segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A fábrica e a casa, António José Gomes (1847-1909)

Estas fábricas estão situadas na rua Direita do Caramujo, occupando uma área de 800 metros quadrados, approximadamente, isto é, tomam o quarteirão inteiro que fica entre a travessa da Praia e o beco do Paiva.

Manoel José Gomes & Filhos, fábrica de moagem do Caramujo, nota de divida de 1881 (detalhe).
Imagem: Delcampe

A primeira foi fundada, em 1864, por Manuel José Gomes, e que hoje [1897] era aproveitada para depósito de trigos, escriptório e habitação do proprietário, morando ali actualmente sua irmã a Sr.a D. Magdalena Rita Gomes; casa das bombas e mais material estando tudo na melhor ordem, depósito de madeiras e casa de despejos.

A segunda foi fundada em 1872, e tinha dois pavimentos. No rez-do-chão estavam installadas as antigas machinas e promptas para entrarem em elaboração quando fosse necessário; no 1.° andar apenas trabalhava um par de mós, e no 2.° andar havia o depósito de trigo, que era levado para a fábrica nova por meio de elevador.

Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo, edifícios de 1864 e 1872.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

A terceira foi construída em 1889, e tinha seis pavimentos: no rez-do-chão era a casa das maquinas; no primeiro pavimento havia compressores e triruradores, no segundo parafuzos e nóras, no terceiro reformas e dois "sasseurs", no quarto planchistas de systema moderno e peneiros, no quinto peneiração e no sexto acabamento de noras. 

No segundo pavimento também havia reparação de trigo e espalhadora. no terceiro bandejas e despertadores. no quarto crivos de tirar semente, peneiros para trigo e duas taráras, no quinto peneiração de trigo e um quarto para receber o pó do mesmo trigo.

Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo, edifícios de 1864, 1872 e 1889.
Nesta foto conseguimos perceber o esquema construtivo que transformou, ao longo de três décadas a unidade fabril inicial num complexo moageiro: de sul para norte vemos os edifícios geminados, correspondendo à fábrica primitiva; separado destes por um vão, alargamento posterior, de 1872 (onde em 1897 ainda funcionavam a máquina e as mós antigas); por último, o edifício principal, construído por volta de 1889 [...]
cf. Toscano A fábrica de moagem do Caramujo património industrial, Vol I , Lisboa, Universidade Aberta, 2012.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

Como acima dissemos, estas fábricas estao installadas na rua Direita do Caramujo, tendo trazeiras para o rio, onde está construída uma grande doca para recolher as embarcações que se empregam na carga e na descarga dos trigos, farinhas e mais materiaes.

Na mesma rua e em frente das fábricas está installada a casa das caldeiras, que por baixo da rua e por meio d'um cano, passa o vapor que faz funccionar todo o machinismo das fábricas; assim como também por baixo da mesma rua passa um outro cano que communica com o rio, e d'onde é tirada a água por meio d'uma machina que tambem está ali installada.

Do lado da casa das caldeiras estão tambem as cocheiras e armazém de vinhos do Sr. António Cruz Paiva.

O edificio da nova fábrica foi construido (em 1889) junto ao da antiga, ficando muito superiora este, e em condições de muita segurança.

Fábrica Gomes, Caramujo, Arnaldo Fonseca, c 1900.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

Tinha grande número de janellas que deitavam para a frente, para o beco do Paiva e para o lado da antiga fábrica, mas tanta estas como aquellas, eram resguardadas por portas de ferro, para assim, quando se desse qualquer sinistro, evitar que um ou outro edificio fosse atacado.

No beco do Paiva está installada a officina de serralheria e no primeiro andar era o deposito do pó que recebia da fábrica nova por umas calhas, zincadas exteriormente.

D'este andar para a fábrica. havia uma ponte para passagem do pessoal, tendo as competentes portas de ferro.

A nova fabrica tinha, do lado da frente, uma parede mestra, a altura de todo o edificio, para resguardo da casa da machina e mais dependencias.

Um violento incêndio, em 10 de Junho de 1897, destruiu grande parte daquelas instalações fabris da moagem, deixando apenas as fachadas e as paredes mestras.

O incendio no Caramujo, Arnaldo Fonseca, Branco e Negro, Semanário Illustrado, 20 de Junho de 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

O acontecimento deplorável alarmara, logo de manhã, toda a população das terras da margem sul do Tejo. Um clarão rebentou subitamente, aiongou-se e cobriu o horizonte desde o Caramujo a Cacilhas, dando para quem estava em Lisboa a impressão de que tudo ali se encontrava em chammas.

