sábado, 31 de maio de 2014

O rei moço

Por 1858 D. Pedro V frequentava muito a casa de Alexandre Herculano [...]

Alexandre Herculano (1810-1877)
Imagem: Wikimedia Commons

D. Pedro V perguntava — usamos do termo, vulgar nas nossas províncias — a miude a casa da Ajuda. A voz de Stentor do creado acudia, cá de dentro, bradando: — Quem é?

A um submisso: — Faz favor — abria estrepitosamente, dava com El-Rei, e ficava varado!

D. Pedro V perguntava:

— O sr. Herculano está?

O creado, mudo, curvava-se até ao chão, n'uma vénia affirmativa. O monarcha seguia pelo corredor, levantava o fecho e dizia:

— Dá licença? Seja Deus n'esta casa.

Herculano recebia-o como estava; ás vezes, em trajo frasqueiro. Também lh'o censuraram. Queriam, provavelmente, que dissesse ao principe:

— Espere Vossa Magestade, que eu vou pôr casaca e lenço branco.

Não tinha esse mau gosto. D. Pedro V entrava. A conversação prolongava-se. Umas vezes tratavam de coisas graves, e outras de mais espairecidas, anecdotas politicas do dia, lettras, artes. El-Rei recitava versos, que lhe haviam agradado e tomara de cór, com a sua memoria bragantina.

De tudo tínhamos nós noticia depois, porque D. Pedro ficava só com Alexandre Herculano.

D. Pedro V estava então na adolescência. Parece-me agora vel-o. Sempre com a sua farda e a sua espada, como hoje trazem os militares. Alto, distinctissimo, sereno, parecia envolvel-o um nimbo refulgente de bondade! As pupillas nadando no esmalte das scleroticas. Cútis finissima, na transparência da pelle contavam-se-lhe as veias azuladas. Cabello loiro acendrado, caindo em natural desalinho sobre a testa e as fontes. Bocca graciosamente recortada, e vermelha. O beiço inferior um pouco grosso, mas não belfo, como o dos Braganças. A sua expressão habitual era meditativa. Quando sorria, a primavera ridente da mocidade varria as nuvens, que, não raro, toldavam o coração do principe.

D. Pedro V, William Corden sobre original de Winterhalter.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

D. Pedro V vinha dos esplendores do Paço. O piso suave das alcatifas, a curvatura dos fâmulos — grandes e pequenos, o ambiente morno das lisonjas, ainda dos mais honestos, todos os thuribulos, cujo incenso vicia o ar e entontece a cabeça, haviam de exercer no Rei a sua acção mórbida. Advertido, pela lição dos livros, caracter recto e razão solida, fugia d'elles? Talvez.

A pé e só, saía das Necessidades. Entrava no zambujal da Tapada, então bravia, como a caça de pello e de penna, que abundava por aquelles covões e chapadas. Os moinhos, tão pittorescos, uns agrupados, outros, aqui e além, pelos cimos flexuosos da serra, viravam as aspas brancas ao norte largo, girando, girando, para moer o trigo, que havia de alimentar o povo. Esses moinhos tinham servido de fortalezas para sacudir o despotismo, e firmar na cabeça de sua mãe a coroa liberal, que elle herdara. E o príncipe passava, aspirando a aragem acre e salubre. Vinha visitar o homem, que, traçando os annaes da pátria, desenhara a figura de seus avós. O Rei identificava-se com a natureza e tornava-se humano. Os copados zambujeiros, ramalhando, varriam-lhe do espirito os bálsamos palacianos. Só, e distante do sólio como rei, sentia-se maior como homem! N'aquella hora breve, solitária e folgada, vivia séculos na historia! O pensamento, ás vezes, é fardo acabrunhador, como disse o malfadado Millevoye. É preciso sacudil-o [...]

Acertava, ou talvez fosse propositadamente, vir o rei n 'alguns sabbados. As quatro, em ponto, levantava-se para sair. Sabia que n'esses dias, a essa hora, Herculano contava, á mesa, com os seus amigos. Seguindo pelo corredor, reparando na porta da casa de jantar, e fitando em Herculano um olhar significativo, disse-lhe, uma vez:

— Este officio de rei tem coisas bem desagradáveis!

Naturalmente os seus desejos seriam entrar, elle, moço, intelligente, amante das lettras, e tomar parte na convivência de rapazes que, na maioria, eram a flor dos talentos de Portugal!

Correu tempo. D. Pedro V casou. O noivado foi breve, porém luminoso, porque se amavam e entendiam aquellas duas almas!

Um dia veio a nuvem, súbita e temerosa!

Se a purpura se conservava sobre os hombros, o lucto da viuvez cobriu-lhe o coração até á morte! Nem os negócios públicos, nem o Curso Superior, que fundara com tanto gosto, lhe tiravam do peito aquella nódoa!

Rainha D. Estefânia, Karl Ferdinand Sohn, 1860.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

Para distrahir os irmãos, fez a viagem ao Alemtejo. Viagem fatal!

N'um dia de inverno — tenebroso dia — o bronze, ululante nas torres dos templos da cidade, e o canhão, ribombando nas fortalezas, annunciaram a morte do Rei á cidade consternada! A dor foi sincera e violenta, a ponto de romper em tumultos!

"Ao despotismo da morte respondeu a anarchia da dor!" disse José Estevão.

O préstito fúnebre, sem apparatos nem pompas, foi o mais tocante e imponente que se tem dado em Portugal. Nem uma carruagem! Das Necessidades a S. Vicente, duas renques de povo, firmes e circumspectas, como se fossem alas de militares disciplinados!

A morte de D. Pedro V tomou proporções de catastrophe nacional. O povo tinha a intuição do poder intellectual, do saber, da rectidão de caracter e da bondade do príncipe. Amava o e respeitava-o; sabia que no throno estava o seu amigo e protector.

Os políticos — politicos de todas as cores não andavam de boa avença com elle. A um óbice que o monarcha lhes puzesse, murmuravam, quando nos jornaes não declaravam:

— Governo pessoal, governo pessoal!

