quinta-feira, 30 de julho de 2015

Aqui na orla da praia...

Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

Costa da Caparica, P Muller, 1957.
Imagem: BBC Your Paintings

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Costa da Caparica, Adriano de Sousa Lopes (1879 - 1944).
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

Barco na Praia, Arménio Reis.
Imagem: BestNet

Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

Poente na Caparica, Francisco Maya (1915 - 1993).
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu. (1)


(1) Pessoa, Fernando, Poesia Ortónima de Fernando Pessoa

terça-feira, 28 de julho de 2015

Ílhavos

Há três dias que ando metido na ria, com a barba por fazer, sujo como um ladrão de estrada e fora de toda a realidade. Afigura-se-me que vivo num país estranho — amplidão, água e sonho. Pelo areal os palheiros da Costa Nova, S. Jacinto e da Torreira... Que me importa! (1)

Arrais Ançã perscrutando o mar.
Imagem: 200 anos da Costa-Nova

Se é saveiro, barco do (de) mar, meia-lua, barco da Arte ou casca de noz, é-me indiferente. Os pescadores dão-lhe o nome por que na sua zona é conhecido, e o resto é conversa fiada. Aqui nos barcos tudo é muito "flutuante".

Praia de Espinho, ed. Martins/Martins & Silva, 1113 década de 1900.
Imagem: Delcampe

2 remos ou 4 remos? Médio oriente ou local? Etc., etc. Impossível saber, pois a arqueologia nada nos diz, e a documentação é muito recente. Para mim, o barco grande evoluiu do pequeno (quando as redes aumentaram de tamanho), e este evoluiu da bateira de mar, que por sua vez é uma transposição e adaptação da da Ria para o litoral.

 in Marintimidades

Para os bairros lisboetas de Alfama e Madragoa, este então designado por "Mocambo" vieram os de Ovar, Ílhavo, Murtosa e Pardilhó. Eles dedicaram-se à faina do mar enquanto elas vendiam o peixe ao mesmo tempo que enchiam a cidade com os seus pregões tão característicos. Tornaram-se conhecidas por "varinas" as peixeiras ovarinas que vieram para Lisboa.

Pescadores de Ilhavo, desenho de Annunciação, gravura de Pedrozo, c. 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Esta gente formou ainda "colónias" em Almada, Trafaria e Costa da Caparica. A Costa de Caparica foi, quase até aos nossos dias, uma terra essencialmente piscatória e as primeiras habitações, cobertas ainda por colmo, foram construídas pelos pioneiros oriundos tanto do Algarve como de Ílhavo, no século XVIII.

Costa da Caparica, ed. Roland, c. 1950.
Imagem: Migracoes internas - os avieiros e outros

Os pescadores que exploravam as águas do rio Sado, da costa marítima adjacente e do alto, residiam quase todos em Setúbal, e alguns viviam a bordo das embarcações, como acontecia com os pescadores "ílhavos" que haviam emigrado para esta cidade em grande número.

Também os pequenos "varinos", tripulados por "ílhavos", actuavam junto à costa próxima dos bancos da barra e em todo o rio Sado, onde pescavam as espécies características da região.

Setubal, Castello de S Filippe, diferentes prôas de barcos de mar ílhavos na praia, c. 1868.
Imagem: Hemeroteca Digital

Praias de brancas e finas areias e de mar azul que também é céu. Costa de Caparica de finas e douradas areias numa imensidão onde o olhar se espraia tranquilamente.

Fonte da Telha e Lagoa de Albufeira onde sobrevivem os últimos pescadores das "artes" e das "meias-luas" oriundos de tão díspares regiões, como sejam Ílhavo, Costa Alentejana e Algarve.

Os primeiros habitantes do sítio de Olhão, seriam oriundos do distrito de Aveiro, talvez da freguesia de Ovar e Ílhavo porque em nenhuma praia algarvia se encontram pescadores mais audazes e com melhores disposições para a faina do mar e que se possam aproximar dos pescadores de Olhão.

Nessa altura [finais do século XVI] os Ilhavos, seguidos algum tempo depois por outros povos da Ria, pegaram nas suas canoas de tábua, que em praias de areia dourada facilmente entravam e saiam para o mar e partiram ao logo da costa estabelecendo novas povoações, entrando pelos rios Tejo e Sado e cruzando-se muitas vezes com os locais.

A arte da xávega, azulejos na Estação dos Caminhos de Ferro de Aveiro, F. Pereira, 1916.
Imagem: Arquivo Digital

Assim nasceram e cresceram Matosinhos, a Afurada, Mira, Cova da Gala, Costa de Lavos, Leirosa, Praia de Vieira de Leiria, Nazaré, Cascais, Costa da Caparica, Sto André, Aldeia da Meia Praia, Fuzeta, Olhão, Monte Gordo e Isla Cristina. (2)


(1) Brandão, Raul, Os Pescadores, Paris, Ailland, 1923, 326 págs, 127,7 MB
(2) Nomes de familias de Ílhavo no Litoral Português

Artigos relacionados:
Os saveiros meia lua da Costa da Caparica

Arte xávega descrita por Romeu Correia

Leitura relacionada:
Angeja, António, No rasto da diáspora dos ílhavos
Fonseca
, Senos da, 200 anos da Costa-Nova

Fonseca, Senos da, Factos & História , A arte da xávega
Souto, Henrique, Movimentos migratórios de populações marítimas portuguesas 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Os dias 23 e 24 de julho de 1833 (parte II)

Cartas portuguezas*

Cova da Piedade, 23 de outubro [de 1886]

Sabe-se o que durante a noite de 23 para 24 se passou em Lisboa. 

Aqueduto das águas livres, ponte e ribeira de Alcântara, século XIX.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Um dos meus vizinhos da Cova da Piedade é o Sr. Ahrends, presentemente engenheiro da companhia do gaz, e descendente de uma familia da Pomerania, que em 1833 habitava no alto de Campolide um predio de tres andares. A familia Ahrends ocupava o segundo andar. No primeiro morava uma familia de realistas. No terceiro viviam refugiados, quasi escondidos, tres malhados.

Os realistas do andar de baixo tinham perfeito conhecimento da heterodoxia dos principios vigentes no andar da cima. mas fingiam ignoral-o, por uma especie de tacito accordo de inquilinagem amiga e de hospitalidade sagrada sob o abrigo das mesmas telhas.

O Sr. Ahrands, que a esse tempo era uma criança, com seis ou oito annos de idade, nunca mais esqueceu e tem bem presentes os episodios caseiros d'essa noite memoravel, da qual ainda hontem o ouvi fallar, sentado ao luar n'um banco do jardim da Piedade, a que o anno passado a camara municipal de Almada deu o nomo de largo do Duque da Terceira.

Na casa dos Ahrands, que na sua qualidade de pacificos allemães mantinham uma absoluta neutralidade na questão debatida em Portugal pela guerra civil, ninguem dormiu na noite de 23 para 24 de Julho de 1833. 

O que quer que fosse de extraordinario parecia passar-se no predio de Campolide. No primeiro andar, onde de ordinario se recebiam visitas e se conversava até tarde. não se ouvia o minimo rumor. No terceiro andar, onde geralmente a familia se recolhia o immobilizava desde o cair da noite, estavam todos a pé, e havia um constante reboliço de passos que iam e vinham, e de janellas que sucessivamente se abriam e fechavam.

