no Estrela de Ouro... O carrinho, claro, ficava do lado de cá em Cacilhas. Nesse tempo, os barcos já eram movidos por vapor mas ainda não transportavam carros, como hoje. 

Embarcação de passageiros das carreiras do rio Tejo.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Aqui, do Porto Brandão, é que partiam os barquinhos movidos por meio de remos....

—  Não falava de política, em derrubar o Governo...

—  Fechava-se com os amigos no escritório; como podiamos nós, adivinhar do que falavam em voz baixa? Alegria naquela casa não faltava. O sr. Pato até gostava de armar as suas festas. Muitas vezes, porque não lhe chegavam os dois andares que ocupava, estendia-se por casa dos vizinhos. E era ver, no Santo António e S. João, as fogueiras, as festas e bailaricos que armavam no terreirinho fronteiro á casa do sr. Pato. O povo passava e juntava-se, saltando também a fogueira. E o sr. Pato gostava.

—  Deu o nome a muitos "pratos" e petiscos...

— Possivelmente, eram os amigos que lhos davam. Nunca demos conta de que o sr. Pato fosse á cozinha ensinar a fazer ameijoas, bacalhau, perdizes ou ostras — e o que ele gostava destas! — com o seu nome ou não...

As meninas da Torre leram Bulhão Pato. O escritor estimava-as e a uma delas quis ensinar francês, ao que o pai, o mestre de obras, patrióticamente se opôs. Hoje, no seu casarão desconfortável e antigo, vivem da saudade de tanta coisa vivida, da mágua de se terem debruçado á beira de um grande mundo espiritual, do qual não recolheram o melhor do seu sabor.

Timidas, fiéis a Deus e á memória dos que amaram, assim as fomos achar, perturbando-as com a ideia de falar para um jornal e deixar-se fotografar, assim de chitas vestidas.

— Que vergonha! — disseram, a tapar o rosto com as mãos.

Mas, daqui a pouco, as meninas da Torre dobrarão esta folha de jornal, irão juntá-la a mil ninharias do seu património espiritual, já esquecidas do seu amigo, sr. Pato, vinte e dois anos seu vizinho na Torre.

O poeta no seu gabinete de trabalho, segundo fotografia publicada em 1912.
Imagem: Hemeroteca Digital

Depois, empunharão a cartilha e, nos seus bancos em fila, as meninas da Torre, as mestras e as alunas voltarão a dizer em coro: Um á e um i faz ai... Um d e um ó faz... dó! (1)


(1) Diário de Lisboa, 24 de agosto de 1956

Tema:
Bulhão Pato


Ligação externa:
Bulhão Pato na coleção da Hemeroteca de Lisboa

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

D. Francisco de Noronha recorda Bulhão Pato

A evocação de Bulhão Pato (1829-1912)

D. Francisco de Noronha (1863-1953), fidalgo de quatro costados — e dos quais não blasona — é um ancião de 85 anos, que vive no seu solar modesto de Cacilhas, contiguo aos terrenos que foram dos condes Assumar e dos marqueses de Alorna, integrados na casa Mascarenhas, e que há pouco passaram, e em boa hora, para a Camara Municipal de Almada.

D. Francisco de Melo e Noronha.
Imagem: Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

D. Francisco, de memória viva, metido entre os seus livros — que são alguns preciosos — as suas evocações, os seus constantes escritos literários que dispersa, generosamente — conheceu Bulhão Pato. Foi da sua privança.

— Como não ser? Meu tio, que foi juiz desembargador, legou-me esta minha pobre casa, que ele comprara aí por 1872. Por aqui tenho vivido.

A casa de D. Francisco de Noronha (Prédio do Gato) Cacilhas, década de 1920/1930.
Imagem: Nuno Machado

Quando Bulhão Pato veio para a Torre de Caparica em 1890 já eu por cá andava, á roda dos 33 de idade, e o poeta com os seus 60 já cumpridos em boa graça. Que homem! Que figura!

