quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Cooperativa de Consumo Piedense

Fundou-se com meia dúzia de trabalhadores, uns corticeiros outros tanoeiros [...]

Tanoeiros.
Imagem: Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

Fundada em 4 de Março de 1893, pela iniciativa de dez operários e artesãos residentes na Piedade, Caramujo e Mutela, a Cooperativa chegou a ser considerada a mais importante cooperativa da Península Ibérica [...]

Placa evocativa aos fundadores da Sociedade Cooperativa Piedense.

[...] e nessa altura eram os socialistas e os anarquistas, anarco-sindicalistas que têm a influência do Proudhon, Bakunine, Malportini, Mellaerts, todos esses indivíduos são mentalidades muito esclarecidas [...]

Largo e Mercado, Cova da Piedade (ao centro o primeiro edifício-sede da CCP), ed. desc., década de 1900.

A direcção é quase toda composta por corticeiros e que por isso mais razão tinha em administrar a secção, quando administra a padaria e outras secções. Que se nomeie uma comissão para administrar lá dentro está de acordo. Mas que a direcção não deve eximir-se a essa responsabilidade. Só a direcção com uma comissão é que pode administrar a secção de cortiças [...]

Grupo de sócios organizadores da Secção de Cortiça, 1931.
Imagem: Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

Nós saíamos da fábrica, naquela altura a Cooperativa não tinha empregados, eram os sócios que saiam das fábricas ou dos seus trabalhos e depois das cinco horas é que a Cooperativa abria. E então os sócios eram escalados, uns tantos por semana, para irem trabalhar lá na Cooperativa, até à uma duas da manhã, três da manhã, depois ficavam outros tantos para fazer limpeza, foi o que aconteceu, foi quando eu comecei na Cooperativa. (…)

A Cooperativa fechava à meia-noite e nós ficávamos lá para fazer a limpeza até às três horas da manhã, … e depois tínhamos de pegar na fábrica às oito [...]

Em 1910 a Bucknall depois da fusão com a empresa Jonh L. Wilson que integrava a Companhia Londres & Lisboa passou a ser designada pelos seus operários de Companhia. Em 1911 com a compra da fábrica Vilarinho & Sobrinho a Bucknall tornou-se na maior unidade fabril corticeira do Concelho de Almada, com escritórios em Lisboa, Londres e Glasgow.br />
Os incêndios ocorriam com alguma frequência nestas unidades fabris e a Bucknall teve os de maior dimensão em 1912, 1929 e 1946.

Este último incêndio terá contribuído para o declínio da empresa, agravado pela expropriação das fábricas do morro de Cacilhas, para a construção da estrada marginal em 1950. Dos 600 trabalhadores da empresa, em 1945, 300 foram dispensados até 1952, altura em que a Bucknall foi vendida à firma Barreira & Companhia [...]

Quando foi da greve de 1943, a Cooperativa durante trinta dias sustentou esta população da Cova da Piedade e a PIDE e as forças da Guarda Republicana instalaram-se aqui na Cova da Piedade e não deixavam as mercearias fornecer quaisquer alimentos aos grevistas que eram os corticeiros.

E, a Cooperativa, através das cadernetas dos sócios, levantavam para aquele, levantavam para o outro e muitos ficaram com dívidas na Cooperativa, e a Cooperativa é que teve de suportar naquela altura algumas dezenas de contos, e eu ainda fui lá encontrar cadernetas onde se explicava isso [...]

Depois veio aquela gente do Arsenal, já tinham arrebentado com a cooperativa deles, a Cooperativa dos Arsenalistas que era ali no Cais do Sodré, salvo erro...

Arsenal do Alfeite, Mário Novais, c. 1938.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

E o Salazar entendeu que não queria ninguém civil dentro do Alfeite, e então estava-se a acabar aqui este Bairro, aquele bairro era para aqui para a gente todos, para o povo aqui da Piedade, ... tiraram os rapazes de lá e quase todos foram para o Bairro, eu quis ir para lá não ganhava o suficiente para ir para o bairro que era um Bairro de trabalhadores.

Entraram todos para a Cooperativa e depois aqui houve um defeito péssimo do povo da Piedade, quando aparecia um indivíduo a dizer duas larachas numa Assembleia: "É pá este gajo é bom para a Direcção!"

Ilustração de Quino, Joaquin Lavado.
Imagem: Fernando Vásquez Rodríguez

... e uma parte deles fizeram parte ali da Direcção [...]

As primeiras obras no Arsenal do Alfeite foram os bairros de casas económicas destinadas a oficiais subalternos, sargentos da Marinha e a operários do futuro Arsenal, e só posteriormente, em 1928, se iniciaram as obras de construção do novo Arsenal. A instalação do Arsenal do Alfeite, inaugurado oficialmente em Maio de 1939, e da Base Naval do Alfeite, veio contribuir, na década de 1940, para um desenvolvimento significativo do Concelho de Almada [...]

Cova da Piedade, vista aérea (detalhe), 1938.
Terraplanagens para a construção do Bairro das Casas Económicas (metade direita superior da fotografia).
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Sendo as atribuições [das casas] feitas prioritariamente a sargentos e cabos da Armada e a membros dos sindicatos nacionais e outros organismos corporativos. Só muito acessoriamente foram contemplados funcionários administrativos e operários especializados do Arsenal – a primeira prioridade era política e a segunda, a da solvência das famílias [...]

Bairro das Casas Económicas, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: Cibersul

Estas novas condições de habitabilidade contrastavam com a da maioria da população operária, maioritariamente corticeira, que vivia em núcleos habitacionais desprovidos de água canalizada e saneamento básico; onde "grande parte dos aglomerados não tinha sistemas de esgotos e os dejectos eram despejados directamente em valas a céu aberto ou em fossas escavadas na terra, sem paredes e sem coberturas, facilitando as infiltrações que contaminavam as águas das fontes e poços".

Vista Geral — Cova da Piedade ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe

Por outro lado, os baixos salários e o desemprego que atingiam as famílias corticeiras, marginalizavam este grupo do processo de desenvolvimento habitacional, contribuindo para a construção das dicotomias entre grupos profissionais [...]

A 22 de Novembro de 1938 a construção da nova sede foi adjudicada pelo valor de 291 contos a Celestino Rodarte de Almeida [...]

Grupo de colegas na varanda da nova sede, década de 1960.
Imagem: Cibersul

A electrificação da sede foi adjudicada sob proposta mais favorável ao sócio Manuel Minhós. A fiscalização do andamento da obra foi feita pelo sócio José Gil Duarte auxiliado pelo sócio Luís Galinha.

A Direcção aprovou [em 14 de abril de 1940] a Comissão para a Biblioteca que ficou constituída pelos seguintes consórcios: Luís Fernandes, João Valério, Felisberto Fernandes; Carlos Jóia, José Correia, Geordano da … e José Maria da Silva. 7 elementos. Os quais se comprometem administrar a biblioteca angariando dentro da medida do possível, livros, donativos, etc. que enriqueça, tão útil e educativo organismo [...]

Aspecto Biblioteca da Cooperativa de Consumo Piedense em 1956.
Imagem: Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

A criação de bibliotecas representava uma prática do movimento associativo dos finais do século XIX, tendo sido considerada matéria prioritária no âmbito das “Reformas de Carácter Económico” do Programa do Partido Socialista, redigido por Azedo Gneco e aprovado na II Conferência Nacional Socialista em Tomar, em Outubro de 1895 [...]

Da mesma forma que a fundação da Cooperativa remonta historicamente ao movimento associativista desta época, a criação da biblioteca parece-nos representar a continuidade de um projecto, justificando uma função cultural de compromisso para com os seus associados maioritariamente operários.

Ferreira de Castro na Cooperativa de Consumo Piedense, 1964.
Imagem: Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

Mas o desenvolvimento da biblioteca, como actividade organizada, apenas se iniciou em 1949, ano que assinala a sua inauguração, resultante do trabalho de um grupo de jovens associados.