Pouco depois da meia-noite começou-se a ouvir na rua, sobre as pedras da calcada, o pesado rodar de carroças, que umas depois das outras sahiam as portas, na direcção de Bemfica.

Os Ahrands, que vieram olhar da janella, viram até de manhã passar carros cheios de moveis, de bagagens e de gente, famillias inteiras de burguezes, homens, mulheres, crianças e principalmente frades de varios habitos, uns encapuxados no alto da carga das carretas, outros eacarranchados em burros, outros a pé.

Um dos malhados do terceiro andar, antes de romper o dia, desceu ousadamente á rua, e tomou o caminho de Lisboa. 

Durante toda a noite, por cima de Cacilhas se viu o céu avermelhado, n'um rubor d'aurora, pelo clarão das fogueiras. 

Lisbon from the Rua de San Miguel, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Ás 7 horas da manhã do dia 24, o malhado de Campolide que fora de noite á cidade, voltava n'uma carruagem a galope, para levar os companheiros. A parelha da sege tinha adornadas as cabeçadas de topes de fita azul e branca, semelhantes ao que o boleeiro igualmente pregara na copa do chapéu. 

Os que leram a chronicas do tempo, ou que folhearam os cinco volumes da interessante Historia da guerra civil e do estabelecimento do regimen parlamentar em Portugal, dada ao prelo pelo Sr. Simão José da Luz Soriano, sabem que estranho effeito produziu no governo de Lisboa a noticia da jornada da Piedade.

Entre os realistas que conseguiram embarcar e atravessar o Tejo, contava-se o proprio filho de Telles Jordão, que acompanhava seu pai na qualidade de ajudante de ordens e o vira morrer aos seus proprios olhos, no caes de Cacilhas.

O duque do Cadaval, reunindo por volta da meia noite um conselho militar, resolveu desde logo desocupar Lisboa. Pouco tempo depois retiravam as guardas dos fortes das margens de Tejo e das estações de policia, e de madrugada, depois de reunidos no campo Grande, sob pretexto de uma revista, todos os regimentos da guarnição miguelista, oito a dez mil homens, partiam pela estrada de Loures, abandonando a capital.

Lisbon from the chapel hill of Nossa Senhora do Monte, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Ás 4 horas da manhã, um grupo de catraieiros do Caes do Sodré, provocados pelo alfaiate Antonio Joaquim Governo, e logo secundados por alguns operarios que se dirigiam para o arsenal, levantaram os primeiros vivas á rainha e á Carta. Animado pela impunidade da primeira berrata, o grupo de Antonio Joaquim, que desde logo se encarregou de capitanear, tomou as armas e as bagagens de alguns soldados realistas, que essa hora passavam no Corpo Santo, dirigindo-se á revista do Campo Grande. 

Pouco depois, o Antonio Joaquim e a sua gente desarmaram igualmente a guarda que ainda então se conservava no arsenal de marinha. Tendo percorrido varias ruas da Baixa, e augmentando progressivamente de numero, porque não havia policia nem tropa para fazer dispersar, os populares foram ao Limoeiro o abriram as portas aos presos que alli jaziam, e entre os quaes se encontravam muitos homen politicos, alem dos tres que estavam no oratorio para serem suppliciados nesse dia.

Foi com os populares a que me refiro, e com cerca de cinco mil homens saidos das cadeias de Lisboa e rapidamente armados no arsenal do exercito, que a revolução rebentou.

Os burguezes, logistas, funccionarios, proprietarios, capitalistas, commerciantes — então, como sempre, ticios, calculadores o medrosos, ficaram prudentemente em suas casas. Foi depois de divulgada a noticia de que o exercito de Cadaval desoccupara a cidade, foi depois de verem pelos seus olhos a bandeira azul e branca hasteada no castello de S. Jorge, como em todas as fortalezas da cidade, saudada pelos navios surtos no Tejo, que a população "sensata" de Lisboa, que essa illustre parte da população, a si mesmo chamada por excellencia a "sociedade", é tão util á salvaguarda e á manutenção da ordem, quanto remissa em arriscar a pele, se resolveu emfim a sahir á rua e a sancionar com o seu beneplacito o facto consumado pela canalha amotinada e pelo populacho infrene.

Vista oriental de Lisboa tomada do jardim de S. Pedro de Alcântara, 1844.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Então se encheram as ruas de muitos homens denodados e ardentes, caminhando em triumpho bellicoso, procurando por toda a parte o perigo, para terem a gloria de o arrostar com uma bravura immensa, á qual apenas se poderia oppor o leve defeito de chegar um pouco depois do momento em que era util.

O castello de Almada, bem guarnecido e bem artilhado, só na manhã do dia 24 cahiu em poder dos constitucionalistas. Na noite de 23, depois da occupação de Cacilhas, o duque da Terceira mandou ao castello um parlamentario, que os realistas mataram a tiro, antes de o deixar aproximar da fortaleza.

Tem-se geralmente escrito que esse parlamentario era o filho do general Schwalback. Não é exacto. O filho de Schwalback, João Pedro Schwalback, mais tarde general elle mesmo e commandante das guardas municipaes de Lisboa, era amigo intimo do jovem official assassinado, o qual, ao esperar em Cacilhas, lhe confiou o annel que traria no dedo, que João Pedro se encarregou de entregar á noiva do seu desditoso camarada. 

Quando, no dia 24, o duque da Terceira atacou o castello, o governador, que vira tremular a bandeira azul e branca em todas as eminencias te Lisboa, julgou inutil para a causa realista persistir na resistencia, e todos os homens da guarnição que ainda não tinham fugido com muitos outros para Trataria, se renderam ao vencedor.

Para se assenhorear de Almada, o duque da Terceira quasi não teve mais trabalho que o de arvorar a bandeira, em signal de que todo o resto do perigo desapparecera com o inimigo dos fortes da outra banda.

As pessoas mais gradas do partido constitucional em Lisboa partiram desde esse momento ousadamente para Cacilhas.

Innumeros botes empavezados com as córes da victoria começaram a sulcar o tejo rutilante de sol; por toda a parte se ouviam musicas marciaes, canticos patrioticos, vivas enthusiasticos, tiros de regosijo. 

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

Das duas para as tres horas da tarde, o duque da Terceira com os 1500 bravos a sua heróica expedição partia em lanchas e em faluas, do pontão de Cacilhas para o caes do Sodré, entre a mais luzida flotilha de pequenas embarcações embandeiradas e floridas.

Conta-se que em todo o caes o illustre general não chegara a pôr os pés no solo, porque os habitantes o levaram nos hombros em triumpho, até aos paços municipaes.

No mesmo dia 24 chegava á barra a esquadra de Napier, que os ventos pauteiros do norte retardaram na costa do Algarve, impedindo-a de acompanhar a marcha do duque da Terceira. O almirante, acompanhado do duque de Palmela, subiu o Tejo num escaler, até ao arsenal de marinha, no meio de ovações pouco inferiores aquellas de que foi objecto o duque da Terceira. A não ser quatro dias depois, quando o imperador velo do Porto a bordo do Jorge IV, e, depois de haver chorado de commocão, na festa fluvial, arrojou a espada que trazia á cinta ao entrar em Lisboa, por entender que estava para sempre assegurada a paz e a concordia entre a familia portugueza, nunca anteriormente se vira, nem depois se tonou a ver um regosijo igual.

Tão sómente convêm notar, que no dia 25, horas depois da entrada triumphal do duque da Terceira, em Lisboa, uma festa analoga se fazia era Setubal, para o fim de celebrar, não a victoria da causa liberal, mas a da causa opposta.