D. Francisco recorda que seu avô, D. José Maria Carlos de Noronha e Castilho, foi governador militar desta região.

"Eu pertenço um pouco a Almada, e aqui hei-de morrer, com a minha modestia e aquilo a que chamam a minha originalidade. A verdade é que vivo entre livros e recordações".

— Bulhão Pato...

— Naquele tempo convivia-se, e, fosse qual fosse a idade, fazia-se o possível para se ser rapaz. Bulhão Pato, que fora muito de Herculano, em cuja casa da Ajuda viveu ai por 1847-48, faz agora um século — imagine! — casa para onde depois foi viver Garrett, veio para a Torre já com a sua obra literária afamada.

 Palácio d'Ajuda, c. 1900. À direita da imagem, no Largo da Torre, a casa onde residiu Alexandre Herculano.

Ele principiara a "Paquita" em 1851 mas veio aqui acabá-la. A casa de Pato era maneirinha; o poeta pontificava em familia. Vinham — eu era mais novo do que eles — Urbano de Castro, que tinha uma casa em Costas de [do] Cão, o meu parente D. João da Camara, o Zacarias de Assa [d'Aça], o Henrique Lopes de Mendonça.

D. João da Câmara (1852-1908).
Imagem: Hemeroteca Digital

Foi a estes que Bulhão Pato leu os ultimos versos da "Paquita"; eu não assisti. João Barreira, que era médico na freguesia, relacionou-se por essa época. Lembro-me destes homens. 

E apareciam também o grande João de Deus, Rangel de Lima e Marcelino Mesquita, ás vezes. Um grande companheiro de Bulhão Pato, foi o Eduardo Ferreira Pinto Basto, mas este era só para passear. Outro: o Teodoro Ferreira Pinto.

E volta ao poeta do "Livro do Monte".

— Era uma pessoa admirável. Trabalhava quando para tal sentia disposição. Não tinha horas formais. Passeava muito a pé por essas quintas, e imagino que, quando sózinho, compunha, a andar, versos ou tecia memórias.

Descendia dos Pereiras Patos Moniz, de Alcochete, e dos Alvares de Bulhão Eu tenho muitos anos de vida, corri algum mundo em Portugal e lá fora; dei-me com belos espiritos. Pois nunca encontrei melhor cavaqueador, mais fino e travesso. Era um gosto ouvi-lo. Nunca o ouvi falar de politica, e mesmo de polémicas literárias pouco dele discorria.

Lembra-se do "Lázaro Consul", resposta a uma suposta alusão do Eça, nos "Maias"? Eu nunca escutei nada da sua boca a este respeito... D. Francisco de Noronha lembra que Bulhão Pato tinha, apesar de romantico uma certa veia sarcástica. "De quem ele gostava muito era do Eduardo Schwalbach, que ás vezes aparecia, e pernoitava mesmo na casa da Torre. O Eduardo também vinha por minha casa. Era da minha idade, pouco mais, muito mais novo que o Pato. Tinha muita graça..."

Eduardo Schwalbach (1860-1946).
Imagem: Livreiro Monasticon

O fidalgo de Almada — que é ribatejano, da raia da Beira Baixa — esclarece-nos que Bulhão Pato nunca abandonou Lisboa, ao contrário do que se supõe. Ia lá quase todas as semanas. Almoçava então numa casa de pasto da Travessa dos Remolares, com o António Covas [Tovas], seu afilhado, deambulava pelo Rossio e Chiado, e regressava á tarde. E evoca:

— O poeta era muito de patuscadas inocentes e campestres, e de caçadas, mais inocentes ainda. Eu ás vezes aparecia. Ora uma vez...

— Mas o senhor deve saber...

— Diga... diga...