Felizmente a sinistro não attingiu tão grandes proporções, mas ainda assim há a registar-se um desastre enorme, pois o fogo destruiu duas importantes fabricas e sem a rapidez e energia dos soccorros muito maiores seriam os prejuizos.

Os prejuizos são calculados em 300 contos de réis. Dos edificios só ficaram as paredes, pois todo o machinismo está deteriorado, não só pelo fogo como também pela água. A casa da machina da nova fábrica, e que estava resguardada por uma parede mestra, sofireu enormes prejuizos occasionados pela água.

Também soffreram bastantes perdas alguns moradores que, receando que o fogo se communicasse, começaram a deitar para a rua as mobilias, e foram elles: Manuel Mathias, com taberna na mesma rua, sem seguro; V. António dos Santos Mendes, idem, com seguro na Bonança; Guilhermina da Conceição, moradora no 1.° andar da mesma rua, n.° 19; D. Joaquina do Carmo, viúva, proprietária do prédio 21 e 22, que tem seguro na Fidelidade, mas não tem no seguro a mobília.

Os armazéns do sr. Paiva também soffreram prejuizos no telhado. (1)


[...] desconhecemos quem desenhou a nova fábrica do Caramujo, construida após o violento incêndio de quinta-feira 10 de Junho de 1897.


Fachada da fábrica, virada ao cais, Moagem de trigo fundada em 1865 e reformada em 1898.
Imagem:  Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990, 318 págs.

Arquitectonieamente, o projecto do edificio responde à satisfação das funções da unidade moageira que António Gomes instalou em 1898 

Fachada principal da fábrica, virada à rua Direita do Caramujo, A. J. Gomes & Comandita sucessores da Viuva de M. J. Gomes, Lda.
Imagem:  Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990, 318 págs.

e ainda hoje labora, noventa anos depois...

Fábrica Gomes, Caramujo, Arnaldo Fonseca, c 1900.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

A dois anos do final de Oitocentos, a fábrica do Caramujo, confrontando na margem oposta do Tejo os pólos geográficos da industrialização de Lisboa, Alcântara e Xabregas, enriquecia pela vertente da tecnologia, também construtiva, a história industrial portuguesa — como sinal dos tempos, a indústria fabril moderna cumpria uma função. Era uma reacção contra o atraso. contra a dependência externa e a apatia económica.

Fábrica Gomes, Caramujo, c 1900.
Imagem:  Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990, 318 págs.

No âmbito industrial, a unidade fabril da Cova da Piedade integrava-se no grupo das que possuíam "todos os aperfeiçoamentos" que a indústria da moagem exige, como as fábricas de Sacavém, Caramujo, Xabregas e muitas outras", e cuja modernidade de processos e apetrechamento tecnológico havia feito diminuir a importância e o número dos antigos moinhos e azenhas.

Almanach Commercial,
Viúva de Manoel José Gomes & Filhos,1889.
Imagem: Alexandre Flores, Op. Cit.

Uma década após a entrada em laboração da nova fábrica de António Gomes, "a indústria de moagem (estava) estabelecida entre nós em condições de perfeição fabril iguais às dos melhores centros de produção no estrangeiro, tendo progredido extraordinariamente desde a lei protectora de 1889". (2)

A memória de António José Gomes, esclarecido industrial moageiro que muito contribuiu para o desenvolvimento e modernização da Cova da Piedade, é ainda hoje uma referência para a freguesia, aqui celebrada através da conservação da sua casa de habitação.

Cova da Piedade, Rua Tenente Valadim, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

O palacete, possivelmente erguido entre finais do século XIX e inícios do século XX, em terrenos da antiga Quinta da Piedade, uma das famosas "sete quintas" do Alfeite, abrindo a sua fachada para o largo principal da vila e para a sua igreja matriz, marca com a sua linguagem eclética, própria da burguesia em ascensão, a urbanidade contemporânea.

O estilo eclético e erudito do projeto, de influência francesa (Beaux-Arts), está bem patente na linguagem neoclássica dos elementos decorativos do exterior, com frontaria ritmada por pilastras e silhares rusticados ao nível do piso térreo conjugando-se com estruturas em vidro e ferro de feição Arte Nova, estas funcionando já como sinal de modernidade e do espírito progressista burguês, celebrado igualmente nas alegorias do Comércio e da Indústria que rematam o edifício.

Cova da Piedade Palacete de António José Gomes.
Imagem: Alexandre Flores, António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909)...