Os politicos pelam-se por elle, mas quando o rei se torna instrumento passivo dos seus desígnios e ambições. D. Pedro V não era para isso. Estava alli um homem. Como supremo magistrado do paiz, conhecia as suas obrigações; não exorbitava d'ellas, porém não admittia que lh'as invadissem. Tinha o sentimento da justiça e da moralidade em grau elevado, e via o caminho que isto ia levando. Não concedia nada, que fosse além do legitimo, nem pedia coisa alguma aos ministros. Que os reis também pedem!

Esta rigidez não se amoldava aos meneios e voltas da politica. A morte, ás vezes, é resgatadora de infelizes. Elle, cora o seu caracter, contra a onda das coisas, n'esta terra que havia de ser, senão um desgraçado! Morreu a tempo. Não poude ver as lagrimas que provocou a sua morte; mas sabia que era amado.

Para os que o conheceram, a figura de D. Pedro V tem o que quer que seja de phantastico. A sua belleza, o seu valor á cabeceira dos pobresinhos moribundos; o dia das núpcias; o véu da noiva e os botões da laranjeira, envoltos já nos crepes e nos goivos do sepulcro; a Rainha morta; elle, no Paço, com os irmãos, e a morte a pairar em roda dos Infantes! o Príncipe herdeiro, coração bondoso, intelligencia viva, porém tão juvenil ainda, tão inexperiente dos homens, das coisas, da politica, por esses mares fora; o paiz; o futuro; as primeiras arremettidas da febre, com que se teve ainda de pé; as visões, prologo da agonia; aquella figura apollinea, refulgente, envolta n'uma nuvem densa; o baquear na terra!...

[...] uma das referências unanimemente mencionada pelos autores, é a provável data da construção do Palácio Real do Alfeite, em 1758, por D. Pedro III, filho de D. João V e marido de D. Maria I.

Real quinta e residência do Alfeite, 1851.
Imagem: António Silva Tullio, A Semana.

Já no decorrer do século XIX, o Palácio Real do Alfeite foi, novamente, objecto de uma intervenção de remodelação e restauro, merecedora de registo pela sua magnitude, extensão e visão, transformando um edifício humilde, rudimentar, sem  ornatos, num imóvel arquitectónicamente equilibrado, esteticamente agradável, simples mas de linguagem imponente.

Esta intervenção esteve a cargo do arquitecto da Casa Real Joaquim Possidónio da Silva, realizada por ordem de D. Pedro V, e define exteriormente a actual configuração do palácio.

D. Pedro V (n. 1837 m. 1861), de seu nome completo Pedro de Alcântara Maria Fernando Miguel Rafael Gonzaga Xavier João António Leopoldo Victor Francisco de Assis Júlio Amélio de Bragança, Bourbon e Saxe Coburgo Gotha, cognominado O Esperançoso, O Bem-Amado ou O Muito Amado, foi Rei de
Portugal de 1853 a 1861.

"Em 1857, D. Pedro V fez grandes melhoramentos na quinta e mandou construir um novo palácio, mais confortável e de traça mais elegante – que ainda se mantém – para substituir o antigo".
in Mendes, José Agostinho de Sousa, A Quinta do Alfeite, Revista da Armada, 135, Marinha de Guerra Portuguesa, Lisboa, 1982.


Almada, Palácio Real do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

"No local do palácio sempre ali existiu um edifício com uma ponte de cais e acesso, que foi reformulado em 1837, com melhores condições para albergar a Família Real, mas as instalações que hoje conhecemos resultam da transformação mandada fazer por D. Pedro V, em 1857, de acordo com um desenho do arquitecto Possidónio da Silva".

in Matos, Semedo de, 150 Anos da chegada a Portugal da Rainha Dona Estefânia, Revista da Armada, 422, Marinha de Guerra Portuguesa, Lisboa, 2008.

Almada,  Praia do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 19, década de 1900
Imagem: Delcampe

"[…] D. Pedro V fez importantes obras na quinta do Alfeite e construiu um novo palácio. As salas são elegantes e bem mobiladas, a escadaria magnífica, as pinturas dos tectos são deveras artísticas e a quinta tem bellezas naturaes, existindo […] por vezes Suas Magestades vão de visita ao Alfeite, repousam alguns momentos no palácio, merendam na quinta, embarcando depois no magnifico cães junto do palácio".

in O Paço Real do Alfeite, Illustração Portugueza, Empreza do Jornal O Século, Lisboa, Outubro 1905.

Almada,  Largo da Quinta Real do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 17, década de 1900
Imagem: Delcampe

[…] Sua Magestade El-Rei o Senhor D. Pedro V acaba de mandar construir n’aquella quinta uma nova residência, mais confortável e elegante do que o antigo real casarão, escoltado de pontales, que lá havia. È architecto da obra, o da casa real, Joaquim Possidónio Narciso da Silva” [...]

in Alfeite, Archivo Pitoresco, vol. I, Typ. de Castro Irmão, Lisboa, 1858.

"A aristocracia desse tempo era pouco instruída, de mentalidade antiquada, muito arreigada às suas prerrogativas e ambições pessoas e ignorante do progresso realizado além fronteiras com o advento da nova era industrial. D. Pedro V dotado de viva inteligência e de notável formação moral e intelectual era muito estudioso, metódico e possuidor de invulgares qualidades de trabalho" […]
in Revista de Marinha, 390, Marinha de Guerra Portuguesa, Lisboa, 1950.

"D’entre as quintas mais notáveis do termo d’Almada, faremos unicamente menção das duas que pertencem á família real: a do Alfeite, que é da coroa, com jardim e grande matta abundante de caça, e agora aformoseada com un lindo palácio de campo, no gosto inglez, mandado edificar por el-rei o Senhor D. Pedro V […]"

in Barbosa, Inácio de Vilhena, As Cidades e Villas da Monarchia Portugueza que teem Brasão d’Armas, Lisboa, Typographia do Panorama, Lisboa, 1860.