A Cooperativa naquela época, estávamos no final dos anos 50 princípios de 60 e a Cooperativa Piedense tinha uma característica, aliás como todas as cooperativas, quer fossem de consumo ou de ensino, era regulada pelo Código Comercial.

Como eram reguladas pelo código comercial não estavam sujeitas à tutela administrativa do Governo. O Ministério do Interior daquela altura é que exercia tutela administrativa sobre as colectividades através dos Governadores Civis.

Na Cooperativa não era possível isso, porque era uma sociedade comercial, então tínhamos uma certa liberdade de actuação que as outras colectividades não tinham. Daí que a Cooperativa Piedense, como quase todas as outras Cooperativas daí da região, eram uma espécie de quartel-general da oposição ao regime. De maneira que as nossas vivências eram mais de critica e de encontrar soluções para fugir à vigilância das polícias politicas, porque eles embora não pudessem intervir, intervinham [...]

A informação mais antiga, produzida pela PIDE, sobre a constituição dos Órgãos Sociais da Cooperativa data de 1958 e consta de uma informação assinada pelo agente Lucílio Loureiro que começa por descrever a tarefa de que foi incumbido:

"Incumbido superiormente de averiguar os nomes completos, restantes elementos de identificação, modo de vida e porte moral e politico dos indivíduos que fazem parte dos corpos gerentes da Cooperativa de Consumo Piedense, com sede na Cova da Piedade, informo V. Ex.ª do seguinte [...]"

O MUD, Movimento de Unidade Democrática, foi uma organização política de oposição ao Estado Novo, criada por iniciativa de trezentos cidadãos de tendências liberais, onde se destacavam importantes figuras da intelectualidade portuguesa.

Foi em Outubro de 1945 no Centro Escolar Republicano Almirante Reis, em Lisboa, que o MUD nasceu numa situação de legalidade politica resultante do contexto da vitória dos Aliados, na Segunda Guerra Mundial e da consequente democratização de toda a Europa Ocidental. Salazar, isolado face ao novo contexto da política internacional foi forçado a “dissimular" uma aparente abertura política, reconhecendo o MUD como movimento de oposição democrática.

Dia Internacional da Mulher, 1958.
Imagem: Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

É neste contexto que a PVDE sofrerá uma reorganização interna e passará a designar-se por PIDE, Policia Internacional de Defesa do Estado, designação substituída em 1969 por Direcção Geral de Segurança durante a "Primavera Marcelista".

Os jovens que integravam as Comissões Culturais da Cooperativa e de outras colectividades locais encontraram neste movimento social uma oportunidade de participar e de concretizar a utopia de uma sociedade democrática que encontrou o seu momento mais significativo na campanha presidencial do General Humberto Delgado porque, "o regime só virá a sentir-se ameaçado em 1958. O sono letárgico das classes trabalhadoras durante grande parte da década de 1950, descrito por Mário Soares, seria antes a capa da actividade subterrânea de reorganização, tecendo na sombra os fios que permitiriam desembocar nas formas de luta expressa cuja espoleta foi retirada pela candidatura presidencial oposicionista do General Humberto Delgado" [...]

Este movimento popular, que mobilizou o país democrático de norte a sul, teve particular impacto sobre as memórias de alguns sócios da Cooperativa que viveram mais intensamente esta experiência como um processo de aprendizagem da vida política [...]

Segundo as narrativas das histórias de vida podemos depreender a existência de dois períodos de prisões políticas que marcaram as memórias de um grupo de sócios da Cooperativa: um primeiro período resultante da repressão pós eleitoral de 1958 e um segundo período, resultante do desmantelamento da rede do Partido Comunista Português da margem Sul até ao Algarve, em 1967 [...]

Na barbearia da Cooperativa de Consumo Piedense.
Imagem: Cooperativa de Consumo Piedense (grupo) no Facebook

Os sócios da Cooperativa que por afinidades de parentesco ou de amizade integravam esta rede social clandestina evocam nas suas memórias os nomes daqueles que representam os símbolos da resistência local, simultaneamente vítimas de um regime onde o medo e a violência se institucionalizavam através dos mecanismos de repressão e como meios de controlo social [...]

Quando cruzamos a porta principal do edifício deparamo-nos à nossa direita com uma porta de acesso ao espaço comercial e em frente com uma escadaria, no cimo da qual somos surpreendidos por um enorme painel em baixo relevo encomendado em 1939 ao escultor Júlio Vaz Júnior.

O referido trabalho apresenta duas figuras homem e mulher; ao lado do homem, este segurando um martelo, fica uma bigorna, ao meio de ambos figura uma roda dentada e na retaguarda das mesmas figuras humanas aparece uma chaminé fumegando, de tipo industrial.

Escadaria à entrada principal Cooperativa de Consumo Piedense, concurso de fotografia realizad na década de 1960.
Imagem: Arquivo Histórico da C.C.P. cf. Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

As duas figuras referidas estão de pé, frente a frente com as respectivas mãos direitas enlaçadas, como símbolo do aperto de mão em solidariedade. (1)


(1) Simões, Maria Dulce Dias Antunes, Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense, Lisboa, ISCTE-IUL, 2009

Artigos relacionados:
O pequeno operário

Clube Desportivo da Cova da Piedade
O primeiro de maio
Neo-realismos

Informação relacionada:
Cooperativa de Consumo Piedense (comunidade) no Facebook

Cooperativa de Consumo Piedense (grupo) no Facebook
Cooperativa Piedense faz 120 anos, in Cibersul
De Pé Sobre a Terra. Estudos Sobre a Indústria, o Trabalho e o Movimento Operário em Portugal
Estatutos da Sociedade Cooperativa Piedense, Diário do Governo, 13 de agosto de 1965

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Miniaturas românticas

Depois de varias e perigosas peripecias, de todo inuteis á curiosidade do leitor, o escaler abicou finalmente á praia de Cacilhas. 

Praia de Cacilhas, The Harbour of Lisbon, Charles Henry Seaforth (1801 - c. 1854).
Imagem: reprodução em colecção particular

D'um pulo eslava Lourenço em cima do caes, tendo exposlo d'antemao ao arraes lodo o plano de seus futuros designios.

Vejamos, pois, o que succedeu.

Lourenço subiu apressado a longa e difficultosa encosta, que conduz á villa de Almada, e parou no cimo, lá, onde alveja urna casinha graciosa, rodeada de espesso arvoredo, e fragrancias sem conto.

Cacilhas, Ginjal, Abel Manta (1886-1982), c. 1950.
Imagem: Museu Municipal de Abel Manta

A um signal convencionado, abriu-se urna das janellas d'aquella airosa e solitaria vivenda, e logo após assomou a ella urna figura de mulher, que mal se destacava ainda por entre as sombras quasi desvanecidas da madrugada.

— Es tu, Lourenço? — pergunlou Beatriz n'um tom receioso e baixo.

— Sim, meu anjo, é o teu amante, que te espera. Convém nao demorar, de modo algum, a nossa partida. A claridade comega a romper, e os nossos esforços serao frustrados, se nao fugirmos antes do dia.

— Então já, meu amigo. Fujamos, emquanto étempo. Meu pae dorme profundamente, e creio até que ninguem mais vela nesta casa.

Neste comenos, Beatriz atou um lençol á beira da janella, procurando ter nelle um esteio seguro para a sua rápida fuga. Desceu, em seguida, até uma certa altura, em que Lourengo a pode suster em seus possantes braços, nao consentindo, por este modo, que seu pésinho aristocrata tocasse sequer esta terra ingrata e rebelde, que só pisam humildes mortaes.

Momentos depois as pedras da calçada iscavam fogo ao rápido perpassar d'um brioso alazao, que tomara o caminho do caes com celeridade inaudita.

Vista parcial do Tejo, Casa da Cerca e estrada da Fonte da Pipa, 1858.
Aguarela, aut. desc., datada 14 de Março de 1858.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Quem era o cavalleiro, ou antes, quem eram os cavalleiros, já o leitor, de certeza, o terá imaginado.

E como Lourenco pôde haver á mão aquello meio de transporte, fácil nos será tambem conjecturar, mórmente se nos lembrarmos de que elle havia transmittido, muito antes, as suas ordens ao arraes João.