— Vem nos livros. O Bulhão Pato enviou urna vez ao Urbano de Castro um presente de urna pescada, com pimentos, que era de se lhes tirar o chapeu. Logo Urbano de Castro replicou por um bilhetinho:
Tem boa pinta a pescada,
são famosos, os pimentos...
A mana, muito obrigada,
envia os seus cumprimentos.

No Monte de Caparica,
termo e concelho de Almada,
há um Pato — coisa rica —
um Pato que dá pescada.
— Isto são recordações de velho. Eu não era ainda deste mundo, mas sei: Uma das primeiras poesias de Bulhão Pato foi a famosa "Se coras, não conto...", mais tarde reunida num livro de poesias. E ele ás vezes repetia, com saudades dos seus dezoito anos. A poesia é de 1847! Isto é: há um século...

E continua:

— Outro que era muito de Bulhão Pato, posto que não intimo, era o Manuel de Arriaga. Um irmão, mais novo deste, chamado Miguel, tinha em Almada uma quinta no Vale das Flores, Bulhão Pato ia por lá. E Manuel de Arriaga, quando foi eleito presidente da Republica, logo foi visitar o poeta de "Sob [os] Ciprestes", à casa da Torre, onde; agora vamos, pôr uma lápide.

Olhe, por coincidência: o actual presidente da Camara de Almada, o Luís Arriaga [de Sá Linhares, presidente da Câmara Municipal de Almada (1947-1951)], é sobrinho de Manuel de Arriaga, filho de uma irmã deste, D. Maria Adelaide Sofia, se bem me recordo. Isto é o meu tempo de rapaz a desfiar...

O Manuel de Arriaga a mim tratava-me por "Francisquinho". Está aqui nas dedicatórias dos livros.

E conclui:

— Por tudo isto eu associo-me á ideia da lápide, da qual tive a iniciativa em Setembro de 1912. Ainda bem que vocês, rapazes, com o Luís de Arriaga tomaram isto a peito. Eu não posso talvez lá ir. As minhas pernas vergam, e como a memória está fresca, receio emocionar-me.

D. Francisco de Noronha, com a sua barbicha, a sua mão em concha, porque o ouvido já o atraiçoa, a sua camisa gomada sem colarinho, o seu olhar azul pisco, a sua andaina de andar na horta, com uns "sobrinhítos" que tem em casa, o seu chapeu rustico cozido a cordeis, o seu abraço muito largo, "do tamanho do mundo" — mostra-nos os seus formosos e poeirentos livros de boa biblioteca clássica, a par de livros de Antero e de tomos de transcendente filosofia. Vai-nos conduzindo ao portal, onde uma cadela céguinha faz as honras de porteira.

Antiga residência de D. Francisco de Noronha, década de 1970.
Imagem: Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia de Cacilhas.

— Pois no domingo eu estarei com o Bulhão Pato. Aonde não sei. E se o virem — façam-lhe lembranças minhas... Há cem anos: "Se coras, não conto".

Retrato de Bulhão Pato, Columbano Bordalo Pinheiro, 1908.
Imagem: Pintar a Óleo

O descerramento da lápida

O descerramento da lápida efectua-se amanhã, ás 17 horas, no prédio onde morreu Bulhão Pato, faz agora 36 anos. O elogio literário do poeta será feito pelo professor dr. João Barreira, já octogenário, um dos raros sobreviventes do grupo que mais conviveu com o poeta na Torre da Caparica, de 1890 a 1912. 

Professor João Barreira, Columbano Bordalo Pinheiro, 1900.
Imagem: Wikimedia

Assistem representantes da familia de Bulhão Pato e de outras que foram do convivio do poeta os vereadores de Almada, um vereador da Camara Municipal de Lisboa, autoridades de Setubal e do concelho.