Bibliografia: Pereira, Susana Maria Lopes Quaresma e, O palácio real do Alfeite: da fundação à contemporaneidade, século XVIII-XX: percursos e funcionalidades, 2009, Universidade de Lisboa.

Paço Real do Alfeite, Aguarela, Enrique Casanova
Imagem: Cabral Moncada Leilões

E pelas mesmas ruas, por onde elle passava, a cavallo, todos os dias, adolescente e confiado no porvir, o saimento muito vagaroso, por entre o povo todo de negro, n'uma tarde fria, húmida, sinistra, pela via dolorosa ; longa . . . longa .. . que não tinha fim!...

E n'este turbilhão de bailada allemã, que, ainda hoje, nós vemos passar D. Pedro V! [...]

Alexandre Herculano, Rebello da Silva, Sant'Anna e Vasconcellos, e eu, seguimos das Necessidades até S. Vicente.

Funeral de D. Pedro V, novembro 1861.
The Illustrated London News, gravura do esquisso de P. Anstell, 1862.
Imagem: Real Arquivo Digital no Facebook

Caia a noite, quando o Rei, no seu grande esquife, todo coberto de crepes, entrou o âmbito da egreja.

Foi a primeira vez que vi Alexandre Herculano chorar como uma creança! [...] (1) 


Medalha de D. Pedro V.
Inauguração do Palácio de Cristal do Porto em 8 de Setembro de 1861.
Imagem: Ebay

D. Pedro V nasceu a 16 de setembro de 1837.

Ascendeu ao trono em 1853, tinha 16 anos.

Casou em 1858 com a princesa Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen, que faleceria no ano seguinte.

Em 1855 presidiu à inauguração do primeiro telégrafo eléctrico no país.

Inaugurou o caminho de ferro entre Lisboa e Carregado em 1856.

Criou e subsidiou o Curso Superior de Letras em 1859.

Fundou hospitais e outras instituições, entre os quais, correspondendo a um pedido de sua esposa entretanto falecida, o Hospital de Dona Estefânia.

Em 3 de setembro 1861, inaugurou os trabalhos de construção do Palácio de Cristal do Porto.

D. Pedro V faleceu a 11 de novembro de 1861, tinha 24 anos.

O Palácio de Cristal do Porto foi destruído em 1951.

Medalha de D. Pedro V.
Inauguração do Palácio de Cristal do Porto em 8 de Setembro de 1861.
Imagem: Ebay


(1) Bulhão Pato, Raimundo António de, Memórias, Vol. II, 1894, Typ. da Academia Real das Sciencias, Lisboa.

Leitura adicional:
Vilhena
, Julio de, D. Pedro V e o seu reinado, Vol. I, Lisboa, Typographia do Panorama, Lisboa, 1921.
Vilhena, Julio de, D. Pedro V e o seu reinado, Vol. II, Lisboa, Typographia do Panorama, Lisboa, 1921.
Vilhena, Julio de, D. Pedro V e o seu reinado, Suplemento I e II, Lisboa, Typographia do Panorama, Lisboa, 1921.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Freguesia de Caparica no século XIX

Caparica — freguezia, Exlremadura, comarca e concelho de Almada, 6 kilometros ao S. de Lisboa, 1:430 fogos. 

Em 1717 tinha 1:193 fogos.

Orago Nossa Senhora do Monte. 

Patriarchado e districto admintstrativo de Lisboa.

Situada na esquerda do Tejo, e d'ella se gosam deliciosas vistas.

Carta chorographica dos terrenos em volta de Lisboa, 1814.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

É n'esta freguezia a chamada Torre Velha, ou de S. Sebastião de Caparica, que serviu de lasarêto. Fica em frente da torre de S. Vicente, de Belém.

Foi mandada edificar por el-rei D. Sebastião, pelos annos dé 1575.

Torre Velha ou Torre de S. Sebastião da Caparica, Francisco de Alincourt, técnica mista, 1794.
Imagem: Instituto Geográfico do Exército

Principia a freguezia logo á entrada da barra do Tejo, que a banha na extensão de 12 kilometros, pelo N.: o Oceano lhe serve de termo pelo O., e na praia está a aldeia da Costa, d'esta freguezia.

A matriz é um bello templo, fundado nos fins do século XVI.

O terreno d'esta freguezia é em geral fertil e seu clima saudável. Antes do oidium produzia annualmente, termo médio, 6:500 pipas de bom vinho.

Na aldeia de Mofacem, d'esta freguezia ha 30 e tantas cisternas, todas magnificas e de dispendiosa construcção, obra dos árabes. 

Foram elles que deram a esta aldeia o noma de mo-hacem, que significa barbeiro.

Vè-se pois que esta povoação é muito antiga. Capa tambem é palavra arabe (que os mouros adoptaram dos persas) significa mesmo capa. (Capote é diminutivo de capa.)

Ha duas tradições sobre a etymologia de Caparica.

Uns dizem que morrendo aqui um velho, declarou no testamento que deixava a sua capa para ser vendida e com o producto da venda se fazer uma capella a Nossa Senhora do Monte. Fez isto rir bastante; mas sabidas as contas, a boa da capa estava recheiada de bellos dobrões de ouro, que chegaram de sobra para a fundação da capella.

A segunda versão (e mais verosimil) é que, sendo a Senhora do Monte, de muita devoção para estes povos limitrophes, concorreram todos para lhe fazerum esplendido manto (ou capa) pelo que a Senhora ficou d'álli em diante sendo conhecida por Nossa Senhora da Capa Rica.

Junto a Caparica está o convento de capuchos arrabidos, fundado por D. Lourenço Pires de Távora quarto senhor de Caparica, em 1564. Elle morreu em 15 de fevereiro de 1573, e jaz na egreja do mesmo convento.

Costa da Caparica, Convento dos capuchos antes da restauração, ed. Passaporte, 30, c. 1950
Imagem: Delcampe, Oliveira

Este fidalgo, sendo embaixador de Portugal em Hespanha, em uma occasião que o imperador Garlos V estava zangado com elle, lhe disse : "Eu sei muito bem quantos rios e pontes tem Portugal" ao que Tavora respondeu: "Os mesmos que linha em 14 de agosto de 1385." Digna resposta de um bravo portuguez.