Apearam-se no caes. Beatriz, quasi desmaiada, dando apenas accórdo de si, foi conduzida ao escaler nos braços de Lourenço, que a envolveu sollicitamenlc no seu "chale-manta", para evitar que sua melindrosa saude, d'algum modo, se alterasse com os rigores do tempo e intemperies da estação.

O escaler, depois, remou ao largo, e foi atracar a um brigue, que estava ancorado, defronte da torre de Belem, para onde Beatriz foi levada, a custo, com o salutar auxilio de Lourengo Viegas.

The Tower of Belem (cenário fantasista),  J. Catano, entre 1875 e 1900.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

D'ahi a duas horas já o navio se fazia de vela, com destino para New-York. (1)


(1) Lima, Magalhães,  Miniaturas românticas, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1871

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

De S. Sebastião à Cova da Piedade

Da ermida

O rei D. João III [em 1554] mandou erguer igrejas, nas periferias das cidades e das vilas em honra de S. Sebastião. O mártir protegê-las-ía da peste. Esta Ermida de S. Sebastião, erguida na freguesia de Santiago de Almada nasceu provavelmente desta provisão real.

Ermida de S. Sebastião, aguarela, aut. desc..
Imagem: Paróquia de Cristo Rei - Pragal

Ergueram-na fora de portas para, logo ali, atalhar todo o mal.

Um assento da Mesa da Santa Casa da Misericórdia de Almada, datado de 26 de Junho ou Julho, refere a existência da Ermida de S. Sebastião. (1)

Ao Sul e perto de Cacilhas [ao cabo da vila de Almada], está uma ermida, dedicada a S. Sebastião, martyr, que foi do padroado da camara municipal de Almada, a qual apresentava o respectivo eremitão.

S. Sebastião, Jean Poyer, Horas de Henry VIII, c. 1500.
Imagem: The Morgan Library & Museum

Ha n’esta ermida uma imagem de Nossa Senhora dos Prazeres, que foi alli collocada em 1669 [cf. Santuário Mariano, Fr. Agostinho de Santa Maria], por uns individuos que ninguem d’alli conhecia, e que não tornaram mais a apparecer.

Passados muitos annos, Catharina Maria, mulher de Francisco d’Azevedo Peleja, carcereiro da côrte, que tinha por estes sítios varias fazendas, e costumava vir aqui passar temporadas; tendo seu marido preso, por ter deixado fugir um criminoso (pelo que lhe tinham sequestrado tudo) e depois de ter despendido uns vinte mil cruzados (oito contos de réis) recorreu a afflicta mulher ao patrocinio da Senhora dos Prazeres, e é certo que o marido foi sôlto, e lhe foram entregues os bens sequestrados.

Nossa Senhora dos Prazeres.
Imagem: Arquidiocese de Fortaleza

Catharina Maria, em reconhecimento d’esta ventura, que attribuiu a milagre da Senhora, lhe restaurou a ermida, comprou paramentos, fez vestidos ricos á Senhora (que é de roca) e fez-lhe uma grande festa no seu dia (1.ª segunda feira depois da oitava da Paschoa) que d’ahi em diante se lhe fazia em egual dia, todos os annos. (2)

Provisão do rei D. João V [13 de Julho de 1729] pela qual autoriza à Câmara Municipal de Almada o desvio das verbas necessárias do cabeção das sisas para as obras da Ermida de S. Sebastião. A decisão do rei responde ao pedido dos vereadores e procuradores da Câmara, para que se sustivesse a ruína da Ermida de S. Sebastião.

A Provisão do Magnânimo refere que "a Irmida de S. Sebastião da mesma villa se achaaua ameassando ruína", diz ainda que os custos das obras necessárias ascenderiam a mais de trezentos mil réis "(...) os quais se deuião tirar dos bens reais, porque a dita Irmida hera do Povo e sempre se reparara pellos ditos bens (...)"

Realiza-se [em 15 de Julho de 1732] a bênção da 1ª pedra da (nova) Ermida [...]

O Terramoto [de 1 de Novembro de 1755 ] deixa a Ermida de S. Sebastião. arruinada assim permanecendo ainda em 1758.

[Em 1775 a ] Ermida de S. Sebastião encontra-se reconstruída [...] 

É extinto o cargo de Capelão da Ermida de S. Sebastião [1836].

A Ermida é utilizada como abegoaria e palheiro [1850].

Lanço de S. Sebastião à Cova da Piedade na extensão de 1.106,50 m,
Estrada districtal n.° 89 de Cacilhas a Cezimbra e Setubal
Imagem: Hemeroteca Digital

[Em 1904] a Ermida é vendida em hasta pública pela Câmara de então, sendo adquirida por particulares que a transformaram em imóvel de habitação e comércio.

Carta dos Arredores de Lisboa — 1 (detalhe),
Corpo do Estado Maior, 1902.
Imagem: IGeoE

28 de Julho de 1932 – Data do alvará sanitário nº 41 que dá licença a Maria dos Anjos para explorar um estabelecimento de taberna, sito em S. Sebastião.

É [em 31 de Dezembro de 1937] emitida a caderneta predial com o artº 211 de um prédio localizado ao cabo da vila e identificado como Ermida de S. Sebastião, o qual é composto por 1 loja, 13 habitações e 3 anexos.

"mais de uma dezena de famílias habitam agora num 1º andar improvisado e no pátio da que outrora foi a Igreja de S. Sebastião. Como se esta invulgaridade não bastasse, no r/c do ex-templo explora-se uma taberna"  [...] Correio da Manhã, 5 de Novembro de 1985 (3)

Almada, Largo das Andorinhas, ed. J. Lemos, 64, década de 1950.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna... Freguesia de Almada

[...] chama-se Largo das Andorinhas à confluência das Ruas Capitão Leitão, dos Espatários e Dr. Julião de Campos. A designação que não tem qualquer consagração oficial estende-se à proximidade imediata da citada confluência. É topónimo recente.

O lugar chamava-se de S. Sebastião até fins do Século XIX e retirava o seu nome do orago da ermida aí edificada no Século XVI. O edifício da ermida ainda existente é a reconstrução efectuada em fins do Século XVIII por o terramoto de 1755 ter deixado o templo muito arruinado.

Após a reconstrução foi fixada perto do altar-mor, com autorização do Patriarcado de Lisboa, uma lápide onde se dizia que a igreja pertencia ao povo de Almada. Junto da ermida existiam várias casas rodeando um pátio que entre os Séculos XVIII e XIX podem ter sido utilizadas como recolhimento.

Encimando o portão do pátio estava um conjunto de azulejos onde se lia: "1776 / AGORA HE RETIRO DECUIDADOS". O painel de azulejos bem como dois pequenos paineis circulares tendo ao centro uma argola para prender animais foram levados para o Convento dos Capuchos para ornamento deste, quando se demoliram as casas do pátio da quinta, na década de 50. 

Agora he retiro decuidados, antigo painel de azulejos da Ermida de S Sebastião, hoje no Convento dos Capuchos, Caparica.

O painel com a inscrição enfeita agora um portal no jardim inteiramente a despropósito sem qualquer legenda que lhe esclareça o sentido.

A Quinta já não era retiro em 1850, data em que estava na posse particular talvez por arrendamento. Era então conhecida por "retiro de cuidados". 

Na proximidade da ermida, cerca de 8o metros a Sueste levantou-se em 1810-11, o Forte de S. Sebastião das linhas de defesa da margem Sul do Tejo. (4)

À Cova da Piedade

Cova da Piedade, Largo 5 de Outubro, a multidão aguardando os ciclistas da 7a Volta a Portugal em 1938.
À esquerda da imagem o início da rua Dr. Oliveira Salazar, a antiga ligação S. Sebastião - Cova da Piedade.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Cova da Piedade, substituição da placa da rua Dr. Oliveira Salazar pela actual, rua da Liberdade, 1974.
Imagem: ed. desc.