Norberto de Araújo discursa, tendo ao seu lado direito, a 11ª Condessa dos Arcos, D. Maria do Carmo Giraldes Barba Noronha e Brito, e ao seu lado esquerdo, o médico e historiador de Arte – Professor Dr. João Barreira, que fez o discurso evocativo, D. Margarida Bulhão Pato, sobrinha do Poeta, o Comandante Sá Linhares, Presidente da Câmara Municipal de Almada e o jornalista e director do jornal «A Voz», Pedro Correia Marques.
in Norberto Araújo (1889-1952)

Serão lidas palavras do dr. Julio Dantas, traçando o perfil de Bulhão Pato, e usará da palavra o presidente da Camara de Almada, comandante Arriaga de Sá Linhares.

Podem aproveitar-se camionetas de Cacilhas à Torre, das 15 e 40 e 16 e 25. (1)

Cacilhas, largo do Costa Pinto (detalhe), Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian


(1) Diário de Lisboa, 28 de agosto de 1946

Artigo relacionado:
Largo Gil Vicente


Tema:
Bulhão Pato


Ligação externa:
Bulhão Pato na coleção da Hemeroteca de Lisboa

 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Se coras, não conto

Chapelle anglaise à Lisbonne, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Tu queres que eu conte um sonho que tive
Não sei se acordado, não sei se a dormir?
Foi todo singelo, foi todo innocente:
Tu córas, sorriste, tens medo d'ouvir?


Palais d'Ajuda, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Não córes, escuta, não fujas de mim,
Que o sonho foi sonho de casta paixão:
Já crês, não duvídas, verás como é lindo
O sonho innocente do meu coração:

Quai de Sodre, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Eu via em teus labios um meigo sorriso,
Em tens olhos negros um terno mirar,
Teu seio de neve a arfar docemente,
Sentia nas faces o teu respirar.


Palais de Necessidades, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

E tu não fallavas, mas eu entendia;
E tu não fallavas, mas eu bem ouvi!
Amor! na minh'alma a voz me dizia,
E um beijo na fronte não sei se o senti.


Vue de Lisbonne prise de Alfeite, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Já vês que o meu sonho foi sonho innocente;
O resto eu te conto; como has de gostar!
É todo singelo, de amores somente;
Verás que ao ouvil-o não has de córar.


Vue de S. Pedro d`Alcantara, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Depois apertando teu corpo flexivel,
Cingindo teu collo no braço a tremer,
Ouvi uma falla, e o que ella dizia
Agora acordado não posso eu dizer.

Promenade Publique, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Não posso contar-te, só pude sentil-a;
Não posso contar-t'a senão a sonhar:
No sonho innocente, no sonho d'amores,
Do qual, duvidosa, julgavas córar.

Place du Commerce prise du Tage, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Não posso contar-t'a, nem sei se acordado
O que ella dizia se póde entender;
Eu sei que sonhando, pensei que era sonho,
E agora acordado a não posso esquecer.

Interieur de l`Eglise de Belem, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Mas tu porque escondes a face córada?
Não tem nada o sonho que faça córar,
É todo singelo, é todo innocente;
Que importa um abraço, se é dado a sonhar?

Tour de Belem, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Mas tu não te escondas, que eu fico em silencio;
Não quero offender-te a casta isenção;
Não torno a contar-te depois de acordado
O sonho innocente do meu coração. (1)



(1) Bulhão Pato, janeiro de 1847

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Corrida de laços

N'estes dias de verão o Tejo é lindo; o sol faisca nas suas aguas, as margens parecem reverdecer e toda essa encantadora bahia do Alfeite de areias de ouro abre-se maravilhosamente á nossa vista, deixando vêr o fundo magestoso dos pinhaes, os torcicolos dos canaes a scenographia dos montes, erguidos sob a limpidez do céo. 

A pitoresca entrada do Alfeite do lado do rio, 1913.
Imagem: Hemeroteca Digital

Pelas tardes a aragem é branda e apetece navegar no rio para ir descançar um pouco na quinta do Alfeite.

O desembarque no cais do Alfeite, 1911.
Imagem: Hemeroteca Digital

Foi um passeio que a Associação Naval realisou com os seus magnificos barcos acompanhados pelo "Alcochete" onde iam as senhoras das familias dos socios emquanto os habeis remadores conduziam velozmente as suas embarcações.