Caparica foi antigamente da comarca de Setúbal.

D'esta freguezia se avista a serra da Arrabida, Palmella, o mar, o Tejo, Lisboa e outras muitas povoações, montes e valles.

Antes de 1834 era o povo da freguezia que apresentava o cura, a quem davam anualmente, 1 moio de pão meiado e 5 pipas de vinho em mosto, a saber: os que tinham liuna junta de bois davam nm alqueire de pão, os que tinham duas ou mais, dois alqueires, e cada fazendeiro um pote de vinho. Andava tudo por 250$000 réis.

Além do convento dos capuchos arrabidos, ha mais n'esta freguezia um convento de frades paulistas, fundado em 1410. Este mosteiro está em um profundo valle, e era denominado, convento de Nossa Senhora, da Rosa. Na sua cêrca ha uma fonte, cuja agua dizem que cura a lepra e outras moléstias cutaneas. Foi fundador d'este convento Mendo gomes de Seabra.

Outro de frades agostinhos descalços, fundado em 1677. Este é no logar da Sobrada [Sobreda].

Ha n'esta freguezia nada menos de 24 capellas, entre publicas e particulares.

É terra muito abundante de aguas.

Tem vários portos de mar, sendo os principaes, Benatega, Porto Brandão, Paulina, Portinho da Costa e Trafaria.

Enseada da Paulina, revista Branco e Negro n° 60, 1897 (ver artigo dedicado)
Imagem: Hemeroteca Digital

Benatega é a palavra árabe ben-ataija. Significa, filho ou descendente da coroada. Vem de ben filho, ou descendente e de ataija coroada.

No logar da Costa, d'esta freguezia esteve (julgo que em 1823 ou 1824 D. João VI, hospedando-se na única casa de pedra que alli então havia (todas as mais eram cabanas da palha) 

Bellas Artes, 15, Costa de Caparica, A. Roque Gameiro, 1909.
Imagem: Delcampe

e tanto gostou da caldeirada que alli lhe deram, que fez o cosinheiro (dono da casa) mestre das caldeiradas (!) com a renda de 800 réis diários emquanlo vivo.

Costa da Caparica, casa da coroa.
Imagem: almaDalmada

Também aqui esteve a sr.a D. Maria II e depois, quando rei, seu filho, o sempre chorado D. Pedro V. (1)

A Sobreda (antigamente Suvereda) está ligada com a Charneca pelos terrenos de Vale Figueira.

Costa da Caparica, Carta dos Arredores de Lisboa — 68 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1902.
Imagem: IGeoE

Lugar solitário, assente sobre alguns outeiros, que lhe fornecem ao centro o caminho principal, desigual e pedregoso, que lhe circundam a parte baixa, a que chamavam no final do século passado [XVII] Largo do Rio, em consequência da bica que em parte do ano ali corre e fornece água às lavadeiras, e do poço público que por volta de 1800 a 1830 no mesmo largo foi aberto a expensas de um cavaleiro daquele lugar, o Fidalguinho da Sobreda, Francisco de Paula Carneiro Zagalo e Melo.

E para fazermos segura ideia do que era Charneca antiga e de que então era Vale de Rosal, e a sua importância histórica, ouçamos o que em 1647 diz o Padre Baltazar Teles em sua Chronica da Companhia de Jesus em Portugal

— Tem o colégio de Santo Antão (uma das primeiras casas da companhia de Jesus em Lisboa) uma grande quinta ou para melhor dizer, uma vinha chamada Vale de Rosal, que está na banda d’além, no termo de Almada, limite de Caparica, na freguesia de Nossa Sra. Do Monte, distante do porto de Cacilhas quase uma boa légua.

O martírio dos 40, Mathaeus Greuter, gravura, 1611.
Louis de Richeome, La peinture spirituelle, Folger Shapespeare  University
Imagem:  Aspectos de devoção e iconografia dos Quarenta Mártires do Brasil...

Fica esta quinta no meio de uma grande e estendida charneca: é lugar todo à roda muito tosco, seco e estéril, cheio de silvados incultos, continuado de matos maninhos, e de areais escalvados, escondido em vales, cercado de brenhas, coberto de pinheiros bravios, de zimbros, de tojos e de outros frútices silvestres: é sítio mais acomodado para caças de monteria que para morada de gente culta, e por isso mui frequentao de corças e veados, infesto de lobos e de outros animais monteses. (2)

Afonso Costa, o Ministro da Justiça  visita a Quinta do Vale do Rosal, 1911.
Ilustração Portuguesa, n° 263 II série, Lisboa, Chaves, José Joubert
Imagem: Hemeroteca Digital



(1) Pinho Leal, Soares d'Azevedo Barbosa de, Portugal antigo e moderno..., 1874  Mattos Moreira, Lisboa,

(2) Vieira Júnior, Duarte Joaquim, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Cacilhas 1957, cliché Passaporte

Farol de Cacilhas, ed. Passaporte, 20, 1957.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

António Passaporte (1901 - 1983)

António Pedro Passaporte nasceu em Évora em 24 de Fevereiro de 1901, tendo permanecido nesta cidade até à partida de seu pai para África, em 1911.

Crescerá também no meio de máquinas, câmaras escuras, salas de retoque, fotografias e chapas de vidro, que muitas vezes retiveram a imagem de homens aventureiros que em África procuravam melhor sorte.

De regresso a Portugal e já aluno da Escola Ferreira Borges, em Lisboa, participa em todas as festas em que pudesse actuar como artista de teatro.

Em 1923 parte para Madrid à procura de aventura, porque a condição de guarda-livros da Livraria Férin não se adequava à sua personalidade viva e sonhadora.