As auctoridades, civis e militares, nomeadas dois dias antes por occasião da passagem do duque da Terceira, abandonaram velozmente a cidade, apenas presentirarn a approximação do exercito de Mollelos, e a entrada victoriosa do general realista produziu um enthusiasmo illimitado.

Setubal, Castello de S. Filippe, século XIX.
Imagem: In-Libris

Repicaram os sinos, estrondearam as salvas de artilharia, dadas pelos cidadãos no castello de S. Felippo, encheram-se da mais completa multidão as ruas, as janellas, os telhados das casas e por toda a parte se humedeciam os olhos, agitavam-se lenços, palpitavam desfraldadas as bandeiras encarnadas, e eram geraes e unissonos os vivas á religião, ao rei D. Miguel e ao bravo visconde de Mollelos.

Onde diremos que verdadeiramente estivesse a victoria das idéas? Ai de mim! Eu, francamente, creio que ella não estava em parte alguma. Na guerra de então, como na paz de hoje em dia, os principios eram para a grande maioria dos individuos um pretexto vago, abstracto, extremamente confuso.

Hoje concorda-se na politica por interesses combinados. Então discordava-se por interesses offendidos. E eis ahi a differença das praticas nas duas ultimas gerações da sociedade portugueza, cujo fundo philosophico é absolutamente identico. 

Quem fiar unicamente da importancia das idéas o exito do uma causa, está mal para chegar ao triumpho. O que preciso, é não collocar a opinião senão depois de preparado o facto.

Entre a batalha da Piedade e a chegada a Cacilhas, o duque da Terceira definiu bem as cousas por meio de uma simples phrase, que ainda se não escreveu, e que é preciso registar na historia do constitucionalismo.

Mutela na enseada da Cova da Piedade (detalhe da vista de Cacilhas e de S. Julião), Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Na subida da Muttela,os moradores do sitio vieram á estrada e ás portas das casas saudar com vivas a triumphante expedição liberal. O duque, passando a custo por meio da multidão clamorosa e enthusiastica, inclinando-se sobre o arção da sella, estendendo a mão direita aberta n'um gesto de pacificação, observava com bonhomia:

— Não se compromettam, meus senhores não se compromettam por emquanto, porque ainda se não sabe quem venceu!


* Reservando-se o direito de reedição, o auctor d'este artigo roga aos seus confrades da imprensa portuguesa o obséquio de o não transcreverem.

Ramalho Ortigão (1)


(1) Gazeta de Noticias, 20 de dezembro de 1886

Artigos relacionados:
O Caramujo, romance histórico
Guerras Liberais

Leitura relacionada:
Zan, João Carlos, Ramalho Ortigão e o Brasil, São Paulo, Universidade de S. Paulo, 2009

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Os dias 23 e 24 de julho de 1833 (parte I)

Cartas portuguezas*

Cova da Piedade, 23 de outubro [de 1886]

As condições biologicas favorecem neste sitio, ao que parece, a longevidade humana, porque noto que, quase não ha familia que não tenha o seu macrobio. O cantoneiro da estrada, homem indigena do logar, conta cento e dous anos de idade.

Jardim da Cova da Piedade, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 13
Imagem: Fundação Portimagem

Uma senhora minha vizinha conheceu pessoalmente, no tempo da invasão franceza, o general Junot, e embarcou para o Rio de Janeiro com o sequito de D. João VI, na memorável viagem em que muitas senhoras da corte, não levando outra roupa branca alem da que tinham no corpo, chegaram ao Brazil cobertas da "vermine" que se desenvolvera na imundice de bordo.

É sobre um conjunto de informações dadas pelo mais antigos habitantes, que eu pude aqui reconstituir, na maioria dos seus detalhes, a historia da famosa batalha da Piedade, que no dia 23 de Julho de 1833, na vespera da entrada em Lisboa do exercito libertador, decidiu da causa da revolução liberal portugueza.

O duque da Terceira, saindo do Porto por mar com uma expedição de 1,500 homens, desembarcara na praia da Cacella no principio de junho. A divisão realista, que a esse tempo ocupava o Algarve sob o comando do visconde de Molellos compunha-se de tropas de segunda linha, milicianos de Lagos, e de Beja, voluntarios de Tavira, Faro, Moura e Beja, e cavalaria de Ordenanças, de grandes plumas nas barretinas, sabres curvos e fortes eguas de andadura.

Batalha do Cabo de S. Vicente em 1833, Morel-Fatio.
Imagem: Wikipédia

Molellos, achando esta força insufficientemente disciplinada e extremamente dispersa para um encontro immediato com os guerrilheiros portuenses, retirara na direção de S. Bartholomeu de Messines, onde reuniu as tropas do seu commando, deliberando em seguida desoccupar o Algarve, vindo cobrir a estrada de Lisboa no Alemtejo, emquanto esperava na villa de Messejana que o duque de Cadaval lhe mandasse, de Lisboa, algum reforço, principalmente de officiaes, de estado-maior, para o fim de dar batalha.

Um acontecimento imprevisto veiu alterar o projecto do general realista. Uma guerrilha liberal, formada em Hespanha, cahe de repente sobre Beja e encurrala n'um convento toda a guarnição da praça. Molellos, obrigado a socorrer os voluntarios de Beja, dirige-se para esse ponto, abandonando Messejana e deixando a descoberto o caminho de Lisboa.

Emquanto a divisão de Molellos saqueava Beja, e, accrescentada com os contingentes recolhidos da provincia e chegados da capital, atingia uma força de 8,000 a 9,000 homens, com 400 cavallos e 10 boccas de fogo, o duque da Terceira, de accôrdo com Napéer [Napier], cuja esquadra sahira igualmente do Algarve para ir bloquear o porto do Lisboa, corria a marchas forçadas sobre Setubal, por uma estrada limpa, deixando atras de si o exercito realista conglobado em Beja e tendo na sua fronte o fosso do Tejo, poderosamente fortificado nas duas margens pelas tropas de Cadaval.

É difficil dizer qual fosse positivamente o plano do duque, no iniciar este arrojado movimento. Moço, valeste, audacioso, instigado pelo coronel José Jorge Loureiro e pelo capitão de engenheiros Luiz da Silva Martinho de Albuquerque, acompanhado de soldados perfeitamente disciplinados e aguerridos de uma bravura e de uma intrepidez a toda a prova, é natural que elle tivesse principalmente em vista bater-se, deixando o resto ao acaso.

Feliz no primeiro arranco, acclamado por sucessivas ovações populares em Villa Nova de Mil Pontes. em Cines, em Santiago do Cacem, em Alcacer do Sal, sabendo-se com dous dias de avanço sobre qualquer movimento que Molellos tentasse para o perseguir, o duque da Terceira, depois de tomar no dia 22 a praça de Setubal, cuja guarnição submeteu ou afugentou aos primeiros tiros, quasi que nem teve de commandar o movimento que se seguiu.

Os soldados impellidos pela abalada da victoria foram os primeiros a levantar o grito prophetico da campanha:
— Amanhã a Cacilhas, depois de amanhã a Lisboa!


Sobresaltado com as noticias desta marcha invasora e triumphante, o duque de Cadaval mandou reforçar com tres batalhões de infantaria e com tres esquadrões a guarnição de Cacilhas, que d'este modo atingiu a força do 3,000 homens sob o commando do brigadeiro Telles Jordão, o famigerado governador da fortaleza de S. Julião da Barra. 