No interior, cuja decoração “excessiva” contrasta com a relativa sobriedade dos exteriores, destacam-se sobretudo as marcenarias, os estuques, as pinturas românticas e os vitrais revivalistas.

À esquerda da fachada principal ergue-se o volume da cocheira, também aberto para o jardim contíguo à fachada posterior, cercado por muro e gradeamento em ferro forjado e aberto por portão de cantaria rusticada, que delimita ainda um pavilhão para criação de animais e uma garagem.

Cova da Piedade. Alçados do “Chalet” Jorge Taylor, das cocheiras e do Palácio António José Gomes.
Imagem: Samuel Roda Fernandes, Fábrica de molienda António José Gomes

Pertencia à propriedade uma nora de ferro de desenho requintado, hoje situada em terrenos da Escola Preparatória da Cova da Piedade e classificada como de interesse municipal, que abastecia de água a quinta de António José Gomes.

A classificação do Palacete de António José Gomes, incluindo o jardim, instalações para animais, cocheira e garagem, reflete os critérios constantes do artigo 17.º da Lei n.º 107/2001, de 8 de setembro, relativos ao interesse do bem como testemunho notável de vivências ou factos históricos, ao seu valor estético, técnico e material intrínseco, à sua conceção arquitetónica e urbanística, e à sua extensão e ao que nela se reflete do ponto de vista da memória coletiva.

A zona especial de proteção (ZEP) tem em consideração a envolvente urbana do imóvel, particularmente os espaços públicos e o edificado mais antigo, bem como a totalidade dos quarteirões que integram a área original da propriedade e a nora de ferro que lhe pertencia, e que constitui elemento evocador do passado rural deste território, e a sua fixação visa assegurar a integridade e as características fundamentais do seu enquadramento, as perspetivas de contemplação e os pontos de vista.

Cova da Piedade, Palacete António José Gomes. Vista geral de fachadas posteriores e campos fronteiros.
Imagem: Direção Geral do Património Cultural

Procedeu-se à audiência dos interessados, na modalidade de consulta pública, nos termos gerais e de acordo com o previsto no artigo 26.º da Lei n.º 107/2001, de 8 de setembro, e no artigo 45.º do Decreto-Lei n.º 309/2009, de 23 de outubro, alterado pelos Decretos-Leis n.º 115/2011, de 5 de dezembro, e n.º 265/2012, de 28 de dezembro.

Foi promovida a audiência prévia da Câmara Municipal de Almada. 
Assim: 
Sob proposta dos serviços competentes, nos termos do disposto no artigo 15.º, no n.º 1 do artigo 18.º, no n.º 2 do artigo 28.º e no n.º 2 do artigo 43.º da Lei n.º 107/2001, de 8 de setembro, conju- gado com o disposto no n.º 2 do artigo 30.º e no n.º 1 do artigo 48.º do Decreto-Lei n.º 309/2009, de 23 de outubro, alterado pelos Decretos-Leis n.º 115/2011, de 5 de dezembro, e n.º 265/2012, de 28 de dezembro, e no uso competências conferidas pelo n.º 11 do artigo 10.º do Decreto-Lei n.º 86-A/2011, de 12 de julho, manda o Governo, pelo Secretário de Estado da Cultura, o seguinte:

Artigo 1.º 

Classificação
É classificado como monumento de interesse público o Palacete de António José Gomes, incluindo o jardim, instalações para animais, cocheira e garagem, no Largo 5 de Outubro, 34 a 38, Cova da Piedade, freguesia de Cova da Piedade, concelho de Almada, distrito de Setúbal, conforme planta constante do anexo à presente portaria, da qual faz parte integrante.


Artigo 2.º 

Zona especial de proteção
É fixada a zona especial de proteção do monumento referido no artigo anterior, conforme planta constante do anexo à presente portaria, da qual faz parte integrante.


Cova da Piedade, Palacete de António José Gomes.
  Assinalam-se o Monumento de Interesse Público (MIP): Palacete de António José Gomes, incluindo o jardim, instalações para animais, cocheira e garagem e a Zona Especial de Proteção.
Imagem: Diário da República, 2.ª série — N.º 182 — 20 de setembro de 2013

9 de setembro de 2013. — O Secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier. (3)


(1) A Vanguarda, Lisboa, 11 de junho 1897, cit. em Alexandre Flores, António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.
(2) Carlos Antero Ferreira, Betão: a idade da descoberta, Lisboa, Passado Presente, 1989, cit. em Alexandre Floes, António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.(3) Diário da República, 2.ª série — N.º 182 — 20 de setembro de 2013

Tema:
Cova da Piedade

Bibliografia adicional:
Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.
Maria da Conceição Toscano, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial, Vol I , Lisboa, Universidade Aberta, 2012, 16.37 MB.
Samuel Roda Fernandes, Fábrica de molienda António José Gomes, Lisboa, Universidade Lusíada, 2013.