É em Madrid que irá iniciar a sua carreira de fotógrafo, tendo trabalhado nos Laboratórios Cinemat ográficos da "MADRID-FILMS", onde se torna amigo íntimo do filho do patrão, Don Enrique Blanco, e através dele vem a conhecer a sua irmã Gregória Ascensión Calleja Blanco, com quem viria a casar em Fevereiro de 1927.

Posteriormente, ingressa na firma francesa de "CHARLES ALBERTI" como vendedor de papéis fotográficos e heliográficos, tendo oportunidade de viajar por Espanha e Argentina.

Aproveita as viagens que tem que fazer como vendedor para tirar fotografias de paisagens e monumentos de Espanha.

Estas imagens viriam a ser expostas e logo a dquiridas pelo então Ministro da Cultura e do Turismo espanhol, general Primo de Rivera, para propaganda turística.

António Passaporte lança-se na edição de postais, que assina com o nome Loty, designação que resulta da combinação das duas primeiras letras do nome Lopez e das duas últimas do nome Alberty, os nomes do casal para quem então trabalhava.

Durante a Guerra Civil de Espanha a firma fecha, e António Passaporte inscreve-se na U.G.T., sob influência de seu irmão Bernardo que, entretanto também se instalara em Madrid, e comungava os ideais comunistas.

Recebe então uma proposta para ingressar nas Brigadas Internacionais [...] 

É neste âmbito que acompanha as operações de defesa de Madrid, servindo de repórter fotográfico ao longo da Serra de Guadarrama e na campanha de Brunete, onde se deram grandes combates.

Terminada a guerra , António Passaporte regressa a Portugal [...] – 1 deSetembro de 1939 – e inicia a sua actividade de fotógrafo com trabalhos de publicidade e arquitectura, retratos de artistas, fotografias de montras, etc. Obtém então encomendas da Philips, da Fábrica Nacional, do SNI e da Câmara Municipal de Lisboa que, em 1944, lhe encomenda uma reportagem sobre as fardas dos seus funcionários e também de diversas vistas da capital.

A sua primeira grande produção começa com uma edição dedicada à Exposição do Mundo Português, cujo sucesso obriga a família a não se deitar durante sucessivos dias para dar resposta às inúmeras encomendas.

Acompanhado pela mulher e filhos, que imprimiam, cortavam e esmaltavam as provas fotográficas, produzia milhares de postais que eram postos à venda à consignação em papelarias, barbearias e casas turísticas.

Foi no estúdio da Rua Luciano Cordeiro [para onde se terá mudado em 1946] que se dedicou com maior profissionalismo aos postais, auxiliado já então por máquinas industriais de impressão e secagem e dispondo também já de empregados dedicados a esta actividade.

Face ao elevado número de encomendas que o prendiam longas horas ao laboratório, António Passaporte fotografava aos fins de semana, tendo percorrido todo o país, no seu carro [...] onde levava todo o material fotográfico necessário, nomeadamente um tripé-escada que tinha mandado fazer e que lhe permitia fotografar de qualquer ponto.

A sua capacidade inventiva levou-o também a adaptar o próprio carro por forma a poder subir para o tejadilho e ali montar o tripé normal.

António Passaporte.
Imagem: Delcampe

O seu filho Rodolfo, que o acompanhou com frequência, conta que o seu entusiasmo e empenho por encontrar sempre o melhor ângulo, ou a melhor composição, o levavam a trepar por beirais, telhados, torres de igreja, sem olhar a perigos, com a mala de clichés ao ombro e máquina pendurada ao pescoço. (1)


(1) Câmara Municipal de Évora: A família Passaporte e os primórdios da fotografia em Évora

domingo, 25 de maio de 2014

Viva da Costa

Com a sardinha, empilhada,
Inda saltando vivaz,
Vem de cestinha avergada;
E lá de baixo, da praia,
E sobe a pino o almaraz;
Mas nem por sombras cançada!

Peixeira de Buarcos, Zé Penicheiro, 1954.
Série Costumes Regionais, Comissão Municipal de Turismo da Figueira da Foz.
Imagem: almanaque silva

Faz vista de nova a saia,
Corada ao sol e puxada !
Descalça — o pé regular,
E brunido pela areia
D'essas arribas do mar.

Peixeira de Buarcos, Zé Penicheiro, s/d.
Série Costumes Regionais, Museu Municipal da Figueira da Foz.
Imagem: almanaque silva

Não se pode chamar feia.
Descaída e longa a trança;
Affrontada de calor,
O lencito desatado;
E os beiços com tanta côr
Como a dum cravo encarnado!

Peixeira, Zé Penicheiro, 1954.
Série Costumes Regionais, Comissão Municipal de Turismo da Figueira da Foz.
Imagem: almanaque silva

A mocidade é uma flor! 

Magrinha — mas que vigor
No seu passo de balança!...
E, para apressar os passos,
São duas azas os braços!

Varinas, Maria Adelaide Lima Cruz, 1923.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

A venda deve ser boa,
Que ha muito que o mar não dá.
Com que alvoroço apregoa:

"Sardinha fresca!... frês-quiá!..."

Vem as outras companheiras
Mais atrazadas. Avante!
Ao Monte, por essa encosta!
Ao Monte, ao Pragal, e adeante,
Que ha muito que o mar não dá!

Pescadores e Varinas, Manuel Ribeiro de Pavia.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

"Sardinha fresca!... da Costa!"
"Viva da Costa!... frêsquiá!..."

O pae andou labutando
Por toda a noite! Puxava,
Mal vinha rompendo o dia,
O mar com fúria tamanha!...

Marujo e varina, Eugénio Silva, s/d.
Trajes Regionais Portugueses, edição Âncora.
Imagem: almanak silva

— Por um ai — Jesus! Maria!
Oue o barco se não voltava!

Nossa Senhora do Cabo!...
Nossa Senhora da Guia!

Salvou-se toda a companha,
E também la pescaria!

Barcos e Varinas, Rogério Amaral,  1951.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Foi a Senhora do Cabo!...
Foi a Senhora da Guia!