Cova da Piedade, substituição da placa da rua Dr. Oliveira Salazar pela actual, rua da Liberdade, 1974.
Imagem: Fernando Cruz


(1) Paróquia de Cristo Rei - Pragal
(2) Pinho Leal, Soares d'Azevedo Barbosa de, Portugal antigo e moderno..., 1876  Mattos Moreira, Lisboa
(3) Paróquia de Cristo Rei - Pragal
(4) PEREIRA DE SOUSA, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Outras leituras:

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Sobre a questão corticeira de 1911

O Caramujo é um logar no concelho de Almada, á margem sul do Tejo, na bacia que este fórma em frente de Lisboa e conhecida pelo nome de Alfeite. É logar onde se exerce em larga escala a industria corticeira, estando ali estabelecidas muitas fabricas com uma população não inferior a 2:000 operarios corticeiros.

A questão corticeira, os incendios das fabricas do Caramujo.
Imagem: Hemeroteca Digital, Illustração Portugueza, 4 de setembro 1911

A industria corticeira é uma das mais nativas do país, que para a alimentar tem a primeira materia prima; mas pela mais incompreensivel das contradicções, é esta industria a que tem atravessado maiores crises entre nós, não pela falta de materia prima, que abunda, mas por faltas de trabalho ou de remuneração suficiente do mesmo.

Entretanto a cortiça tem largo consumo mundial, por suas varias aplicações, um consumo quasi tão importante como o da borracha, e o nosso país é o maior produtor e exportador desta materia.

Fabrica Villarinho depois do incendio.
Imagem: Hemeroteca Digital, Illustração Portugueza, 4 de setembro 1911

Estamos assim em presença de um problema economico por estudar, como tantos outros em nosso país, e cuja solução só se poderá encontrar no desenvolvimento do trabalho nacional para o que são precisos capitaes e saber profissional.

Emquanto não se conseguir este desideratum a nossa industria corticeira será apenas uma industria rudimentar de exportação para o estrangeiro por um valor minimo, e que nos é devolvida depois de manufaturada, nas suas diferentes aplicações, por valor muito maior. Em resumo, é uma mina portuguésa em que os portuguêses só auferem o trabalho do mineiro!

A ignorancia faz desconhecer as riquezas do trabalho, e como a maioria do capital está em mãos de ignorantes, é claro que se retrae para as industrias e procura na agiotagam ou no jogo das bolsas o rendimento de que precisa para não se desvalorisar.

O grande incendio das fabricas de cortiça do Caramujo. A fachada das fabricas incendiadas, foto A. C. Lima.
Imagem: Hemeroteca Digital

Isto é assaz primitivo, mas é, infelizmente, assim entre nós. Este é o estado das industrias em Portugal, incluindo a industria Mãe — a Agricultura.

Como se vê nem as industrias que mais razão tem de existencia no país, como a corticeira, escapam á regra geral, e bem pelo contrario é esta que, nos unimos tempos, nestes tempos de gréves, que estão sendo o pão nosso de cada dia, mais gréves tem levantado.

A ultima deu-se a meio do mes passado em consequencia de uma fabrica, a dos srs. Vilarinho & Sobrinho e de que é tambem proprietarío o sr. conde de Silves, fechar por falta de trabalho.

Francisco Manuel Pereira Caldas, filho de Marcelino José Pereira Caldas e de Maria Joaquina Gomes Vilarinho, nasceu em Monção a 8 de Dezembro de 1844. Era sobrinho de Salvador Gomes Vilarinho. 

Francisco M. Pereira Caldas.
Imagem: GeneAll

Foi um abastado proprietário e industrial de cortiças em Silves e no Caramujo. Militou no Partido Progressista, tendo sido deputado por Silves e por Oliveira de Azeméis. Coube-lhe o Título de Visconde de Silves, que foi criado por D. Luís I, por decreto de 28 de Outubro de 1886. 

Casou-se primeiramente com sua prima, Teresa Gomes Vilarinho, com quem teve duas filhas, e posteriormente com Albertina Moutinho, com quem teve uma filha e um filho. 

Foi-lhe atribuído por D. Carlos I, o Título de Conde de Silves, criado por decreto de 7 de Julho de 1897. Nesse mesmo ano, organizara a visita da família real a Silves. Faleceu em Silves, a 13 de Maio de 1915.

in Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia Lda., Lisboa-Rio de Janeiro, Vol. XXIX

Após a morte de Salvador Gomes Vilarinho, em 1883, a empresa de Silves passa a ser administrada pelo seu sobrinho [Francisco Manuel Pereira Caldas]. Na década de 1880 instalou uma unidade produtiva no Caramujo, concelho de Almada.

Em 1911, numa altura marcada por crise, protestos operários e recurso à greve, a fábrica do Caramujo foi encerrada, não resistindo à crise que atravessava o sector. Desfecho igual se verificou na fábrica de Silves, isto no ano de 1915. Francisco Pereira Caldas, acabaria por morrer nesse mesmo ano.

in Grandes empresas industriais de um país pequeno...

Os proprietarios desta fabrica anunciaram com antecipação aos seus operarios que a fechavam, prevenindo-os ainda para procurarem trabalho noutras fabricas, mas estas não os puderam admittir, por terem pouco trabalho tambem pois só funcionavam cinco dias em cada semana.

O chefe Carvalho dirigindo os trabalhos de rescaldo nos armazens das fábricas Fernandes, Villarinho.
Imagem: Hemeroteca Digital, Illustração Portugueza, 4 de setembro 1911

Os operarios da fabrica Vilarinho & Sobrinho, na prespetiva [sic] de não terem trabalho, entenderam que o melhor era declararem-se cm greve, o que fizeram na vespera do dia da fabrica fechar, impedindo até que os proprietarios embarcassem uma porção grande de fardos de cortiça em quadros.

A Associação dos Corticeiros da localidade, que tinha intervido para resolver a situação, vendo que não conseguira obter trabalho nas outras fabricas para os operarios desempregados, deixou a estes a liberdade de procederem como entendessem, o que deu em resultado declarar-se a greve de todos os corticeiros de Almada, realisando estes um comicio na Cova da Piedade, insistindo pela admissão dos operarios sem trabalho, nas outras fabricas, isto imposto como ultimatum.

Fabrica Villarinho depois do incendio.
Imagem: Hemeroteca Digital, Illustração Portugueza, 4 de setembro 1911

Depois de algumas conferencias com os fabricantes e operarios por intermedio do sr. Governador Civil, conferencias sem resultado satisfatorio para os operarios, estes que se conservavam em comicio, sob a presidencia do operario Bartholomcu Constantino, dispersaram, não sem ter havido acaloradas discussões, terminando a reunião cerca das 7 horas da tarde.

O rescaldo.
Imagem: Hemeroteca Digital, Illustração Portugueza, 4 de setembro 1911

Hora e meia depois rompia um pavoroso incendio na fabrica dos srs. Vilarinho & Sobrinho, ateado por varios pontos do edifício, pondo em alarme toda a povoação.

Fabrica Villarinho depois do incendio.
Imagem: Hemeroteca Digital, Illustração Portugueza, 4 de setembro 1911

Dos pontos altos de Lisboa e da margem do Tejo foi logo visto o grande incendio, tratando-se imediatamente de enviar socorros assim como do Barreiro e de alguns navios de guerra.

Os socorros que primeiro chegaram foram os dos bombeiros voluntarios de Cacilhas com duas bombas e carro de ambulancias, mas, desgraçadamente, mãos criminosas cortaram as mangueiras, inutilisando o seu auxilio pronto.

O incendio cada vez mais se desenvolvia e não foi sem um trabalho estenuante que se conseguiu localisal-o quanto possivel numa arca de 10:000 metros quadrados, compreendendo a fabrica e barracões de depositos e algumas casas de habitação. Um horror!

O acampamento d'alguns moradores da fabrica incendiada.
Imagem: Hemeroteca Digital, Illustração Portugueza, 4 de setembro 1911

Pela madrugada foram presos corno suspeitos dez operarios dos considerados agitadores, incluindo Bartolomeu Constantino, os quaes deram entrada na cadeia de Almada, onde se tem conservado, em consequencia dos operarios corticeiros se oporem obstinadamente a que os presos sejam removidos para Lisboa.