Centro de Arqueologia de Almada, Cova da Piedade, Património e História, Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 2012.Maria José Pinto, Palácio Gomes: pequena monografia, revista al-madam N.º 4 (IIª Série), Almada, Centro de Arqueologia de Almada, Outubro 1995

Informação adicional:
Direção Geral do Património Cultural: Palacete de António José Gomes
Direção Geral do Património Cultural: Nora de ferro
Diário da República, 2.ª série — N.º 123 — 27 de junho de 2012 (inclui a planta com a delimitação e a ZGP que esteve em vigor até ser fixada a ZEP)

Outras leituras:
Nuno Pinheiro no Facebook: Edifícios António José Gomes
Coysas , Loysas, Tralhas Velhas... : Palácio da Viúva Gomes
ruin'arte: Chalet na Cova da Piedade
De regresso ao séc. XIX, Câmara Municipal de Almada

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Euchloe tagis (borboleta tipo Piedade)

Ilustração original de Euchloe tagis publicada por Jacob Hübner na obra “Sammlung europäischer Schmetterlinge” (1796-1805) onde descreve a nova espécie para a ciência (pl. 110 figs. 565-566; © www.biodiversitylibrary.org).

Euchloe tagis, ilustração de Jacob Hübner, 1804.
Imagem: tagis


Os exemplares foram capturados pelo conde alemão Johan Centurius von Hoffmannsegg (entre 1797 e 1801) em "Piedade near Lisboa”, o que explica o nome específico de tagis, que significa em latim "relativo ao Tejo". (1)

Euchloe tagis, ilustração de Jacob Hübner, 1804.
Imagem: tagis

Esper (1805), para além de uma descrição extensa da espécie, publicou interessantes detalhes sobre o local onde foi encontrada, período de voo, flores onde se alimenta, etc. Destes detalhes destaco os seguintes:

Encontra-se na margem esquerda do Tejo, em frente a Lisboa, nos campos arenosos mas floridos, por entre as vinhas atrás de Almada, Casilhas [SIC] e Piedade.

Esboço do terreno da margem esquerda do Tejo, extendendo-se de Almada à Trafaria, entrincheirado como posição militar, cf. Journals of sieges carried on by the army under the Duke of Wellington, 1811-1814.
(Assinalam-se também o Vale de Mourelos interseptado por vedações e os esteiros no lugar da Piedade)
Imagem: Internet Archive

O período de voo começa em Fevereiro e prolonga-se até ao princípio de Abril


Planta do terreno desde Cacilhas até a costa a Oeste, e Sud'oeste da Trafaria, com a linha fortificada sobre esse mesmo terreno/levantada por Manoel Joaquim Brandão de Souza Sargento Mór do Real Corpo de Engenheiros, às ordens do Tenente Coronel Fletcher dos Reaes Engenheiros Bretanicos; copiado no Real Archivo Militar em Março de 1813 (detalhe).
Imagem: Apontamentos sobre a descoberta da borboleta Euchloe tagis...

Na região de Lisboa, tal como na margem direita do Tejo, onde a P. Belia [Euchloe crameri] e a Belemia são frequentes, nunca foi vista [...]

Planta do terreno desde Cacilhas até a costa a Oeste, e Sud'oeste da Trafaria, com a linha fortificada sobre esse mesmo terreno/levantada por Manoel Joaquim Brandão de Souza Sargento Mór do Real Corpo de Engenheiros, às ordens do Tenente Coronel Fletcher dos Reaes Engenheiros Bretanicos; copiado no Real Archivo Militar em Março de 1813 (detalhe).
Imagem: Apontamentos sobre a descoberta da borboleta Euchloe tagis...

Zerkowitz (1946), listou as localidades então conhecidas da distribuição da E. tagis, incluindo a "Piedade near Lisbon (type locality)" [Na bibliografia a que tive acesso este é o único registo que indica a “localidade tipo” da espécie] ... (2)


(1) tagis, Centro de Conservação das Borboletas de portugal
(2) Santos Carvalho, Apontamentos sobre a descoberta da borboleta Euchloe tagis...