Ao monte, por essa encosta,
Que ha muito que o mar não dá!
"Sardinha fresca!... da Costa!..."
"Viva da Costa! frês-quiá!..."

Varinas no novo mercado de peixe, Joshua Benoliel, 1912
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

[Bulhão Pato,] Abril, 93. (1)

Retrato de Bulhão Pato, Columbano Bordalo Pinheiro, 1908
Imagem: Pintar a Óleo


(1) Bulhão Pato, Raimundo António de, Livro do Monte, georgicas, lyricas, 1896, Typographia da Academia, Lisboa.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

À Bulhão Pato

Aos meus camaradas devotos de Santo Humberto


Retrato do poeta Raimundo Bulhão Pato, Miguel Angelo Lupi, C. 1880
Imagem: ComJeitoeArte

Imaginemos que a partida de caça é no Alemtejo a grande coitada do paiz. 

Pernoita-se no Monte. 

Temos á flammante lareira, onde crepita ó toro de azinho, as paredes alvissimas, a prateleirinha um brinco, a cantareira um primor; duas enormes talhas com vinho novo, que se provou ha dois dias; que está magnífico: — tudo isto ahi... por princípios de novembro.

Ainda não houve a entrada real das gallinholas.

Nos montados os pombos são ás bandadas, são como nuvens, e arrazam a boleta; mas nós não vamos aos pombos. 

Parte dos companheiros batem as perdizes nos montes; outra, com as buscas e os galgos, correm as lebres a cavallo nos espragães e nas Sumarias.

Dois, com menos pernas, atiradores mais somenos, vão até um pedaço de juncal a ver se levantam alguma còdorniz crioula, e eu lhes direi logo o por quê.

Temos lebre, temos perdiz, e por ahi umas vinte codornizes.

Vamos ao banquete.

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Açorda á Andaluza
Arroz opulento
Perdizes á Castelhana
Lebre á Bulhão Pato

Açorda á Andaluza — Corte se um pão em fatias; torrem-se as sobreditas fatias; façam-se em quadrados, não em quadradinhos; pisem-se n'um almofariz vários dentes de alho, deixando três ou quatro com a casca — dá-lhe isto um certo sainete — sal, colorau doce e colorau do que morde; deve sair um bocadinho picante, que o palhete lá o está pedindo.

Sobre o pão torrado corram-se uns bons fios de azeite, se for do A. Herculano é oiro sobre azul.

Deite-se por cima el majado, isto é, o conteúdo no almofariz, e agua a ferver, mas com cautela, que fique enxuto. 

Abafe-se, deixe-se abeberar por cinco minutos, venha para a mesa. 

Temos uma sopa opipara!

Perdizes á Castelhana — Depennem-se quatro perdizes com todo o cuidado e o maior asseio — a caça fica dissaborosa em se lavando.

Tirados os interiores, mettam-se as perdizes n'uma panella de barro poroso.

Uma cabeça de alho inteira e com a casca, sal, colorau doce e pimenta preta em pó.

Duas chicaras de azeite e uma só de vinagre, quando seja muito forte; tape se a boca da panella com uma folha de papel passento; metta-se no borralho, isto é, onde a braza morde, debaixo da cinza; deixe-se ferver até que o garfo entre com facilidade.

Venham para a mesa os convivas, e se sobrar alguma cousa guarde-se como oiro, porque depois de frio, ao almoço... isto é da gente lhe lamber os dedos!!

Arroz opulento — Se os dois marteleiros metterem na rede vinte, quinze — uma dúzia de codornizes que sejam; se na sociedade houver um caçador jubilado, um immortal companheiro que se chame Lopes Cabral de Medeiros, e trouxer na mala, dentro de uma caixa de lata, um pedaço de queijo parmesão, d'aquelle que faz lagrimas, então o caso é serio!

Aproveitem-se figado, coração e moela; arranjem-lhe um refugado qualquer.

Noutra vasilha mettem-se as codornizes, com umas pedrinhas de sal e cobertas de agua, como para um caldo.

Numa fervura branda, ao cabo de três horas, as codornizes, tenrissimas, estão completamente delidas.

Coam-se por um passador fino. No caldo deita-se arroz. Vae-se ralando o queijo.

Quando o arroz estiver cozido, em boa conta e enxuto, dá-se-lhe graça e côr com uns longes de, açafrão: misturam-se-lhe òs interiores já competentemente guisados.

No momento de se tirar do lume deitam-se-lhe umas boas colhéres de manteiga — sendo fresca sobe de ponto o primor do acepipe. Queijo parmezão com mão larga.

Revolva-se; sirva-se bem quente, e temos um prato capaz de abalar a coragem do mais austero cenobita!

Lebre á Bulhão Pato — Esfole-se a lebre, esfregue-se com pimentão e sal; metta-se na vasilha onde deve estar aproveitado o sangue.

Vinagre forte e de bom vinho; rodas de cebola, alguns dentes de alho, poucos; uma folha de louro.

Como estamos no Monte ha de haver um pedacito de chão tratado de horta e na horta um canteirinho de salsa. Se a encosta próxima for de mato-jardim lá ha de estar o aromatico tomilho.

Venham também uns raminhos de salsa, e um tudo-nada de tomilho.

Passadas doze horas (se forem vinte e quatro não perde) envolva-se a lebre em pranchas finas de bom toucinho.

Espeto com ella;

De quando em quando constipada á corrente do ar; a espaços borrifada com a vinha, e, se, á falta de sercial ou malvasia, algum companheiro previdente tiver trazido uma garrafa de fine Champagne, para cortar a agua por causa das sezões, minutos antes de vir para a mesa borrife-se a lebre com um copito de cognac.

Quente é um assado optimo, e frio um fiambre primoroso.

Aqui ficam quatro receitas.

Agora se n'este inverno, que se annuncia próprio para os caçadores, por esses montes de Christo, um meu camarada, depois de uma boa batida, pozer em pratica algumas d'estas receitas e achar saboroso o guisado, beba um copo de vinho á saúde do seu confrade.