Os corticeiros em frente da cadeia d'Almada a fim de impedir que os presos fossem conduzidos para Lisboa.
Imagem: Hemeroteca Digital, Illustração Portugueza, 4 de setembro 1911

Os presos negam em absoluto que tivessem intervido no incendio, alegando que á hora que elle se declarou, estavam em suas casas com a familia. A greve continua sem solução. (1)

Os corticeiros em frente da cadeia d'Almada a fim de impedir que os presos fossem conduzidos para Lisboa.
Imagem: Hemeroteca Digital, Illustração Portugueza, 4 de setembro 1911

Lisboa viu na noite de 22 para 23 d'agosto um grande clarão no outro lado do rio. Correu gente para os pontos altos da cidade a vêr o espetaculo e dentro em pouco sabia-se que estava a arder a fabrica de cortiça do Caramujo pertencente ao sr. conde de Silves.

O fogo apparecera em tres partes ao mesmo tempo e com tanta intensidade que se communicou aos depositos situados a dez metros de distancia. Quando os voluntarios d'Almada o quizeram debellar repararam que tinham sido cortadas as mangueiras.

O rescaldo.
Imagem: Hemeroteca Digital, Illustração Portugueza, 4 de setembro 1911

Pediram-se logo anciosamente reforços para Lisboa; embarcou muito material d'incendio com cavallaria e infantaria da guarda republicana que foram recebidas com manifestações hostis.

A fabrica ficou totalmente reduzida a cinzas e as auctoridades d'Almada julgando que o incendio era um acto de sabotage, levado a effeito depois do comicio da classe corticeira terminado momentos antes de elle se manifestar, prendeu o agitador operario Bartholomeu Constantino e pouco depois alguns dos seus companheiros.
Bartolomeu Constantino foi um dos anarquistas portugueses mais proeminentes, senão o mais proeminente, no período conturbado da transição entre a Monarquia e a República.

Ao contrário de quase todos os outros revolucionários do seu tempo, que após a queda da monarquia, se foram rendendo às mordomias e corrupção do novo regime republicano, Bartolomeu Constantino manteve sempre uma grande autenticidade de convicções, tendo morrido em 11 de Janeiro de 1916 na mais completa miséria, com 52 anos.

Bartolomeu Constantino.
Imagem: Hemeroteca Digital

Ao longo da vida esteve preso 36 vezes!

Tal como vem descrito no Assento de Baptismo nº 145 do Livro dos Assentos dos Baptismos da Igreja da Nossa Sra. do Rosário da Vila de Olhão (existente no Arquivo de Faro) e confirmado pelos Arquivos do Cemitério dos Prazeres em Lisboa (onde ocorreu o seu funeral), Bartolomeu Constantino nasceu em Olhão, na Rua das Lavadeiras, em 23 de Junho de 1863, filho de mãe solteira, Antónia da Cruz, e de pai incógnito, neto materno de António da Cruz e Rosa da Conceição [...]

Dotado de qualidades oratórias extraordinárias, tornou-se num exaltado apologista da divisão equitativa da propriedade e das riquezas, passando a sua palavra a ser indispensável nos grandes comícios revolucionários da época [...]

Na sua época — a viragem entre o séc. XIX e o séc. XX — assistia-se ao nascimento de sonhos e utopias, mas também de enganos e mal-entendidos.

Em Portugal, os monárquicos resistiam sem fé à deterioração do seu regime, e os republicanos acreditavam ingenuamente que bastaria destronar o rei para, num passe de mágica, o País reencontrar a sua antiga grandeza [...]

Bartolomeu Constantino era um anarquista muito próximo dos possibilistas, que apelava à mudança com um mínimo de violência, através da educação das massas operárias [...]

Devido ao seu esforço, primeiro fundou-se a União Socialista, em 1899, e depois a Federação Socialista Livre, em 1901 [...]

Em 1903 Bartolomeu Constantino deixa Lisboa e segue para o Algarve, onde aparece ligado ao Grupo "Libertos", de Faro.

Viu-se envolvido nos incidentes ocorridos nesta cidade, em Fevereiro de 1904, por ocasião da visita do primeiro-ministro João Franco.

Acusado de ser organizador destes distúrbios, é preso em Junho de 1904, na Associação Marítima, onde residia e, posteriormente, julgado em Olhão no dia 4 de Agosto.

É defendido por Afonso Costa (várias vezes futuro primeiro-ministro de Portugal durante a 1ª República) que se desloca ao Algarve [...]

Passa a viver em Setúbal, onde instalou em 1906 um estabelecimento de comidas e bebidas e, em Junho de 1908, fixa residência em Almada (Mutela) onde participa activamente nas lutas sindicais da Federação Corticeira.

Teve um papel muito importante nesta região, durante a revolta que conduziu à proclamação da República em 5 de Outubro de 1910 [...]

Após a República, promove o primeiro Congresso Anarquista português de 11 a 13 de Novembro de 1911 [...]

Regressa a Lisboa, sendo a sua última morada uma loja do Beco da Ricarda, nº 4, na freguesia do Sacramento.

Quando morre em 11 de Janeiro de 1916, na mais completa miséria, a emoção nas classes operárias foi enorme [...]

in Associação de Valorização do Património Cultural e Ambiental de Olhão

Quando na manhã seguinte os quizeram enviar para Lisboa o povo e os corticeiros da região agglomerados diante da cadeia mostraram que o impediriam a todo o transe, transigindo n'este ponto o administrador do concelho.

O administrador do concelho sr. Raul Pires conferenciando com commandante e alguns officiaes da forças da guarda republicana.
Imagem: Hemeroteca Digital, Illustração Portugueza, 4 de setembro 1911

As outras fabricas da localidade foram logo cercadas por forças da guarda republicana, afim de impedirem tentativas da parte dos operarios que unanimemente negam o delicto que lhes imputam.

As patrulhas da guarda Republicana impedindo a passagem.
Imagem: Hemeroteca Digital, Illustração Portugueza, 4 de setembro 1911

Os prejuizos na fabrica do sr. conde de Silves são avaliados em duzentos e cincoenta contos de réis que teem de ser pagos na sua quasi totalidade pela Sociedade Portugueza.

No dia seguinte a associação de classe dos corticeiros reuniu em Marvilla e n'um protesto contra as accusações feitas aos seus companheiros, e ás sua prisões, deliberou fazer a gréve geral e desde logo a começou.

As ruínas da fábrica de Villarinho.
Imagem: Hemeroteca Digital, Illustração Portugueza, 4 de setembro 1911

Reclamou um inquerito rigoroso, repelindo toda a acção n'um acto que continua a não considerar como de sabotage. (2)


(1) O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 1177, setembro, 1911
(2) Illustração Portuguesa, n.° 289, Lisboa, Empreza do Jornal O Seculo, 1903- , setembro, 1911

Artigo relacionado:
A visita do sr. ministro


Informação adicional:
A cortiça nos debates parlamentares da nação portuguesa (1839-1899)

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Teu tio José Carlos de Melo

Almada, 3 de Abril de 1941

Romeu

Tenho presente o teu bilhete de 29 de Março e recebido a 31 do mesmo mês.

Carta Postal (detalhe), ed. Câmara Municipal de Almada, c. 1940.
Imagem: Delcampe

Fiquei bem impressionado por tomar conhecimento de notícias agradáveis a teu respeito e é de esperar que criando amisade e boa disposição no trabalho o futuro se apresente sorridente, como em dias de primavera e, que os dias sombrios e negros, que se pretendiam atravessar no caminho, se afastem por completo deixando-te ampla liberdade para olhares o dia de amanhã com fé e esperança.

Carta Postal (detalhe), ed. Câmara Municipal de Almada, c. 1940.
Imagem: Delcampe

O futuro a ti pertence, respeita, fás-te respeitar, para que assim todos olhem para ti com simpatia, amisade e respeito.