Mais informação:
Bibliography for Euchloe tagis (Biodiversity Heritage Library)

sábado, 20 de janeiro de 2018

Criada para todo serviço no Teatro Desmontável

Almada, "Teatro Desmontável" do grupo de teatro de Rafael de Oliveira apresenta peça de comédia "Criada para todo serviço" de Vasco Morgado com interpretações de Laura Alves, Assis Pacheco, Alma Flora, Maria Dulce e Artur Semedo.

Cartazes com Laura Alves e Assis Pacheco junto às viaturas dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas em 1962.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas no Facebook

"Durante o dia, os bilhetes encontram-se à venda na bilheteira da porta do palco" (1)

O "Teatro Desmontável" em 1962, instalado na zona da actual Praça de S. João Baptista em Almada.
Imagem: RTP Arquivos

A criada de "Criada Para Todo o Serviço" é muito especial.

Anúncio da peça "Criada para todo serviço" no "Teatro Desmontável", Almada, 1962.
Imagem: RTP Arquivos

Além de assegurar as limpezas, tem visões e é por esta capacidade especial que é contratada pela dona da casa, uma advogada que nunca fez nada na vida e que está mais interessada naquilo que a criada consegue ver dos seus convidados, do que praticamente nos seus dotes domésticos [...] (2)

Cena da peça "Criada para todo serviço" no "Teatro Desmontável", Almada, 1962.
Imagem: RTP Arquivos

Comédia "Criada para todo Serviço", de Barillet & Grédy, adaptada por José Andrade. Encenação de Manuel Santos Carvalho e cenografia de Pinto de Campos. 

A actriz Laura Alves no camarim do "Teatro Desmontável", Almada, 1962.
Imagem: RTP Arquivos

Interpretações de Laura Alves, Assis Pacheco, Maria Dulce, Maria Paula, Alma Flora e Artur Semedo. 

O público na peça "Criada para todo serviço" no "Teatro Desmontável", Almada, 1962.
Imagem: RTP Arquivos

Uma produção de Vasco Morgado no Teatro Monumental em 1961. (3)


(1) Noticiário Nacional, RTP Arquivos, 1962
(2) Diário de Notícias (Funchal)
(3) MatrizNet

Informação relacionada:
A companhia de Rafael de Oliveira, Artistas Associados
Companhia Rafael d’Oliveira, Artistas Associados (Instituto Camões)
Opsis (base iconográfica do teatro em Portugal)

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Frei Luiz de Souza

DRAMA

Apresentado pela primeira vez em Lisboa, por uma sociedade particular, o teatro da quinta do Pinheiro em 4 de Julho de 1843.

Lugar da scena — Almada

Casa da Cerca em Almada.
Imagem: Geni

ACTO PRIMEIRO

Camera antiga, ornada com todo o luxo e caprichosa elegancia portugueza dos principios do seculo dezasette: porcelanas, xarões, sedas, flores, etc. No fundo duas grandes janellas rasgadas, dando para um eirado que olha sôbre o Tejo e de donde se ve toda Lisboa:

entre as janellas o retratto, em corpo inteiro, de um cavalleiro môço vestido de preto com a cruz branca de noviço de S. João de Jerusalem.

Defronte e para a bôcca da scena um bufete pequeno coberto de ricco panno de velludo verde franjado de prata; sôbre o bufete alguns livros, obras de tapeçaria meias-feitas, e um vaso da China de collo alto, com flores.

Algumas cadeiras antigas, tamboretes razos, contadores. Da direita do espectador, porta de communicação para o interior da casa, outra da esquerda para o exterior.

É no fim da tarde [...]

Chegada do D Filipe II de Portugal a Lisboa para uma viagem no Reino de Portugal,
Gravura Ioam Schorquens, segundo Domingos Vieira Serrão, 1619.
Imagem: Wikimedia

Magdalena so, sentada junto á banca, os pés sôbre uma grande almofada, um livro aberto no regaço, e as mãos cruzadas sôbre elle, como quem descahiu da leitura na meditação.

MAGDALENA, repettindo machinalmente e de vagar o que acaba de ler

"N'aquelle ingano d'alma ledo e cego
Que a fortuna não deixa durar muito..." [...]

TELMO

Desgraçada! Porquê? não sois feliz na companhia do homem que amaes, nos braços do homem a quem sempre quizestes mais sôbre todos?

Que o pobre de meu amo... respeito, devoção, lealdade, tudo lhe tivestes, como tam nobre e honrada senhora que sois... mas amor! [...]

MAGDALENA

Ora pois, ide, ide ver o que ella faz: (levantando-se) que não esteja a ler ainda, a estudar sempre. (Telmo vae a sahir) E olhae: chegae-me depois alli a San'Paulo, ou mandae, se não podeis...