Outubro, 9, 1870, Bulhão Pato (1)

Bulhão Pato, Rafael Bordalo Pinheiro, Album Glórias, 1902
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Raimundo António de Bulhão Pato nasceu em Bilbau e morreu no Monte da Caparica (1829-1912), viveu a sua infância no país basco sob os efeitos dramáticos da guerra civil.

Em 1837, a família veio para Portugal, cansada das agruras da instabilidade espanhola, e em 1845 o jovem inscreveu-se na Escola Politécnica, frequentando, desde muito cedo os meios literários, onde conheceu Herculano, Garrett, Andrade Corvo, Latino Coelho, Mendes Leal, Rebelo da Silva e Gomes de Amorim.

Com Herculano estabeleceu uma relação muito especial e intensa bem patente nas suas recordações, através das quais conhecemos muitos pormenores biográficos do historiador.

Como poeta cultivou a influência romântica.

A sua primeira obra é de 1850 ("Poesias"), tendo publicado em 1866 a muito celebrada "Paquita" (depois de ter dado à estampa "Versos", em 1862).

Apesar dos elogios dos seus contemporâneos sobre a sua poesia, em especial de Herculano e Rebelo da Silva, o certo é que será como memorialista de primeira água que Bulhão Pato se afirma.

A sua prolífera criação chegou aos palcos do Teatro Nacional, em pelo menos um original e em traduções de obras clássicas.

Escritor dotado e de pena fácil dedicou-se também ao jornalismo. Amigo de Antero de Quental, sobre este disse: «bem no fundo, Antero foi sempre um romântico. [...]

Sobre a perfeição da verve disse do poeta micaelense [Antero de Quental]: "a língua, que principiava a ser desfeiteada, respeitou-as ele sempre. Percebeu que quanto houvesse moderno, seguindo todas as correntes, numa evolução progressiva, se podia dar dentro dela. Logo na infância a tinha bebido na fonte mais cristalina e abundante, porque fora discípulo de Castilho, quando o luminoso cego abrira o colégio do Pórtico. Na sua obra capital – os "Sonetos" - se pode ver como ele a maneja. Se não conhecesse a língua, não tinha feito aquela obra-prima". [...]

Lembremos sobre Herculano a invocação do Vale de Santarém: "Era plena primavera. Num ramalhete ondeante de loireiros, que sombreavam a azenha, os rouxinóis cantavam e eu julgava ver os olhos verdes de Joaninha, faiscando como esmeraldas, ao escutar os hinos daqueles inovadores alados que, do carinho da noite até à madrugada, improvisam, há milhares de anos, o poema vivo que faz palpitar todos os corações juvenis". [...]

E cabe uma derradeira nota, gastronómica.

Bulhão Pato aparece associado às amêijoas que não são suas, mas uma homenagem do grande João da Matta.

Guilherme d'Oliveira Martins (2)

Ameijoas à Bulhão Pato

Ingredientes:
1kg de ameijoas
6 dentes de alho
1dl de azeite
1dl de vinho branco
1 pitada de sal
1 pitada de pimenta
Piripiri
1 raminho de coentros
1 colher (sopa) de manteiga
Sumo de 1/2 limão


Preparação:
Lave as ameijoas e ponha de molho em água fria durante algumas horas.
Descasque e lamine os alhos e refogue-os ligeiramente num tacho com o azeite quente.
Quando estiver a ficar louro, regue com o vinho branco e junte as ameijoas.
Tempere com sal, a pimenta e um pouco de piripiri.
Aromatize com os coentros e deixe cozinhar com o tacho tapado, até as conchas abrirem.
Nesta altura, retire o tacho do calor e incorpore a manteiga no molho, agitando até derreter.
Regue com o sumo do limão, transfira para uma travessa de servir e decore com coentros. (3)


(1) Plantier, Paul, O Cozinheiro dos Cozinheiros, Lisboa, P. Plantier, 1905, 797 págs.

(2) A vida dos livros in Centro Nacional de Cultura
 

(3) Petitchef

Leitura adicional:
Illustração Portuguesa, 1906, Lisboa, Empreza do Jornal O Seculo, 1903-

Artes e Letras, 1902 (referências a Bulhão Pato, Paulo Plantier, Miguel Ângelo Lupi etc.), Rolland & Semiond, Lisboa

Obras de Bulhão Pato em Archive.org (ver todas):
Bulhão Pato, Raimundo António de, Memórias, Vol. I, 1894, Typ. da Academia Real das Sciencias, Lisboa
Bulhão Pato, Raimundo António de, Memórias, Vol. II, 1894, Typ. da Academia Real das Sciencias, Lisboa
Bulhão Pato, Raimundo António de, Memórias, Vol. III, 1894, Typ. da Academia Real das Sciencias, Lisboa

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Batalha da Cova da Piedade — 23 de julho de 1833

Um forte destacamento de infantaria e três esquadrões de cavalaria cruzaram o Tejo para Almada sob o comando de Telles Jordão [...] (1)

Bandeira nacional de Portugal de 1826 a 1830,
Bandeira de D. João V, usada pelos Miguelistas ou Absolutistas.
Imagem: Wikipédia

O duque viera sempre a marchas forçadas e quando Telles Jordão menos o pensava, estava elle proximo da Cova da Piedade.

Bandeira nacional de Portugal de 1830 a 1910.
Bandeira usada pelos Liberais.
Imagem: Wikipédia

Restava reforçar bem os flancos, e esperar o inimigo na Cova com o grosso da tropas.

Vista Geral — Cova da Piedade ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe

Este plano bem sustentado tornava crítica a posição do duque, que não tinha para oppôr aos 5.000 homens de tropas folgadas de Telles Jordão mais do que 1.500, 

Estátua do Duque da Terceira.
Desenho de Simões d'Almeida, gravura J. Pedrozo, 1877
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

compostos dos pequenos corpos de infantaria 3 e 6,

Soldado de infantaria de linha, 1834.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

caçadores 2 e 3,

1° sargento do batalhão de caçadores n° 7, 1830.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

poucas dezenas de academicos com duas pequenas peças às costas de machos, e 17 lanceiros inglezes, tão bem montados como costumam apparecer os mouros na Praça do Salitre;

e toda esta tropa quasi descalça, queimada pelo intenso sol de julho, e ralada de fadiga pelas não interrompidas marchas forçadas.