Torre de S Julião da Barra, João Christino, c. 1855.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Era entre esta força e a do duque da Terceira, composta de pouco mais de 1,500 homens, infantaria, caçadores, soldados do regimento academico e 16 homens de cavallaria montados em pequenos cavallos de lavoura, que tinha de se decidir a sorte da guerra civil.

Telles Jordão, cuja atrocidade com os prisioneiros da Torre se tornou lendaria, era tão bravo quanto era bronco. Ainda ha poucos dias eu vi em Azeitão, na colecção dos manuscriptos do Sr. Joaquim Rasteiro, dois requerimentos de um preso das masmorras de S. Julião, cujos despachos escriptos e assignados por Telles Jordão sao perfeitamente caracteristicos.

O supplicante em ambos a documentos é o padre Domingos Gonçalves Velloso, o qual n'um d'eles pede que lhe seja entregue una pequena caixa com pastilhas de altéa, que mandara vir de Lisboa para se tratar de uma bronchite, o que lhe não fora entregue. Telles Jordão pôz a esta petição o seguinte despacho, a que conservo fielmente a fôrma orthograhica:
"Com receita de facultativo tem Lugar aintrada deremedios. — Telles Jordão gov."


No segundo requerimento padre Domingos, tendo mudado de enxovia, requer que da masmorra de que sahiu lhe seja enviada a barra em que dormia, feita de dous bancos e tres taboas, sendo todas as peças marcadas com o nome de Velloso, e alega em justificação de seu pedido o ter comprado a barra por lhe não permittir o estado deterioradissimo da tua saude o dormir na humidade do chão. Eis o textual despacho:
"Indefrido. — Telles Jordão gov."

Em estratégia o brigadeiro não era consideravelmente mais forte do que em orthographia. Na escolha dos seus cabos de guerra, D. Miguel, n'este como em quasi todos os casos, confundia a arte de mover soldados em campanha com a arte de jogar o páu n'uma feira e era sobretudo a força physica individual que o captivava e o decidia.

Elle mesmo tinha pelo militarismo, na accepção scientifica e disciplinar d'esta palavra, um desdem de valentão paisano e nunca poz em si galões de uniforme. O seu trage durante a guerra era invariavelmente a sobrecasaca lisa do pano azul, as meias de lã acima do joelho, as botas de cava com tacões de prateleira e o chapéu de dois bicos atravessado na cabeça, á "Napoleão". A sua predilecta insignia de poder era o cacete argolado, suspenso do pulso pelo fiador de couro, ou entalado entre o selim e a perna.

N'um quarto, que o principe habitava nas casas do Infantado, em Queluz, que, ha poucos annos ainda, foi pela primeira vez aberto por El-Rei D. Luiz, encontrou-se, entre guizados de machos e petrechos de caça e de gineta, um volumoso mólho d'esses varapáus, — sceptros de marmeleiro, de sobro ou de carvalho cerquinho, eloquentes symbolos do poder soberano, tal como n'esse tempo geralmente o comprehendia a phliosophia politica, genuinamente portugueza, da aristocracia nacional.

Telles Jordão collocou os seus postos avançados nas cumeadas da Amora e nas collinas sobranceiras a Corroios, postou a cavalaria por traz dos armazens do Caramujo, e foi esperar a approximação do inimigo na quinta da Ordem do S. Domingos, ainda hoje chamada a Quinta dos Frades e situada em frente da casa em que eu habito.

Pinheiro dos Frades, Cova da Piedade, ed. desc.
Imagem: A árvore do centenário

Eram cerca de duas horas da tarde quando Telles Jordão quasi consecutivamente ouviu os primeiros tiros na estrada da Amora e viu retirar em debandada pelas barroca de S. Simão as avançadas da infantaria, atraz das quaes descia em columna aceleradamente a divisão do duque da Terceira. Jordão deliberou destroçal-a com uma carga de cavallaria, que os regimentos liberais de bayoneta ralada repelliram com sucessivas descargas.

Estrada das Barrocas, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe

Deu-se então no recinto plano da Piedade, hoje ocupado pelo jardim publico e pelas novas edificações do logar, um encontro rapido, sangrento, extremamente rebolido e confuso. Muitos soldados, desarçonados pela fuzilaria, cahiram mortos ou feridos na primeira investida.

Vista Geral, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Emquanto a cavallaria se retirava para se formar com esquadrões novos de reserva ao abrigo dos edificios do Caramujo, a infantaria realista debandava tumultuariamente, varejada pelas balas, de envolta com os cavallos espantados e soltos pelas estradas do Alfeite e de Pragal.

Entrada do Alfeite, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

A segunda carga da cavallaria foi recebida á ponta da bayoneta pelo fogo, mais nutrido agora que da primeira vez, da infantaria do duque, formada por meio de uma rapida e precisa evolução em columnas contiguas de batalhões. Na retirada d'esta segunda e ultima carga a cavallaria realista debandou como debandara a infantaria.

Na fuga desordenada e panica os soldados largavam as armas e ou se acoitavam nas vinhas e por tras dos vallados do valle de Mourellos e da encosta do Pragal, ou tomavam as eminencias d'Almada para descer ao rio e embarcar para Lisboa.

Almada, Pragal, Vista Parcial, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Muitos se rendiam com armas e bagagens, mas o duque da Terceira, sem forças para guardar os prisioneiros mais numerosos que os soldados do seu commando, formou estes em columna e, passando por cima dos mortos que juncavam o campo, avançou impacientemente para Cacilhas pela estrada da Mutela, com as espingardas engatilhadas e os sabres em punho.

Plan de Lisbonne son port, ses rades et ses environs avec une petite carte routière du Portugal (detalhe), 1833.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Em Cacilhas a confusão era enorme. Soldados, officiaes, frades, paisanos, procuravam embarcar á pressa, enchendo o largo em que se tinham amontoado bagagens, armas, munições. Os pelotões do duque da Terceira, procurando assenhorar-se do cáes, abriam caminho á bayoneta. Foi n'este conflicto que um soldado de caçadores 2, voltando-se para o coronel Romão José Soares, lhe disse:
— Meu commandante, vê V.S. aquelle homem, que está á esquina, voltado para o cáes! É o Telles Jordão, que o conheço eu!


O coronel Soares correu então de espada desembainhada para o homem que estava á esquina, voltado para o cáes, o deitou-o por terra com uma cutilada. Era, com effeito o Telles Jordão, que, achando-do-se já com seu filho a bordo da canoa que devia leval-o para Lisboa, desembarcava para ir buscar o cavallo.

Depois do primeiro e unico golpe, Soares, vendo o brigadeiro rolar n'uma onda de sangue, voltou costas, com a espada ao ar, dizendo a um dos caçadores:
— Acaba-me esse homem.


O soldado, fazendo um passo á retaguarda e pondo á cara a espingarda, matou o governador da Torro de S. Julião com um tiro á queima roupa. Foi no dia seguinte que o povo, descobrindo o cadaver, o mutilou e arrastou profanado pelas ruas. 

Era ao sol posto quando as falúas trazidas a remo de Lisboa, porque não havia ponta de vento, se aproximaram conduzindo o regimento de reforço mandado pelo duque de Cadaval. Uma descarga cerrada de fuzilaria fez-lhes saber que vinham tarde para socorrer a divisão desbaratada.