Por cá todos bem e muito se recomendam.

Agradecendo a tua gentil lembrança, aceita um abraço do teu tio que muito te estima

José Carlos de Melo

Carta Postal (detalhe), ed. Câmara Municipal de Almada, c. 1940.
Imagem: Delcampe

Saudades, estou melhor, um abraço e beijinhos

Venância Quaresma Correia [irmã, 7 anos] 


Imagem: Delcampe

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José Carlos de Melo
O Ginjal não é para raparigas solteiras

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Doca 13

Ao fundo de Cacilhas vira-se à direita, passa-se uma cancela de fronteira e, de repente, entra-se num mundo diferente: um grande estaleiro para reparações navais, um centro de saúde para os gigantes que neste tempo da exploração espacial sulcam os mares da Terra.

Cacilhas, Margueira, portaria dos Estaleiros Navais da Lisnave, c. 1980.
Imagem: Retratos de Portugal

Há no ar um odor a aço, em vez de desinfectante; os estranhos enfermeiros deste centro não usam batas mas têm na cabeça capacetes amarelos, e fatos azuis no corpo. No rosto, em vez de máscaras brancas e esterilizadas, óculos especiais para proteger os olhos da luz intensa das soldaduras. Nas mãos, os bisturis têm formas e nomes estranhos: maçaricos, bicos de acetileno...

"Observador" tinha um rumo definido: a doca seca para navios até um milhão de toneladas, baptizada com o mesmo nome do homem que deu corpo a uma grande empresa portuguesa: Alfredo da Silva. Tem um número temível, o 13, que neste caso poderá ser de fortuna. A sua beira sentimos a vertigem do abismo nos seus 15 m de profundidade. É um buraco enorme de 590 m de comprimento e 90 de largura.

Lisnave, Margueira, doca Alfredo da Silva, doca 13, inaugurada em 23 de junho de 1971.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Visto de cinta do pórtico rolante (65 metros de altura) a tentação da vertigem é muito maior. Os tractores que na altura da nossa visita limpavam o fundo da doca pareciam esses modelos miniaturais que se vendem em qualquer loja de brinquedos. Os homens, formigas...

Lisnave, lavagem de casco de navio com jacto de alta pressão, Augusto Cabrita, c. 1970.
Imagem: É tudo gente morta

Ao espanto físico juntava-se a perplexidade: para executar uma obra desta envergadura houve certamente enormes obstáculos a remover, dificuldades a vencer. Procurámos o engenheiro Álvaro Biscaia Barreto, um dos directores da Lisnave, para esclarecer toda uma série de interrogações:

— Do ponto de vista macroscópico não houve dificuldades para construir esta doca. O financiamento é todo português, através das instituições de crédito governamentais, da Caixa Geral de Depósitos e do Banco de Fomento Nacional, além dos recursos da própria empresa não houve, como se compreende, grande dificuldade em solucionar esta questão que envolvia capitais da ordem dos 600 000 contos, 2 como não há nos restantes empreendimentos em que a Lisnave está empenhada e que representam um investimento da ordem dos 350 000 contos. Esta doca da Margueira é, aliás, o espelho cristalino das possibilidades actuais da técnica e do capital português.

Lisnave, Margueira, doca Alfredo da Silva, doca 13, inaugurada em 23 de junho de 1971.
Imagem: Restos de Colecção

— Há 4 anos, quando da construção do estaleiro da Margueira, embora o projecto fosse português, houve que contar com um suporte estrangeiro. O financiamento foi também estrangeiro. Os equipamentos, em grande parte, vieram do estrangeiro. E passados 4 anos verificamos que fazemos um investimento da mesma ordem de grandeza (900 000 contos) e o projecto é inteiramente português, assim como a sua execução.

Em Junho de 1967 inaugurava-se nos estaleiros da Lisnave uma doca seca para navios até 300 000 toneladas. Quatro anos depois, no passado dia 23, entrava a funcionar uma nova doca para navios até 1 milhão de toneladas. Esta, fruto do trabalho português, 100 por cento. Ao abrir-se concurso para a empreitada de execução das obras, garantido que estava o capital necessário, surgiram empresas interessadas das mais diversas origens: dinamarquesas, suecas, holandesas, norte-americanas e portuguesas. Optou-se por uma destas últimas, segundo o nosso interlocutor, por duas razões:

— Primeiro, porque foi o preço mais barato apresentado; depois, porque era a solução técnica mais rigorosa e desenvolvida.

No entanto, era um risco...

— Foi meditadamente que corremos esse risco porque entendemos que são as próprias empresas portuguesas que devem trabalhar para o desenvolvimento do país. Para nós seria muito mais cómodo entregar a execução do projecto a uma firma americana, mas preferimos uma empresa nacional.

Aviso de inauguração da doca 13.

E o que é certo é que a obra se fez nos prazos estabelecidos, os problemas que surgiram foram resolvidos por técnicos nacionais, com mão-de-obra nacional e com fontes de financiamento nacional. O engenheiro Álvaro Biscaia Barreto vai mesmo mais longe:

— Podemos afirmar que 90 por cento da doca foi feita em Portugal por portugueses. Em 1 de Outubro de 1969 marcámos a data de 23 de Junho de 1971 para a inauguração oficial, e anunciámo-la oficialmente no mundo inteiro. Ninguém acreditou. Eu, por exemplo, que estava em Londres nessa altura, verifiquei que ninguém acreditava na viabilidade de se cumprir o prazo estabelecido. E ele cumpriu-se. Uma doca com as dimensões da "Alfredo da Silva" suscitou novos problemas que tiveram de ser resolvidos graças a soluções inovadoras.

Uma das peças fundamentais para o seu funcionamento é o pórtico a que já nos referimos. Qualquer coisa de espantoso... Dos seus 65 metros de altura é possível descobrir um panorama inesquecível sobre o Tejo e a margem norte. Lisboa, ao fundo, tem novas perspectivas, vista do pórtico.

Lisnave estaleiros da Margueira, aspectos da construção e montagem da doca 13 e do pórtico, Lourdes Matos, 1970-71.
Imagem: A indústria naval em Almada: na rota do progresso, Almada, Câmara Municipal, 2012, 97 págs

Equipam-no 2 ganchos independentes para 150 toneladas cada, além de um gancho rápido para 20 toneladas. A viga transversal tem 125 metros de comprimento e está colocada ao mesmo nível da água que a plataforma ferroviária da "Ponte Salazar". Gastaram-se na sua construção cerca de 50 000 contos. E foi posto de pé por uma empresa portuguesa.

Lisnave estaleiros da Margueira, aspectos da construção e montagem da doca 13 e do pórtico, Lourdes Matos, 1970-71.
Imagem: A indústria naval em Almada: na rota do progresso, Almada, Câmara Municipal, 2012, 97 págs

— Foi a primeira vez que a Mague — disse-nos o eng. Biscaia Barreto —  fez um pórtico desta natureza. Nunca o tinha feito. Pôs-se outra vez o problema: não seria um risco demasiado extenso atribuir a esta empresa a sua construção? Mas nós, conscientemente, resolvemos corrê-lo. Alguma vez teria de ser a primeira, e a Lisnave resolveu que fosse esta. A Mague fez o pórtico. E tão bem se houve que foi já contactada para construir um outro no projectado estaleiro de Setúbal, mais largo, mais alto e capaz de levantar 400 toneladas.

O ouro (negro) da Margueira

O estaleiro da Lisnave na margem sul do Tejo destina-se fundamentalmente à reparação de navios de grandes proporções: petroleiros e mineraleiros gigantes. Beneficiando das características excepcionais do estuário do Tejo e de uma localização geográfica privilegiada nas rotas dos petroleiros gigantes, a Margueira depende em grande parte do comportamento futuro desse negócio impressionante que é o do petróleo em bruto e dos seus derivados.