Desembarque das tropas Liberais no Mindelo em 1832 (detalhe).
Aguarela de  Alfredo Roque Gameiro.
Imagem: www.roquegameiro.org

Mas o pequeno número e o estado destas tropas ignorava-o Telles Jordão; 

pensava que sobre elle vinha todo o poder do mundo, e uma nuvem de lanceiros, arma desconhecida delle e dos seus.

Lanceiro, 1834.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

Quem muito concorrera para esta falsa idéa fôra o Cavadas da Amora, interceptando correspondencias, e fazendo espalhar mentiras pelas populações da Outra-banda.

Montava Telles Jordão a cavallo, quando os insignilicantes piquetes realistas das estradas lateraes recolhiam à Piedade diante, das pequenas columnas que o duque por ali mandára. e uma força consideraval de todas as armas batia em retirada pela estrada de Corroios;

de sorte que n'um momento se viu Telles Jordao encurralado na Cova. e atacado turiosamente pelos flancos e pela frente.

— Avança a cavallaria! gritou elle. 

Oficial do Regimento de Cavalaria n° 6, 1833.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

E immediatamenta abalaram os 200 cavallos.

Ergueu-se logo aos ares uma nuvem de poeira. no meio da qual a cavallaria investiu com os 17 lanceiros. que começavam a golpear por aquella agglomeração de tropas;

Charge of the Polish uhlans at the city of Poznań, Uprising 1831
Imagem: Wikipédia

mas sendo estes em numero tão diminuto, resistiram um momento e retiraram, ficando alguns feridos. mas sem perderem um só homem.

Viu-se entao apparecerem como dois reductos de logo, os quadrados de caçadores 2 e 3. contra os quaes toi embalar o impeto da cavallaria miguelista.

Aqui foi o grande o horror da peleja, e os quadrados soffrerarn alguma perda;

mas repeliram por fim a furiosa carga, apezar dos grandes brados de Telles Jordão. que nao podendo desenvolver toda a sua forca em tão estreito local, e estando na idéa, bem como os seus officiaes, de que o inimigo que tinham diante era apenas as avançadas de um poderoso exercito, perdera a serenidade de espirito indispensavel a um general nas occasióes de perigo.

Batalha de Ponte Ferreira (detalhe), A. E. Hoffman, 1835
Imagem: Wikipédia

Continuando o vivo logo dos liberaes a dizimar cruelmente aquelle acervo de inimigos, isto e a absoluta carencia de ordens apropriadas e rapidas trouxe a confusão. e relaxou-see até mesmo a disciplina.

Cada official comecou a dar a sua ordem, e as tropas a dividir-se pelas quintas, casas e valas do Caramujo, d'onde faziam fogo.

Comtudo, mesmo assim os realistas sustentavam o combate, e ainda depois de alguns tiros de artilheria e descargas de fusilaria mandou Telles Jordão dar uma segunda carga de cavalaria;

Batalha de Ponte Ferreira (detalhe), A. E. Hoffman, 1835
Imagem: Wikipédia

foi porém esta mais infeliz do que a primeira, porque grande parte dos cavalleiros foram aprisionados ou se entregaram, assim como quasi toda a artilharia.

Immediatamente se introduziu o panico na divisão, e principiou a desorganizar-se.

Batalha de Ponte Ferreira (detalhe), A. E. Hoffman, 1835
Imagem: Wikipédia

Uns renderam-se, outros fugiram para o interior da Outra-Banda, e para o castello d'Almada, que se entregou no dia seguinte às 7 horas da manhã, e o resto começou a retirar sobre Mutella.

Lisbon from Almada (detalhe), Drawn Lt. Col. Batty, Engrav. William Miller,1830

Ora, proximo d'esta povoacão, justamente d'onde parte a estrada para Almada, havia uma cortadura com artilheria.

Batalha de Ponte Ferreira (detalhe), A. E. Hoffman, 1835
Imagem: Wikipédia

Ahi fez Telles Jordao alguma resistencia;

mas sendo vencido. tomou pela estrada tora com o grosso da columna em direcção a Cacilhas, sempre perseguido pelas tropas do duque, que o não deixavam resfolegar um só instante.

Cacilhas vista do Tejo, gravura xilográfica, João Pedroso, 1846
Imagem: revista O Panorama, n° 18, 1847


(1) Napier, Admiral Charles, An account of the war in Portugal between Don Pedro and Don Miguel, London, T. & W. Boone, 1836

(2) Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original,
páginas n.° 113. 114. 115 e 116, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs. citado em Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.

Leitura relacionada:  
Lovell, Benjamin Badcock, Rough leaves from a journal kept in Spain and Portugal, during the years 1832, 1833, & 1834, London, R. Bentley, 1835

Referências: Uniformes e Organização Militar, Colecção de postais de Ribeiro Arthur, General Ribeiro Arthur militar e artista

terça-feira, 20 de maio de 2014

Cartas das vitórias liberais

8 de julho de 1832 — Desembarque do Exército Libertador na Praia de Mindello


9 de julho de 1832 — Entrada do Exército Libertador na Cidade do Porto


5 de julho de 1833 — Tomada da Esquadra Miguelista


23 de julho de 1833 — Derrota dos Miguelistas em Cacilhas


24 de julho de 1833 — Entrada do Exército Libertador em Lisboa


18 de agosto de 1833 — Desalojamento dos Rebeldes das Linhas do Porto


10 de outubro de 1833 — Desalojamento dos rebeldes do sítio de Campo Grande


23 de maio de 1834 — Convenção de Évora Monte (1)



(1) Biblioteca Nacional de Portugal, Cartas de jogar (detalhe), litografia Manuel Luiz, 1835

Leitura adicional: O Portal da História, Cronologia do Liberalismo