E as falúas retrocederam levando para a capital a noticia de que eram do vitorioso exercito do duque da Terceira as escorvas cujo clarão de lá teriam visto espelhar-se nas aguas mortas do Tejo a toda a extensão do caes de Cacilhas.

Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 20, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Segundo a versão oral que serve de base á minha narrativa, os regimentos auxiliares de Telles Jordão chegaram tarde pela razão de que, na mesma tarde do dia 23, se procedia a uma execução no patíbulo do caes do Sodré, e o duque de Cadaval, receiando que este acontecimento provocasse da parte do povo de Listoa uma manifestação hostil ao governo, não quis desfalcar a guarnição emquanto se não achasse concluida a lugubre cerimonia.

Na ocasião de subir á forca. o condemnado ouviu os tiros disparados na Outra banda, presentiu que esse era o começo da victoria para a causa liberal, e considerando a impassivel indifferença com que o povo o deixava morrer precisamente no momento em que a liberdade chegava.

— Já não ha portugueses em Lisboa! exclamou tristemente. E foi essa a derradeira palavra quo elle proferiu. 

Um minuto depois o seu corpo, suspenso verticalmente do baraço, oscillava no vacuo, voltado para a outra banda do rio, d'onde cada vez mais proximos estalavam os tiros, e na sombra crescente do cepusculo começavam a tremoluzir como fugidios pirilampos as chammas das escorvas, emquanto do outro lado da collina, na pequena igreja da Cova da Piedade, se accumulavam os cadaveres dos que haviam morrido na batalha d'esse dia em ultimo holocausto ao velho e expirante despotismo do throno e do altar.

Museu Militar, Sala das Campanhas da Liberdade.
Imagem: Delcampe


* Reservando-se o direito de reedição, o auctor d'este artigo roga aos seus confrades da imprensa portuguesa o obséquio de o não transcreverem.

Ramalho Ortigão (1)


(1) Gazeta de Noticias, 8 de dezembro de 1886

Artigos relacionados:
O Caramujo, romance histórico
Guerras Liberais

Leitura relacionada:
Zan, João Carlos, Ramalho Ortigão e o Brasil, São Paulo, Universidade de S. Paulo, 2009

domingo, 19 de julho de 2015

Defesa de Lisboa em 1810

No início de dezembro, alguns movimentos das tropas francesas no sul da Espanha levaram a crer que uma movimentação estava a ser intentada no Alentejo, em apoio da renovada operação contra as linhas [de defesa], [no caso,] o promontório de Almada à esquerda do Tejo, oposto a Lisboa, que comanda a navegação do rio, e de cujas proteções abrange uma grande parte da cidade,* foi reduzido sob a superintendência do Capitão Goldfinch.

* O Tejo, oposto ao Castelo de Almada, tem apenas 2,200 jardas [2.011 mts.] de largo.

A military sketch of the country between Lisbon and Vimeiro occupied by the British Army (detail), 1810.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A esquerda desta posição ficava sobre a ampla bacia do Tejo, no alto imediatamente acima de Mutella; o seu centro estava no Monte de Caparica, Lugar de Monte, e a sua direita sobre a falésia rochosa, chamada de Altos da Raposeira, elevando-se acima do mar, a toda a extensão da sua frente, cerca de 8.000 jardas [7.315 mts.].

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813
Imagem: IGeoE

Uma cadeia de redutos, 17 em número [revisto posteriormente], flanqueando-se mutuamente, e tendo seteiras frontais, para permitir a observação nas ravinas, foi estabelecida sobre os outeiros mais proeminentes desta linha, estando a sua defesa unida com, e apoiada por, várias casas de campo na sua retaguarda, que, sendo construídas em pedra, com recintos de pedra, podem a qualquer momento ser formidáveis postos.
  • 01 Forte de Almada
  • 02 Forte do Pragal, perto do Pau de Bandeira, alt. 108 mts.
  • 03 Forte de Palença, 200 mts. a norte de Palença de Cima
  • 04 Forte do Raposo, na colina do marco trigonométrico
  • 05 Forte do Bicheiro, Quinta do Bicheiro, Caparica
  • 06 Forte do Prior, sítio de S. António na povoação de Caparica
  • 07 Forte da Granja, Quinta da Granja entre Formosinho e Vigia
  • 08 Forte de Castelo Picão, pequena povoação no monte de Caparica
  • 09 Forte de Montinhoso, no sítio do mesmo nome
  • 10 Forte do Guedes, atual Quinta da Conceição
  • 11 Forte de Murfacém, a oeste de igreja, alt. 105 mts.
  • 12 Forte da Raposeira Pequena, no atual sítio de Alpena
  • 13 Forte da Raposeira Grande, no lugar do novo reduto de Alpena
  • 14 Forte da Margueira, alt. 35 mts.
  • 15 Forte do Conde, atual rua Lourenço Pires de Távora
  • 16 Forte de S. Sebastião, 100 mts. a sul da ermida de S. Sebastião
  • 17 Forte do Armeiro Mor, Pragal, alt. 80 mts.
  • 18 Forte do Melo, Ginjal do Monte, Caparica
  • 19 Forte do Pombal, lado sul da estrada Caparica - Casas Velhas
  • 20 Forte de Possolos, onde hoje se encontra o cemitério de Caparica
  • 21 Forte de Pera de Cima, Quinta da Conceição, alt. 200 mts.
  •  
  • in PEREIRA DE SOUSA , R. H., Fortalezas de Almada e seu termo, Almada, Arquivo Histórico da Câmara Municipal, 1981, 192 págs.
Uma estrada afundada, que se estendia a quase toda a posição, na traseira dos redutos, formava uma comunicação segura entre eles e foi engenhosamente feita pelo oficial executivo para reforçar à sua defesa, cortada em banqueta, e protegendo fora do declive à sua frente, de modo a formar um caminho coberto normal, com locais armados nos pontos que davam os melhores flancos e que melhor poderiam ser apoiados pelos edifícios de pedra.

Fortificação típica das linhas de defesa de Lisboa, 1810.
Imagem: Papers on Subjects Connected with the Duties of the Corps of Royal Engnieers

O castelo de Almada, em ruínas, foi reparado e armado para defesa, de modo a formar uma espécie de cidadela interior, que deve garantir a comunicação com Lisboa até ao último momento; e como meio pronto de comunicação entre a esquadra e as várias partes da posição, foram contruídas estradas em várias pontos do penhasco,* formando a sua garganta.

* Após uma parte desta estrada ter sido construída, o acabamento do remanescente foi suspenso; em consequência dos inconvenientes ocasionados aos ocupantes de habitações privadas, e o conhecimento de que a estrada poderia, com a devida atenção, ser acabada quando requerido num tempo inferior ao necessário ao inimigo para reunir forças, e marchar através do Alentejo.

Ruínas do castelo de Almada, Carta Geographica da Provincia da Estremadura (detalhe), c.1777 - 1780?
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Foi proposto confiar a defesa desta posição aos marinheiros e fuzileiros navais da esquadra, juntamente com as milícias [ordenanças] e os corpos cívicos de Lisboa [voluntários], os redutos foram construídos com uma magnitude fora do comum, muitos sendo capazes de conter 400, 500, ou 600 homens, e desde 6 a 10 peças de artilharia; a guarnição calculada para o conjunto quando concluído será 7.500 homens e 86 peças de artilharia.