Almada, Seminário [antigo Convento Dominicano de S. Paulo], ed. J. Lemos, 3, década de 1950.
Imagem:

TELMO

Ao convento dos Dominicos? Pois não posso!... quatro passadas.

MAGDALENA

E dizei a meu cunhado, a Frei Jorge Coutinho, que me está dando cuidado a demora de meu marido em Lisboa; que me prometteu de vir antes de véspera, e não veiu; que é quasi noite, e que ja não estou contente com a tardança. 

(Chega á varanda, e olha para o rio) O ar está sereno, o mar tam quieto, e a tarde tam linda!... quasi que não ha vento, é uma viração que affaga... Oh e quantas faluas navegando tam garridas por esse Tejo! Talvez n'alguma d'ellas — n' aquella tam bonita — venha Manuel de Sousa.

Mas n'este tempo não ha que fiar no Tejo, d'um instante para o outro levanta-se uma nortada... e então aqui o pontal de Cacilhas!

Que elle é tam bom mareante... Ora, um cavalleiro de Malta! (olha para o retratto com amor) Não é isso o que me dá maior cuidado. Mas em Lisboa ainda ha peste, ainda não estão limpos os ares... E ess'outros ares que por ahi correm d'estas alterações públicas, d'estas malquerenças entre castelhanos e portuguezes! Aquelle character inflexivel de Manuel de Sousa traz-me n'um susto contínuo.

Vai, vai a Frei Jorge, que diga se sabe alguma coisa, que me assocegue, se podér.[...]

JORGE, alto

Mas emfim, resolveram sahir: e sabereis mais que, para côrte e "buen-retiro" dos nossos cinco reis, os senhores governadores de Portugal por D. Filippe de Castella que Deus guarde, foi escolhida ésta nossa boa villa d'Almada, que o deveu á fama de suas aguas sadias, ares lavados e graciosa vista.

Boca de Vento, estrada da Fonte da Pipa, junto à altura da Casa da Cerca.
Vista de Lisboa tomada da margem esquerda do Tejo, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Imagem: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

MAGDALENA

Deixá-los vir.

JORGE

Assim é: que remedio! Mas ouvi o resto. O nosso pobre convento de San'Paulo tem de hospedar o senhor arcebispo D. Miguel de Castro, presidente do govêrno.

Bom prelado é elle; e, se não fosse que nos tira do humilde socêgo de nossa vida, por vir como senhor e principe secular... o mais, paciencia. Peior é o vosso caso...

MAGDALENA

O meu!

JORGE

O vosso e de Manuel de Sousa: porque os outros quatro governadores — e aqui está o que me mandaram dizer em muito segrêdo de Lisboa — dizem que querem vir para ésta casa, e pôr aqui aposentadoria. [...]

ACTO SEGUNDO

É no palacio que fôra de D. João de Portugal, em Almada: salão antigo de gôsto melancholico e pesado, com grandes retrattos de familia, muitos de corpo inteiro, bispos, donnas, cavalleiros, monges; estão em logar mais conspicuo, no fundo, o d'elrei D, Sebastião, o de Camões e o de D. João de Portugal.

Frei Luis de Sousa pelo Grupo Boa Vontade,na década de 1950.
Imagem: O Cine Teatro de Moçâmedes (Namibe)

Portas do lado direito para o exterior, do esquerdo para o interior, cobertas de reposteiros com as armas dos condes de Vimioso. 

São as antigas da casa de Bragança, uma aspa vermelha sôbre campo de prata com cinco escudos do reino, um no meio e os quatro nos quatros extremos da aspa; em cada braço e entre os dois escudos uma cruz floreteada, tudo do modo que trazem actualmente os duques de Cadaval; sôbre o escudo coroa de conde.

No fundo um reposteiro muito maior e com as mesmas armas cobre as portadas da tribuna que deita sôbre a capella da Senhora da Piedade na egreja de San'Paulo dos dominicos d'Almada.

TELMO

Menina!...

MARIA

"Menina e môça me levaram de casa de meu pae:" é o principio d'aquelle livro tam bonito que minha mãe diz que não intende: intendo-o eu.

Mas aqui não ha menina nem môça; e vós, senhor Telmo-Paes, meu fiel escudeiro, "faredes o que mandado vos é."

E não me repliques, que então altercâmos, faz-se bulha, e acorda minha mãe, que é o que eu não quero. Coitada! Ha oito dias que aqui estamos n'esta casa, e é a primeira noite que dorme com socêgo. 