Lisnave, doca Alfredo da Silva para navios até 1 milhão de toneladas, estaleiros da Margueira.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Investimentos como este que a Lisnave está a fazer representam necessariamente uma aposta no futuro. Ouvimos ainda o eng. Álvaro Barreto:

— É um dos dados de todo o problema da instalação de uma indústria deste tipo. A indústria do transporte do petróleo não está ligada apenas ao tipo de transporte. Hoje é o petroleiro; se amanhã for o submarino, terá que ser diferente. Mas será o petróleo a fonte de energia que se vai manter nos próximos anos? Não irá a energia nuclear, por exemplo, ocupar o lugar do petróleo? Outro ponto a considerar é o das quantidades transportadas No ano passado transportaram-se por mar 1 000 milhões de toneladas de petróleo.

Estas quantidades estão em jogo basicamente por uma razão: há uma zona consumidora, altamente consumidora, que é a Europa Ocidental e que não é produtora; e há uma zona altamente produtora, que é o Médio Oriente, e que não é consumidor. Ora é deste desequilíbrio que nasce toda a rede de transporte. E a existência das frotas de petroleiros é um pouco a razão da existência do grande volume de reparações navais.

Com efeito, os petroleiros representam cerca de 45% do total das frotas de todo o mundo. E é a partir deste ponto que os mais diversos países europeus se lançaram a construir e a manter os seus próprios estaleiros de reparação. Na Holanda, na França, na Suécia ou na Alemanha, como em Portugal, são uma das indústrias mais activas. Todos esses países jogam no desequilíbrio citado pelo eng. Álvaro Barreto quanto aos centros de produção e de consumo.

Tudo se modificaria, por exemplo, se num futuro próximo surgissem perto da Europa jazigos de petróleo que anulassem a necessidade de importar do Médio Oriente. Isto, sem falar na possibilidade de o petróleo deixar de ser a principal fonte de energia do mundo contemporâneo.

— Assim é, na verdade. Mas os estudos que temos feito (e temos estudos e projecções até ao ano 2000) e também os estudos que temos obtido junto de entidades altamente colocadas como Hudson Institute e a OCDE prevêm que a posição do petróleo seja praticamente inalterada no ano 2000, mesmo que a energia nuclear continue a desenvolver-se a ritmo muito acelerado. E não deve esquecer-se que o petróleo é neste momento cerca de 45 a 50 por cento de todas as fontes de energia que existem no mundo.

A energia nuclear, que representa hoje 20 por cento dessas fontes, subirá quando muito a 25 por cento nessa altura. Por outro lado, as reservas de petróleo que, neste momento, estão reconhecidas no mundo, deixam prever que o Médio Oriente continuará a ser o principal centro produtor. Portanto, a indústria de transporte petrolífero vai manter-se pelo menos nos próximos 20 a 30 anos. O que não quer dizer que não haja uma viragem espectacular... E nesse sentido a Lisnave, embora continue a investir seriamente, está a praticar taxas de amortização muito elevadas.

A geografia manda

Uma das vantagens do estaleiro da Margueira sobre os seus congéneres da Europa é a situação geográfica nas rotas do petróleo. Os barcos, em geral; descarregam nos portos do norte da Europa. Mas não podem ser imediatamente sujeitos a reparações porque no seu interior ficam acumulados uma série da gases e de matérias combustíveis. Torna-se necessário fazer a chamada "limpeza de desgaseificação" que num petroleiro com mais de 100 000 toneladas leva 3 a 4 dias.

Lisnave, estaleiros da Margueira, Esso Bayonne, dezembro 1978.
Imagem: Flickr

Para os armadores põe-se uma opção: ou fazem os petroleiros esperar 3 a 4 dias nos portos de descarga para serem aí reparados ou mandam-nos de regresso e fazem a "limpeza" durante a viagem. Esta é a alternativa geralmente escolhida pois o armador tem de contar com a economia de escala que, num petroleiro de 250 000 toneladas, se traduz em cerca de 10 000 libras por dia (cerca de 700 contos).

Isto significa que 3 dias de imobilidade corresponderiam a 200 contos de prejuízo, que o armador pode evitar se puser o seu navio na rota de regresso e mandá-lo reparar num, estaleiro localizado nessa rota. Ora a Margueira está situada a cerca de 4 dias de viagem do norte da Europa. Assim, quando o petroleiro chega às imediações de Lisboa, completou praticamente as operações de limpeza e entra no estaleiro para reparar. Diz-nos o eng. Álvaro Barreto:

— Este é um ponto importante pelo qual a Lisnave tem obtido um sucesso extraordinário em relação aos petroleiros Mas há mais. A Lisnave surgiu numa altura estrategicamente ideal. Depois da guerra, um navio de 16 000 toneladas era um navio gigante. Em 1962, quando estudámos o estaleiro da Margueira, só havia 2 navios acima das 70 000 toneladas.

Portanto, os estaleiros do norte da Europa, mais antigos que o nosso, estavam preparados para esse tipo de navios. De repente, a crise no Médio Oriente, a Guerra dos Seis Dias e todos os problemas políticos que sugiram no mundo, fizeram com que os armadores fossem decisivamente para cima das 100 000 toneladas.

É então que surge a Lisnave e instala imediatamente duas docas: uma para 100 000 toneladas e outra para 300 000, coisa que não havia noutro ponto da Europa. A Lisnave arrancou, assim, primeiro que os outros e estabeleceu-se no mercado mundial. Isso foi há anos. Mas hoje, em 1971, a Lisnave lança uma doca para navios até 1 milhão de toneladas quando a maior que existe neste momento não vai além das 300 000, e muita gente está convencida de que não será possível passar a barreira das 450 000 toneladas. Objecta Álvaro Barreto:

— A Lisnave não está tão convencida como essas pessoas que a coisa vai parar nas 300 000 toneladas. Também há 4 ou 5 anos se afirmava que não iríamos além das 100 000 toneladas e depois das 200 000. Neste momento foi já lançado à água um navio para 372 000 toneladas e há 2 em projecto para 475 000.



Portanto, estamos convencidos de que mais cedo ou mais tarde a evolução tenderá para os petroleiros de 750 000 toneladas ou mesmo até 1 milhão. Mas mesmo que isso não aconteça, a Lisnave estudou a doca "Alfredo da Silva" de tal maneira que pode admitir simultâneamente 2 navios. Fez-se o estudo da viabilidade económica e concluiu-se que o facto de se poder docar 2 navios — um até 100 000 tone-ladas e outro de 250 000 — paga desde já o investimento feito. Simultâneamente ficamos preparados para a eventualidade de os petroleiros atingirem as 750 000 toneladas.

Lisnave, na doca 13 o super petroleiro da Elf, Pierre Guillaumat, 555,051 DWT,  c. 1978.
Imagem: Salvaterra e eu

Cerca de 1755, o futuro Marquês de Pombal encarregou o arquitecto Carlos Mardel de elaborar um projecto de melhoramento do porto de Lisboa, baseado "principalmente na construção de um arsenal que seria, em relação à sua época o maior do mundo".

No século XIX e no princípio do século XX volta à baila a ideia de dotar Lisboa com um moderno porto que acentuasse a presença de Portugal no mercado internacional. Mas a data-chave para a concretização desta ideia fixa-se em 1 de Janeiro de 1937, com a concessão à Cornpanhia União Fabril do estaleiro naval da Administração-Geral do Porto de Lisboa.

E, em 6 de Abril de 1954, com o desenvolvimento da nossa Marinha Mercante, D. Manoel Augusto José de Mello requer, ao contra-almirante Américo Deus Rodrigues Thomaz, então ministro da Marinha, licença para construir no estuário do Tejo uni grande estaleiro naval.

Em 11 de Setembro de 1961 é constituída a Lisnave — Estaleiros Navais de Lisboa, SARL — com o objectivo de continuar a realização do empreendimento. Os seus primeiros accionistas foram 6 estaleiros navais (2 portugueses, 2 holandeses e 2 suecos) e o Banco Fonsecas, Santos e Viana. A autorização governamental para a construção do estaleiro na baía da Margueira (margem sul do Tejo) foi dada em 20 de Novembro de 1962.