Soldado de Caçadores n° 6, 1811,
Organização de Beresford,
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

Qualquer ataque de Almada neste momento só poderia ter sido uma operação secundária; mesmo se bem sucedida, o Tejo ter-se-ia interposto como um obstáculo intransponível entre os vencedores e Lisboa, e ocupação do promontório deveria ter sido completamente dependente do sucesso na frente. 

Portanto, qualquer modo de ocupação de Almada, que devesse prejudicar a defesa das linhas, dificilmente poderia ter sido justificado; mas era objeto de um grande valor, assim, por meio de profundos trabalhos e um esforço que de outra maneira não poderia ter sido tornado útil, por ter eliminado a possibilidade de pequenas forças inimigas perturbarem a esquadra, criando alarme e confusão na capital, e, talvez, espalhando o pânico através do país na retaguarda do exército, no momento em que as linhas [de Torres, a norte de Lisboa,] fossem atacadas [...]

Castelo de Almada após as reparações de 1810, gravura (detalhe), Pierre Eugène Aubert (Aubert pére),
cf. Lisbon from Fort Almeida [sic], Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden,
Fieldmarshal The Duke of Wellington.
Imagem:  Biblioteca Nacional de Portugal

Nenhuma das objecções às linhas contínuas, no entanto, se aplicam aos postos fechados e isolados, cada um deles capaz de uma boa resistência, já que os intervalos entre eles não exigem uma linha de tropas de apoio, e após o fornecimento de guarnições para o trabalho, o exército pode permanecer em grupos abrigados, dos bombardeamentos, por algumas irregularidades do terreno perto do cume da elevações; 

Cabo do Regimento de Infantaria n° 24, 1813.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

ou se isso não se encontrar, no reverso, imediatamente abaixo da crista, pronto para se mover em grupos compactos e formidáveis sobre qualquer ponto ameaçado, ou formar em linha ou manobrar sobre os postos tomados, de maneira a melhor deter os esforços do assaltantes; um bom exemplo, cuja natureza da posição pode ser estudada nas defesas de Almada [...]

Soldado de Infantaria n° 8, 1810.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

Não se dá plano sobre as posições de Almada, Oeiras e Setúbal, já que é possível que, ao correr dos anos, sejam novamente ocupadas; uma referência aos planos pode ser feita por quem o deseje no escritório em Londres [...] (1)


(1) Jones, John Thomas, Memoranda relative to the lines thrown up to cover Lisbon in 1810, Londres, 1829

Leitura adicional:
Papers on Subjects Connected with the Duties of the Corps of Royal Engineers
Journals of sieges carried on by the army under the Duke of Wellington, in Spain, during the years 1811 to 1814

sábado, 18 de julho de 2015

A caminho de Cacilhas... (parte V)

Graças aos braços vigorosos do meu remador, o barco afastou-se rapidamente do Cais do Sodré, contornou alguns navios adormecidos do sono quebrado por duras jornadas de pesca e, em seguida, dirigiu-se na direção dos navios de guerra que estacionavam em águas mais abertas. A partir daí, não mais foi que uma corrida direta, sem obstáculo, sobre o Tejo, que agitava ondas pesadas sob o céu muito sombrio polvilhado de estrelas.

Barra de Lisboa vista do Caes do Sodré.
Imagem: Internet Archive

Desembarcamos em silêncio. De um pequeno albergue, à beira do cais, vozes rudes se faziam ouvir, e o fumo dos fogareiros, onde assavam castanhas enviava-me o seu odor acre. Subi rapidamente o caminho.

Ela viu-me a chegar a partir do terraço onde esperava por mim, e abriu-me a porta com um ar de mistério. Uma pequena lâmpada ardia no vestíbulo. Um gato roçou-se contra mim. Ela passou-me á frente, pegou na luz e subiu umas escadas de pedra e eu segui-a. O desenho azul de um painel azulejos estendia-se ao longo da parede; o vestíbulo parecia, do primeiro andar, na claridade indecisa da pequena luz, , ruidoso e frio, afogado nas sombras das madeiras escuras. Por vezes, ela voltava-se, me enviando-me um sorriso, abafando o som de uma porta, até que chegamos ao terraço, depois de atravessar três divisões.

Aí ela parou. E, silenciosamente, ardentemente, na alegria dos obstáculos superados, ela entregava-me a sua boca como uma recompensa pela sua ousadia. Ela tinha um vestido leve através do qual a sentia toda. E foi uma verdadeira excitação, um estonteamento sem dúvida provocado, o toque sedoso deste tecido que parecia a pele de um fruto maduro. 

Então, ela dobra-se nos meus braços como um ramo bruscamente inclinado, — e, e adivinhando o meu desejo, escapou-se de um salto, ligeira, sempre como o flexível ramo, que largado, saltou sobre pressão, chicoteando no ar, depois, ela voltou, caminhando como nua, na graça toda branca do seu vestido, a passos muito pequenos brancos como para não ceder, a cabeça curvada sob o encanto esperado, pálida, desmaiada no escuro de sua mantilha.

Ela avançava e recuava, como uma gata, agarrando com as suas pequenas mãos de virgem os seus palpitantes, rodando num ritmo estranho o seu tamanho flexível de árvore jovem em seiva, oferecendo-se, contendo-se, muda e contente, a cúpula estrelada do céu e o hálito dos jardins floridos.

Era uma noite maravilhosa, uma noite de lenda. Um contra o outro, no alto do terraço, escutávamos passar sobre o sono do campo o silêncio do espaço. As estrelas estavam tão altas nos seus campos ilimitados que quase não brilhavam. Nenhum som mais se levanta, nenhuma emoção mais passa; assistimos à sombra em movimento, a noite caminhado para nos levantar, nos levar na maré serena com os ruídos perdidos, as brisas soltas e o perfume das flores.

Oh! tão longe ela me levou, essa noite de outono, tão longe agora no recuo dos anos, a outras noites parecidas, até uma parecida languidez balsâmica, uma mesma juventude de esperança... Bem que outra imagem se tenha posto a reviver no fundo da minha memória, que outros traços renovariam diante dos meus olhos o milagre da sua terna beleza, e eu me perderia uma vez mais no sonho regressado, no encantamento de memórias inesquecíveis.

Almada, vista tomada do Campo de S. Paulo, década de 1890.
Imagem: José Luis Covita

E, sem dúvida, o valor inestimável desse momento foi, que junto da bela senhora, na noite perturbada do sul, a única ideia que me tem foi ainda a da querida adorada cuja proteção, apesar das distâncias, jamais me abandonaria.

Duvidaria ela, minha companheira do acaso? Os nossos sonhos, em ambos, encontravam-se na mesma preocupação; seu amor-próprio em jogo, ela foi empurrada para as piores dúvidas e sob a calma de rainha chocava um ciúme violento. Mais inquieto do que nunca, naquele momento onde me daria tudo, ela tardava indefinidamente, tendo posto muito em jogo, ao que não ousava, por medo de um desastre, informar-se do resultada. 

Pressionada também pela expectativa do prazer, uma emoção durante muito tempo contida tremia a sua carne com imperiosamente agitada. Ela permanecia assim no impasse em que a colocava a impaciência de desejo e medo de não ter triunfado.

Então ela cerca-me com os braços, que fazem do meu pescoço uma guirlanda de beleza, e mergulhando nos meus olhos as palhetas de ouro dos seus, ela balbucia contra os meus lábios, com a voz trêmula, suplicante:

— Diz-me que a esqueceste, que me amas mais do que a ela, mais que tudo...