Aquelle palacio a arder, aquelle povo a gritar, o rebate dos sinos, aquella scena toda... oh! tam grandiosa e sublime, que a mim me encheu de maravilha, que foi um espectaculo como nunca vi outro de egual majestade!... á minha pobre mãe atterrou-a, não se lhe tira dos olhos: vai a fechá-los para dormir, e diz que ve aquellas chammas innoveladas em fummo a rodear-lhe a casa, a crescer para o ar, e a devorar tudo com furia infernal [...]

No fundo, porta que dá para as officinas e aposentos que occupam o resto dos baixos do palacio. É alta noite [...] (1)


O retratto de meu pae, aquelle do quarto de lavor tam seu favorito, em que elle estava tam gentil homem, vestido de cavalleiro de Malta com a sua cruz branca no peito--aquelle retratto não se póde consolar de que lh'o não salvassem, que se queimásse alli. [...]

TELMO

Sim é: Deus o defenda!

MARIA

Deus o defenda! amen. E elles, os tyrannos governadores ainda estarão muito contra meu pae? Ja soubeste hoje alguma coisa, das diligências do tio Frei Jorge? 

TELMO

Ja, sim. Vão-se desvanecendo — ainda bem!— os agouros de vossa mãe... hãode sahir falsos de todo. O arcebispo, o conde de Sabugal, e os outros, ja vosso tio os trouxe á razão, ja os moderou. Miguel de Moura é que ainda está renitente; mas hade-lhe passar. Por estes dias fica tudo socegado. Ja o estava se elle quizesse dizer que o fogo tinha pegado por acaso. Mas ainda bem que o não quiz fazer; era desculpar com a villania de uma mentira o generoso crime por que o perseguem. 


MARIA

Meu nobre pae! Mas quando hade elle sahir d'aquelle omizio? Passar os dias retirado n'essa quinta tam triste d'além do Alfeite, e não podêr vir aqui senão de noite, por instantes, e Deus sabe com que perigo! [...]

MAGDALENA

E o que eu podér fazer-vos, todo o amparo e gasalhado que podér dar-vos, contae commigo, bom velho, e com meu marido, que hade folgar de vos proteger...

ROMEIRO

Eu ja vos pedi alguma coisa, senhora?

MAGDALENA

Pois perdoae, se vos offendi, amigo.

ROMEIRO

Não ha offensa verdadeira senão as que se fazem a Deus.--Pedi-lhe vós perdão a Elle, que vos não faltará de quê. [...]

MAGDALENA, aterrada

E quem vos mandou, homem?

ROMEIRO

Um homem foi, e um honrado homem... a quem unicamente devi a liberdade... a _ninguem_ mais. Jurei fazer-lhe a vontade, e vim.

MAGDALENA

Como se chama?

ROMEIRO

O seu nome nem o da sua gente nunca o disse a ninguem no captiveiro.

MAGDALENA

Mas emfim, dizei vós...

ROMEIRO

As suas palavras, trago-as escriptas no coração com as lagrymas de sangue que lhe vi chorar, que muitas vezes me cahiram n'estas mãos, que me correram por éstas faces. Ninguem o consolava senão eu... e Deus! Vêde se me esqueceriam as suas palavras. [...]

Almada — Interior da Egreja do Convento de S. Paulo, 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

JORGE

Se o vireis... ainda que fôra n'outros trajes... com menos annos — pintado, digamos — conhece-lo-heis?

ROMEIRO

Como se me visse a mim mesmo n'um espelho.

JORGE

Procurae n'estes retrattos, e dizei-me se algum d'elles póde ser.

ROMEIRO, sem procurar, e apontando logo para o retratto de D. João

É aquelle.

D. João de Portugal de Miguel Angelo Lupi, inspirado em Almeida Garrett.
Frei Luís de Sousa (cena XIV do 2° acto)
Imagem: MNAC

MAGDALENA, com um grito espantoso

Minha filha, minha filha, minha filha!... (em tom cavo e profundo) Estou... estás... perdidas, deshonradas... infames! (Com outro grito do coração) Oh minha filha, minha filha!... (Foge espavorida e n'este gritar.) [...]

ACTO TERCEIRO

Cena da peça Frei Luís de Sousa, no teatro Príncipe Real (posteriormente Teatro Apolo), 1909.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Parte baixa ao palacio de D. João de Portugal, communicando, pela porta á esquerda do espectador, com a capella da Senhora-da-Piedade na egreja de San'Paulo dos Dominicos d'Almada:

é um casarão vasto sem ornato algum.