O vapor Alcochete que conduziu os convidados ao Alfeite, 1911.
Imagem: Hemeroteca Digital

Fizeram-se as provas do programma com os seguintes resultados: outriggers foi ganho pelo Douro; inriggers pelo Rio Minho. 

Na quinta do Alfeite. A partida para a corrida dos laços, 1911.
Imagem: Hemeroteca Digital

Na corrida de laços ganharam a sr.a D. Maria Madeira e o sr. Alberto Madeira na de velocidade D. Henriqueta Clinton, na mixta miss Shirely e o sr. Henrique d'Aragão.

Os divertimentos na quinta do Alfeite, 1911.
Imagem: Hemeroteca Digital


(1) O passeio ao Alfeite do sócios da Associação Naval, Illustração Portugueza n.° 280, Lisboa, 3 julho 1911

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O canto dos pescadores do Tejo

Pescalio, Marino, Alcam.

O Mês de Março, natureza morta com peixes e mariscos, Josefa d'Óbidos, 1668.
Imagem: Saberes cruzados

Pescalio.

Marino, he tempo já de hirmos alçando
A pezada fateixa, e as brancas vellas
Hirmos das pardas cordas dezatando.
Já do Ceo dezertarão as Estrellas,
Mas tremólão as ondas, pulão vivas
As bogas cor de prata á tona dellas.
Não ferão hoje as oras tão esquivas,
Que colhamos a rede apanhadora,
Toda prenhe de pedras só nocivas,
Empurra tu a Lancha para fora;
Que eu de huma, e outra banda o leme engasto.
Ajuda tu, Alcão: carrega agora.
Já lhe podes metter o leme gasto:
Vamos saindo, e lá em mais altura
Accenderemos fogo ao pé do masto.
Que manhã tão gentil! Tao fresca, e pura!
Ah! Em quanto não somos sobre a costa,
Vejamos quem melhor no canto atura.

Belem Castle, Rev. William Morgan Kinsey, Portugal Illustrated in a series of letters, 1827.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Marino.

Pelo teu gosto estou, mas sem aposta;
Canta tu lá conforme o teu dezejo,
Que eu só canto de quem minha alma gosta.

Alcam.

Pois cantem ambos, que eu a escota rejo.

Marino.

Inda que eu sobre as ondas fui creado.
Que do fruto das ondas me sustento;
Suspiro pelo campo apaixonado
Qual nossa embarcação pelo bom vento:
Só fobre o campo verde, e matizado
Com alegria os olhos apascento:
Só sobre elle he que eu vi o rosto bello,
De Filiz, porquem tanto me disvello.

Paisagem com rio, torre arruinada e pescadores, Jean-Baptiste Pillement, 1791.
Imagem: Sotheby's

Pescalio.

Eu do campo nao quero as alegrias:
Nao quero as faces ver de neve pura.
Só quero ver das nossas margens frias.
As almas todas cheias de candura:
São melhores no mar as calmarias;
Que as virações rizonhas na espessura:
Mais que o Xerne, ou Corvina á molle Arraia,
Excede em tudo ao campo a nossa praia.

Marino.

Apascentar n'hum dia de deleite
Os olhos por hum prado verdejante;
Ver mulgir no curral o branco leite,
Dentro do grosso tarro fumegante:
Ver urdir a Pastora sem emfeite
A grinalda purpúrea , e alvejante;
Nada, nada produz tamanho gosto,
Como de Filiz ver o bello rosto.

Ai credo!, José Malhoa, 1923.
Imagem: borboletanaflor

Pescalio.

Undilia, a minha Undilia he mais formoza,
Que a Lua, e os Salmonetes encarnados:
A viração travessa, e preguiçoza
Vence no doce rizo, e nos agrados:
Por sua trança de oiro bulliçoza
Se ição loucos dezejos namorados;
Mas Undilia tao meiga como altiva,
Só tem hum Pescador; e os mais esquiva.