Senti o seu hálito, e depois o choque inflamado dos seus beijos. Encontrei-a toda à minha volta embrulhando-me, tentando arrancar-me pelo contato da sua pele nua um pensamento que não era meu.

Foi o reflexo súbito de uma luz revelada, uma tristeza imensa tristeza no fiasco das minhas vaidades, das minhas loucas concupiscências. E eu não soube fazer mais do que queixar-me para não a ferir muito.

— Porquê sempre a sonhar com a outra? Por qual maldade evocá-la aqui?
— Tu não me amas! atirou ela bruscamente.
— Porquê não querer amar senão sobre ruínas, não poder alegrar-se com o pensamento de um desastre?
— Tu não me amas!
— Não posso eu amar sem renegar-me?
— Tu não me amas. Tu não me amas! ela continuou com a voz que embargava o seu brilho, e que se tornava rouca, terrível como o grito de uma fera ferida.

De repente, parou de falar. Todo o ressentimento subiu ao seu olhar, e a chama dos seus olhos brotava nos meus com um desprezo soberbo. Caímos no silêncio.

Amá-la, este escárnio! Amá-la, enquanto que um rosto querido acordava na minha imaginação, derretia nos meus olhos o brilho dos seus caracois loiros, a ternura virginal da sua aparência, sua carne rosada plena em flor. 

Amar? Essa má perturbação à qual me levava a tempestade dos baixos pensamentos, essa febre que me pesava o meu sangue e que eu transportava como uma carga. Não! Não queria esse pesadelo, nessa noite assombrada por um querido fantasma, sob as fiéis estrelas e o grande silêncio purificador.

Subitamente, ela recompôs-se. Não queria admitir a derrota. O orgulho da sua beleza a iludia-a. Rebentou a rir e flagelou-me estas palavras:

— O que quereis vós que isso me faça que a tenhais esquecido ou não, que vós lhe pertençais ou não, já que vos vejo junto a mim, que vós esperais da minha boa vontade, que vós beijais um canto da minha mantilha como um escapulário abençoado? O passado pode ser uma mentira; o que o não é, é o momento presente, o teu braço à volta da minha cintura, é o teu lábio que toma a minha boca e testemunha, apesar de ti, o teu amor. 

Que importa o vosso silêncio, porque é de vos possuir que o meu prazer é feito! O que eu quero, é dar-me — a senhora não pede nada!

Mais uma vez ela enlaçou-me — gata amorosa que recolheu as garras; no entanto, mais uma vez ela mostrou cruel, abafando sem conseguir o seu rancor de bela ofendida, tudo na esperança de um prazer pelo qual sufocava. Ser tomada, ser tomada novamente sob o grande céu grande que derramava a taças plenas na noite de outono as loucuras perdidas...

No entanto, quando ela me levou para o seu quarto e quando atrás de mim enquanto empurrava a porta, de repente fundiu-se em lágrimas. Não! todas as promessas de alegria estavam decididamente traídas perante a memória que não tinha podido vencer em mim e pelas quais se sentia insultada.

O capitão Joaquim de Deus devia chegar no dia seguinte, toda a possibilidade de se vingar se lhe escapava, de tentar uma vez mais a força da sua dominação. Já que ela se tinha oferecido, não podia mais recusar-se. E, encontrando-se desapontada, chorava. Agora tinha que entregar apressadamente à ameaça do marido precipitando a sua derrota.

Lisboa, Ponte dos Vapores, estudo para leque, Veríssimos Amigos, c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Atirada sobre a sua cama, com a cabeça enterrada na almofada, soluçava a sua raiva impotente, a neta dos Mouros...

Sentei-me na beira dessa cama, baixa como um divã, e peguei nas suas mãos e aos os seus dedos, num jogo lento, unia os meus. Dizia-lhe e coisas vagas e doces como as que dizemos às crianças que não são razoáveis.

Por vezes, também, para apaziguar um soluço marcando a minha comiseração, beijava as suas pequenas mãos nas quais as veias azuis faziam um desenho aristocrático... E pensei, entre as frases encontradas rapidamente e repetidas sem cessar, o meio de me evadir dessa casa, de deixar intacta ao valente capitão a sua pobre senhora.

Ela não falou mais, possivelmente, não ousou olhar-me. Talvez resignada, esperou-me? Eu não sei. Inquieto então de não mais a lamentar, só pensava em fugir. Tinha imensa pena se sente diante de uma mulher em lágrimas. Apesar da oferta desta beleza soberana, apesar do gesto simples que teria sido suficiente para a conquistar, eu enchia-me de acusações, só pensava à minha fraqueza culpada.

O tempo passou, enquanto eu continuava a récita dos meus propósitos afetuosos; e o tempo, após a emoção e as lágrimas, na tepidez calor da almofada, trouxe o sono à senhora.

O Pesadelo, John Henry Fuseli, 1781.
Imagem: Wikipedia

Abandonei as suas mãos. Escutei a sua respiração regular. Levantei-me. Ela ainda dormia. Então, empreendi essa coisa difícil de abrir a porta, de sair deslizando, de passar os corredores, a escada, e de chegar ao solene vestíbulo de madeira escura...

A noite estava alta, em plena glória de estrelas, em plena majestade de silêncio. As brisas sopravam passeando uma frescuras sã, fôlegos expiatórios de todas as impurezas do dia, de todas as vilanias que o meu coração se tinha enchido. E saí apressadamente.

Dificilmente voltaria ao caminho de Cacilhas que sobe na poeira amarelada ao longo dos muros altos de flores perfumadas.

Então não mais revi a bela senhora Amélia de Deus cujos olhos desfaleciam atrás da franja móvel das suas longas pestanas pretas [fim]. (1)


(1) Vignemal, Henri, Sur le chemin de Cacilhas, L'Instantané, Supplément Illustré de la Revue Hebdomadaire, 1901

Henri [Henry] Vignemal (1870-1941), pseudónimo de Maximilien-Henri van Ypersele de Strihou, foi um diplomata Belga, credenciado em 1894 em Berlim e em 1897 em Paris.
Em 1901 foi Secretário de Primeira Classe em Lisboa..
Filho de Joséphine Vander Nods (1846 - 1943) e Raymond van Ypersele de Strihou (1843 - 1931), diretor da plantação de cacau Ursélia Secunda, em Mayombe, participante nas atrocidades do Congo.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

A caminho de Cacilhas... (parte IV)

A nossa separação forçada teve sobre Amelia uma influência que não demorei reconhecer. Ela acolheu-me como se algo de essencial tivesse passado entre nós; eu, imobilizado na minha lembrança, fui acordado por ela, de repente, como que por uma queimadura. E sem alegria, dizendo a verdade. Ela não fez alusão minha confiança, mas à minha fidelidade era o único ponto duvidoso, já bem comprometido, infelizmente! tinha-a humilhado e ela havia resolvido vingar-se da minha ofensiva memória.

Vue de Lisbonne prise de Alfeite, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Essa certeza que eu lia seus lábios, os seus gestos — como todos os movimentos de prostitutas parecendo uma permissão — traíam com uma graça delicada e móvel, infinitamente variada como a chama dos seus olhos, certeza que me gela durante todo um dia, apesar dos esforços de sua persistente ternura.