A primeira fase ficou concluída em Junho de 1967, data em que foram inau-guradas e entraram a funcionar duas docas, uma para navios até 300 000 toneladas de peso bruto e outra para 100 000. O empreiteiro principal desta primeira fase de obra, em que se gastaram 800 milhões de escudos, foi uma firma holandesa, a Royal Netherlands Harbour Works, de competência reconhecida internacionalmente.
E nessa mesma altura, graças a estudos criteriosos, manifesta-se a ideia de construir a doca para navios até 1 milhão de toneladas, agora inaugurada.
Fonte de divisas

Uma indústria deste tipo é com certeza um corredor largo para a entrada no país de divisas. A este respeito disse-nos ainda Álvaro Barreto:

— Cerca de 85 por cento do nosso volume de vendas é para o estrangeiro. E o nosso valor de vendas é da ordena de 1 300 000 contos. Portanto, poderá dizer-se que o volume anual de divisas que trazemos para o país rondará 1 milhão de contos, com tendência para aumentar logo que a doca "Alfredo da Silva" entre a funcionar em pleno.

Comparada por exemplo com o turismo, e partindo do princípio de que entram 3 milhões de turistas por ano em Portugal. A Lisnave representa cerca de 600 000 turistas em divisas entradas.

A Margueira, que é um estaleiro essencialmente dedicado à reparação naval, terá próximamente um complemento, pelo menos no sentido do que foi anunciado: o estaleiro de Setúbal, destinado construção naval.

— A Lisnave não tem nada a ver com Setúbal. Este é um empreendimento que está a ser estudado pelo grupo CUF. Na Lisnave, 49 por cento dos capitais são estrangeiros e só 51 por cento portugueses. E certo que o grupo CUF tem uma posição importante dentro da Lisnave, mas é este grupo e não a Lisnave que está neste momento a estudar o empreendimento de Setúbal A indústria naval parece ter entrado numa fase de grande arranque em Portugal.

Escudada em estudos criteriosos, promete ser um dos pólos do desenvolvimento nacional, a que o governo não está alheio e procurará certamente estimular. Mas, com a multiplicação de empresas, vai agravar-se o problema da falta de mão-de-obra, se entretanto o fluxo da emigração não for travado.

Deve dizer-se que só na Lisnave trabalham cerca de 4000 operários e técnicos aos quais é exigida, naturalmente, uma especialização num tipo de trabalho que em muitos aspectos é diferente de todos os outros ramos de actividade.

— É evidente que Setúbal vai criar problemas de mão-de-obra a nós e a todos os outros — diz o eng. Álvaro Barreto — Mas estamos convencidos de que o país dispõe de mão-de-obra suficiente. Especializada, não. Mas braços para treinar. É de referir a campanha que a Lisnave está neste momento a lançar junto dos emigrantes portugueses. Estamos certos de que já oferecemos condições de remuneração e sociais que interessarão muito emigrante a voltar para o seu país.

Lisnave, limpeza do fundo da doca com vista a estender a corrente da âncora do navio, Augusto Cabrita, c. 1970.
Imagem: É tudo gente morta

Com efeito a Lisnave está a anunciar em jornais de emigrantes e a colaborar com o Secretariado Nacional da Emigração no sentido de informar os portugueses que trabalham no estrangeiro das condições de vida e remunerações na empresa.

Além de idêntica colaboração com os consulados portugueses na Europa, a Lisnave estabeleceu uma campanha junto dos emigrantes em férias para que visitem as suas instalações e contactem directamente com as condições de trabalho aí proporcionadas. Este aspecto da mão-de-obra é importante no desenvolvimento de uma indústria como a naval, onde a sua participação no valor final do produto é da ordem dos 30 a 35 por cento.

— Este é outro factor que permitiu a concorrência da Livrava com o mercado h000 , • Trabalham aqui 4000 operários e técnicos altamente especializados: braços e cérebros que foram treinados, e certamente roubados à emigração. internacional Não é bem como muita gente às vezes diz que é a mão-de-obra barata. Em geral esta está ligada à menor aptidão profissional e há que distinguir entre os custos e a produtividade.

Lisnave, chantier naval au sud de Lisbonne, Guy Le Querrec, 1974.
Imagem: MAGNUM PHOTOS

O que está mais ou menos provado é que, se pagarmos menos,a produtividade também é mais baixa. Quer dizer, um operário sueco poderá ganhar vez e meia ou duas vezes,o que ganha um operário português. Mas também produz vez e meia ou duas vezes mais. A sua educação básica e a sua formação profissional são muito superiores. O custo da mão-de-obra não é neste momento uma vantagem para nós.

Lisnave, chantier naval au sud de Lisbonne, Guy Le Querrec, 1974.
Imagem: MAGNUM PHOTOS

Até porque, quando entra para a Lisnave, não é especializado. Fomos, por isso, obrigados a ter a nossa própria escola de formação em que investimos anualmente qualquer coisa como 30 000 contos. 

Lisnave, chantier naval au sud de Lisbonne, Guy Le Querrec, 1974.
Imagem: MAGNUM PHOTOS

Neste momento estamos a admitir pessoal só com a quarta classe e o serviço militar cumprido. Vai para a escola de formação durante 2 meses, depois é colacado na produção durante uns á meses e volta à escola para o aperfeiçoamento final. Somos nós próprios que formamos essa mão-de-obra. E isso custa muito caro, o que compensa de certa maneira o facto de a mão-de-obra ser mais barata.
Os trabalhadores

Em Outubro entrará em funcionamento, nas instalações da Lisnave, na Margueira, um dos maiores centros clínicos de empresa do país.

Concebido para satisfazer as necessidades de assistência médica de mais de 12 000 pessoas, será equipado de molde a nele se poderem efectuar serviços e consultas de quase todas as especialidades médicas, incluindo instalações de pequena cirurgia, farmácia e análises clínicas.

Construído em dois pisos, houve a preocupação de localizar no andar térreo todos os serviços essencialmente destinados a pessoas que, pelo seu estado físico, não possam ou tenham dificuldades em subir escadas.

As dimensões do novo posto clínico bastam para provar não só as actuais necessidades do pessoal da Lisnave como até as futuras. Neste momento destina-se a servir mais de 4000 empregados, aos quais se deve juntar cerca de 7000 familiares.

A sua construção foi decidida pelas direcções da Lisnave e da Caixa de Previdência da CUF (na qual se integram os trabalhadores da Margueira) e as obras executadas a expensas da Lisnave.

Epílogo

O repórter passara uma manhã na Margueira. Trazia os olhos cheios desse espectáculo vibrante que é o aço transformado em cascos de navios gigantes, ao pé dos quais um homem é minúscula formiga. Como português, sentia-se satisfeito por saber que na nossa terra já é possível, nos nossos dias, encontrar uma actividade capaz de suplantar o que existe no estrangeiro.

Nesta foto de 22 de outubro de 1973 podem ver-se, da esquerda para a direita, no cais 5, ao fundo, junto à Doca 13, o "Mobil Pegasus" (parte de ré); na Doca 12, o "Nanny"; na Doca 11, o "Texaco Amsterdam" tendo a vante, na Doca 10, em construção, o Bloco de vante do que viria a ser o "Marofa"; no cais 3A, o "Mactra"; no cais 3B, o "Mobil Pegasus" (parte de vante); no cais 2A, o "Warbah"; no cais 2B, (lado a lado) o "Ardvar" e o "Caspian Trader"; no cais 1A, o "Campos Sales"; no cais 1B, o "Epitácio Pessoa" e o "Metula"; no cais 0, o "Marofa", (Bloco de ré).
Nota: Nos cais 1 A e B e cais 0, os navios não estão completamente visíveis. A tonelagem "dead weight" total, destes navios, somava 1.770.000 tdw!

Fonte: Salvaterra e eu

Mais, capaz de ter feito essa obra impressionante que é uma doca seca para navios até 1 milhão de toneladas (a maior em todo o mundo), com projecto, técnica, capitais e mão-de-obra inteiramente portugueses.


(1) Observador, Verbo, Publicações Periódicas SA, 2 julho 1971,
cf.
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