Marino.

Quando Filiz dezata a voz do peito
Ao tom de sua lyra torneada,
Se obferva o Cordeirinho satisfeito
C'o a relva sobre a boca pendurada:
O negrume do Ceo foge desfeito:
Perde o Sul a braveza de nodada.
Que sentirá por ella quem a adora
Com todo o excesso d'alma, auzente a chora?

Pescalio.

Huma manhã, que o vento furiozo
As Lanchas todas destroçar queria;
Que o trovão rebentando estrepitozo,
As mesmas rochas abalar fazia;
N'hum canto rogativo, e ferverozo
Rompeo Undilia a santa melodia.
Eis que morre o temporal tão carrancudo:
Mostra-fe o Ceo rizonho, o vento mudo.

Marino.

Se eu fem lezão das pedras para fóra
Arranco os caranguejos esquinados:
Se encho de mixilhões a qualquer ora
Fundos cestos de vime acugulados:
He só porque me lembro, alva Pastora,
Do influxo de teus dons acryzolados.
Sobre mim elles pódem mais por certo,
Que as Eftrellas do Olympo defcoberto.

Pescalio.

Se sendo Arrais da Lancha, eu a governo
Sem perigo das ondas espumantes:
Se eu tanto no Verão, como no Inverno
Advinho as tempestades innundantes:
Tudo devo ao poder invicto, e terno
De teus volúveis olhos faiscantes.
Por teus olhos, e face pudibunda
Se adorna o dia, o campo se fecunda.

Marino.

He tal minha paixão, e meu extremo
Por tua voz, e angélico semblante.
Que na auzencia de ti ás vezes temo
Cahir dentro nas agoas delirante.
Saudozo os braços cruzo fobre o remo.
Sobre o Ceo fito os olhos palpitante:
A pésca me enfastia, e aos outros rogo,
Que buscamos sem mais o porto logo.

Cecília, Henrique Pousão, 1882.
Imagem: Wikiwand

Pescalio.

He tal o meu amor o meu dezejo
Por teu rosto, oh Undilia appetecida,
Que se ao levar do Cáis eu te naò vejo,
Me agoiro sorte má na nossa lida.
Sem alguma esperança arrojo ao Tejo
Apoz huma outra rede entertecida.
Sem fé as dezenvolvo, porque caia
O pobre, ou rico lanço sobre a praia.

Marino.

Os dons do nosso trafego, Pastora,
Nao são dignos da tua gentileza;
Por isso de te dar nao ouzo agora
Quantos da minha conta forem preza.
Como vives no campo, os dons de Flora
Para ti só escolho por fineza,
Nao te darei maryscos, Peixes muitos:
Más ricos ramalhetes, ricos fruitos.

Pescalio.

Offertar-te nao posso os brandos véllos;
Os Cabritinhos tenros e balantes;
Nem os frutos rozados, e amarellos.
Os roxos cravos, os jafmins fragantes:
Mas posso-te offertar os peixes bellos,
Os Camarões, e as ostras gotejantes.
Os reconcavos búzios gritadores,
As conchinhas que brotao resplendores.

Marino.

Aviza-me, oh Pastora moça, e bella,
Quando a tua lavoira principia;
Quando a espiga desfolhas amarela,
Quando cuidas na cresta, e na tosquia;
Que eu hirei ajudar-te a toda ella
Sem mais premio, que a tua companhia.
Corresponde-me tu, qual te eu mereço,
Que eu do barco, e de tudo me despeço.

Cócegas, José Malhoa, 1904.
Imagem: Wikimédia

Pescalio.