Dos muros da cidadela os soldados observavam-nos. Fomos para outro lugar para lhes escapar. Nas bermas de um caminho deserto, onde grandes aloés formavam uma sebe, sentamo-nos diante um vasto horizonte que as montanhas fechavam. Seus contornos fundidos na bruma, suas arestas moídas, não pareciam mais do que uma habilidade de paisagista, uma sombra destina-se a colocar mais verosimilhança no encanto da luz.

No entanto, o charme que me desviava não era aquele que voava das suas pequenas mãos aladas que eu sentia, sem gosto, o esfregar nas minhas; e os lábios que eu beijava também não me retinham, embora eu os sentisse como pesadas flores tropicais de aromas plenos de febre. Distraidamente, como a prazeres exaustos, deixava-me ir a esses abraços, e sem a surpresa que acompanha a conquista, eu vogava para outros sonhos.

Almada, vista tomada do Campo de S. Paulo, ed. desc., c. 1903.
Imagem: Delcampe

Sabemos o que somos, o que sabemos, para onde vamos? Na desmoralização da minha culpa, era o pernicioso charme, essa ideia do negar tudo, a imensa comédia com que representamos com entusiasmo o primeiro ato, sem duvidarmos o que será o segundo e somente o desvelar. A impressão que nos deixa o sofrimento é diminuída, pela redução da nossa personalidade e da consciência de ser algo infimo na coletividade, o átomo anônimo, desembaraça-se um pouco de nós mesmos, adormece-nos e apaga-nos... Então as crueldades não sangram mais aos nossos fracos olhos.

A habilidade desta mulher, nas veias da qual uma semente perdida do orgulhoso sangue mouro tinha ainda germinado, a capacidade de conquistar era-me um assunto de estonteamento renovado. E eu soube mostrar-me dócil às suas tentativas de sufocar em mim o fantasma da minha felicidade passada. Ela foi pouco a pouco enlaçante e imperiosa; Ela tocava os olhos como um divino instrumento de luz; quente e rampante como uma pantera amorosa, gozona e queixosa, ela amarrava a suas mãos pequenas, castas como aquelas das virgens, e desnudava os seus braços, movia as ancas com uma indecência que crispava os sentidos. Ela dizia coisas semelhantes às das quimeras de sonho; ela proferia palavras que queimavam o fundo do ser. E ela mentia tão graciosamente, que era uma alegria para os ouvidos.

Eu também, mentia ao meu coração, ao meu passado.

Este ignora bem os maus segredos, que não viveu nos artifícios da luxúria. Ele não sabe até qual ilusão da imaginação nos podem levar os nossos sentidos perturbados, — já que não há outro modo de exprimir um desejo a uma mulher que lhe dizendo: "Eu vos amo."

Ai de mim! a miragem destas palavras às quais pouco a pouco nos deixamos prender; a miragem que afasta a nossa caravana a caminho dos belos oásis onde floresce a verdade da vida na ternura serena; a miragem que corrompe, que mancha, que lança sobre os seios ofegantes e a carne em fogo os nossos mais puros sonhos, as nossas mais luminosas esperanças...

Ela dizia: — Quero ser amada por um homem que resplandeça de beleza, valente como um leão e dócil como uma criança. Eu levá-lo-ia a delícias onde ele esqueceria tudo, tudo o que não fosse eu. E quando eu lhe dissesse: "Amigo, atirai-vos ao rio para me dar uma prova do vosso amor", na pressa louca de satisfazer o meu capricho, ele dar-me-ia a angústia de não chegar a tempo de o reter!

Sapho, Opera de Gounod, esboço de Edouard Despléchin para a cena final, 1851.
Imagem: Wikipedia

Estes propósitos obscureciam porque oferecia no encandeamento do seu corpo o preço dessas loucuras, porque ela também estendia o seu lábio para nada, e no seu corpete, na evocação deste amor assustador, os seus seios abanavam num tumulto de diversão.

Doçura de se deixar convencer quando já ter resolvido ceder! Doçura desta eloquência com a qual surpreendemos todas as armadilhas, e que isso ajudamos um pouco para nelas cair mais depressa! Doçura de todas as ironias às quais a vida se queixa e em que drenamos, embora que avisados, um embriaguez apesar de tudo!...

Foi por isso um longo prazer ceder às tentativas que Amélia fez para apagar as minhas recordações e a elas substituir-se. Mas ela resistia às minhas solicitações, esquivava-se sempre com uma crueldade excitante.

Sem dúvida, ela insinuava que o meu desejo ainda não era mais que uma febre passageira, este enrugar das águas à passagem de um sopro. O que ela queria era a conquista na fúria selvagem, o vento do frenesi, todas as emoções de uma pilhagem.

Eu não estava em uníssono com estas extravagâncias e sem dúvida parecia gelado à sua boca ardente, aos seus olhos de fogo: 
— Vós não me amais, dizia ela.

Outras vezes, era de Quitéria que ela se servia para motivar a sua recusa:

— Vós não conheceis aquela besta malvada! Sempre a espionar-me, deslizando sobre os seus pés nus como um réptil através da casa.

Então, ainda, era o receio do pecado, um estonteante acordar de superstição que agitava o corpo e reabria os olhos carregados desta neta dos Mouros.

E ela dizia sempre: Não! de uma forma particularmente teimosa, olhando à sua frente as falésias avermelhadas e peladas, os pastos e bosques que levavam as suas encostas distantes em direção ao mar.

O Ville de Paris, da carreira França - Espanha – Portugal, na barra do Tejo, Louis Lebreton, c. 1850.
Imagem: do Porto e não só...

No entanto, um dia, ela parecia muita agitada. O capitão Joaquim tinha anunciado o seu regresso. A recordação das suas carícias, o efeito de suas palavras, uma fadiga de luta, e, acima de tudo, o momento vindo, sobre o qual se pode sempre contar, quando uma mulher cede por uma contradição ou necessidade de terminar, ela apareceu-me enfim desacostumada de orgulho, oferecendo a sua beleza numa tal sede de amor que se tornava suplicante.

Ah! Como poderei alguma vez contar a intensa impressão dessa noite de outono, enquanto o sol caía no mar entre as brasas das nuvens amontoadas, e que ao som da minha tornada frágil de repente frágil, como dantes nas horas melhores, a feroz voluptuosa deixa cair no meu ombro a sua cabeça soberana e apaga o seu olhar nos meus olhos perplexos?

Ela não falava. Um calor corria debaixo de sua pele; seu rosto tinha uma palidez de pérola. Um fluxo de sangue avermelhava as suas orelhas e os seus lábios, enquanto a ebriedade que subia fechava mais os seus olhos, as suas pálpebras caíam como beijos sobre o seu olhar toldado...

Do sol morrendo numa chama, aos seus lábios, um sopro de amor levantava as melancolias profundas que dormem sobre as águas da noite e das montanhas desoladas. A noite vinha numa doçura de abraço, rápido como um véu caído, enquanto que as últimas glórias do poente palpitavam nos olhos da bela Amélia. Ela colocou os braços em volta do meu pescoço, e, derramada pelos meus beijos, numa demência emocionada, ela gritou: "Eu amo-vos!"

Detalhe da muralha do forte de Almada, década de 1910.
Imagem: Delcampe

— Esta noite, às nove horas, na minha casa, atira-me ela na fuga que a punham as seis badaladas das seis horas que caíam no campanário vizinho...

— Vamos embora [continua...]! (1)


(1) Vignemal, Henri, Sur le chemin de Cacilhas, L'Instantané, Supplément Illustré de la Revue Hebdomadaire, 1901