Vem ver, loira Undilia, Mãe das graças,
Pular na area os peixes nadadores:
Comigo desprender as verdes naças;
Puxar pelos anzoes enganadores:
Vem alegre, não sejão tão escaças
Tuas feições c'os pobres Pescadores.
Tú mesma tirarás daquellas grutas,
Hum cestinho de amêijoas bem emxutas.

Marino.

Todo absorto de amor sincero, e grato,
Por, meu Bem tao honesto, e perigrino,
Eu juro fazer troca deste trato
Pelo trato Serrano, e Campuzino.
Antes viver com Filiz só n'hum mato,
Que com muitas no trafego marino.
Antes de Filiz huma graça pura
Que das bordas domar toda a ternura.

Pescalio.

Amar sempre esta vida Piscatoria
Por ti, oh meiga Undilia, eu firme juro.
Só c'o teu nome impresso na memoria
O norte crestador sem damno aturo.
Cantando encho os Tristões de assombro, e gloria
Em quanto corto o mar c'o remo duro.
E assim (sabe o Ceo!) talvez nao fora,
Se amara lá no campo huma Pastora.

Vista da Torre de Belém em LIsboa, Jean-Baptiste van Moer, 1868.
Imagem: Sotheby's.

Alcam.

Tendes ambos de amor mui bem cantado:
Mas vamos o aparelho já dispondo,
De forte que fiquemos pouco a nado.
Eu daqui c'o esta vara a rocha fondo:
Nelle o peixe se acolhe com o frio:


Armemos-lhe hum tresmalho de redondo.
Neste canto o bom Sável, o Safio,
O gordo Xerne abunda de maneira,
Que á mão mesmo se apanhão, muito a fio,
O ponto he, que ajudar-nos o Céo queira.


Disse. (1)


(1) Égloga [Écloga] piscatória, O canto dos pescadores do Tejo, Lisboa, na officina de António Gomes, 1811

Leitura complementar:

Francisco Pedro Busse, Poemas lyricos de hum natural de Lisboa, Égloga [Écloga] piscatória, Lisboa, officina de Simão Thadeo Ferreira, 1787
Francisco Pedro Busse, Poemas lyricos de hum natural de Lisboa TomoII, Lisboa, Regia Officina Typographica, 1789

Sobre Fr. Francisco Pedro Busse:
A parenética franciscana ao serviço da Monarquia por ocasião do nascimento de D. Maria Teresa de Bragança (1793)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Persistência da memória

Estamos a 24 de setembro de 1831. É noite. A lua em todo o seu esplendor illumina a praia do Caramujo, que se estende por detrás da longa fileira das casas que formam a povoação.

Persistência da memória, Salvador Dali 1931.
Imagem: WikiArt

Da esquerda o quadro vae terminar no agudo Pontal de Cacilhas.

Viata da Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Da direita vê-se a meio da praia a pequena ponte que dá facil desembarque para os armazens de vinhos;

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Imagem: Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos *

mais além ainda a praia e os rochedos, depois o terreno encurva-se, e apresenta a vista, como um alvo lançol, o estabelecimento de Valle de Zebro, e mais em distancia as casinhas do Barreiro, como outros tantos pontos esbranquiçados sobre o fundo escuro do horisonte.

Memória, René Magritte, 1948.
Imagem: WikiArt

A noite está serena. O silencio é apenas interrompido pelo ruido das vagas, que magestosamente se desenrolam na areia.

O Tejo em frente do Caramujo, Revista Illustrada, fotografia de A. Lamarcão, gravura de A. Pedroso, 1892.
Referencia: Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial
Imagem: Fernandes, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes

Quem áquella hora e com aquelle luar escutasse o rouco marulho do patrio Tejo, facilmente imaginaria a voz de um velho acalentando uma creança.

A desintegração da persistência da memória, Salvador Dali, 1954.
Imagem: WikiArt

Mais perto percebe-se que ao rumor das aguas se reune o vozear baixo e entrecortado, que sae de um pequeno grupo de pessoas sentadas á porta do pateo da tanoaria de Jeronymo.


(1) António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863