Arrumadas ás paredes, em diversos pontos, escadas, tocheiras, cruzes, ciriaes e outras alfaias e guizamentos d'egreja de uso conhecido. A um lado um esquife dos que usam as confrarias; do outro uma grande cruz negra de tábua com o letreiro J.N.R.J., e toalha pendente, como se usa nas cerimonias da semana-sancta. 

Mais para a scena uma banca velha com dois ou tres tamboretes; a um lado uma tocheira baixa com tocha accesa e ja bastante gasta; sôbre a mesa um castiçal de chumbo, de credencia, baixo e com vela accesa tambem, e um hábito completo de religioso dominico, tunica, escapulario, rosario, cinto, etc. [...] (1)


(1) Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, Porto, Livraria Chardron

Artigos relacionados:
Manuel de Sousa Coutinho
Convento Dominicano de São Paulo de Almada
Embrechados (4 de 5)

Informação adicional:
Visita conventual ao Seminário Maior de Almada

domingo, 7 de janeiro de 2018

Marina Neves (1943-1965)

Marina Neves, nome artístico de Maria de Lourdes Nogueira Neves, nasceu em Lisboa a 25 de Março de 1943, foi cantora e atriz. 

Cova da Piedade Marina Neves (1963-1945).
Decca Records: Noivado, Lado a lado (A); Gosto de você meu bem, Aventura (B).
Imagem: Discos de Vinil Repetidos

Trabalhou na Emissora Nacional. A sua grande, mas curta atividade como cantora levou-a a todo o país e também a Espanha, atuou também em África (Angola e Moçambique). 

Na televisão atua essencialmente em programas de variedades, descoberta por Melo Pereira, que a leva para a RTP.  (1)

Sempre acompanhado de diversas imagens antológicas provenientes do Arquivo da RTP, há ainda lugar neste episódio para recordar três vozes que nos abandonaram precocemente: Maria Marize e Marina Neves, recordadas por Artur Garcia, e Mirene Cardinalli [ver episódio]. (2)

Como atriz, fez o filme "Uma Hora de Amor" ao lado de António Calvário. (3)


Foi uma actriz, conhecida por Uma Hora de Amor (1964) [v. abaixo], Melodias de Sempre (1960) e A TV Através dos Tempos (1964)

Faleceu em 1965. (4)

Tendo-se iniciado no Centro de Preparação dos Artistas da Rádio, no inicio dos anos 60, tornou-se particularmente notada, quando a editora Alvorada, resolveu em 1964 editar as canções do Festival desse ano, por vozes diferentes das dos criadores.

Marina Neves foi escolhida para cantar Olhos nos Olhos, e fê-lo numa colagem tão precisa à versão original de Simone de Oliveira, que foi com um misto de surpresa e de crítica que foi recebida a sua interpretação. A polémica daí resultante foi quanto bastou para que se tornasse de imediato uma cantora requisitada.


Marina Neves, jovem muito bonita e bastante simpática, tornou-se figura indispensável dos Serões para Trabalhadores , tendo feito sucesso nesses e em todos os outros espectáculos em que participou.

A sua voz e expressividade em palco tinha potencialidades que infelizmente não pode desenvolver.

Uma doença oncológica, poucos meses depois, afastá-la-ía dos palcos e tirar-lhe-ia a vida.


As canções que deixou gravadas testemunham a sua qualidade vocal, apesar de, no entanto, estarem muito aquém do que ela merecia. A sua morte, prematura, com pouco mais de 20 anos provocou na altura, uma verdadeira comoção nacional.

Tal como sempre acontece, tão forte foi a comoção, quão rápido foi o esquecimento. (5)


(1) Palco a Quem Merece
(2) Estranha Forma de Vida - Uma História da Música Popular Portuguesa (episódio 7)
(3) Palco a Quem Merece
(4) IMDB
(5) in-senso: Mirene e Marina

Mais informação:
Revista Plateia n° 489, 5 de novembro de 1974:
Marina Neves, homenagem póstuma na Cova da Piedade

Estranha Forma de Vida - Uma História da Música Popular Portuguesa (RTP Play)

sábado, 30 de dezembro de 2017

José Elias Garcia (1830-1891)

Nascido em Cacilhas (Almada), a 31 de Dezembro de 1830, filho de José Francisco Garcia, chefe de oficinas do Arsenal da Marinha, defensor das ideias liberais que foi perseguido e preso pelos miguelistas. Em 1833, o pai de José Elias Garcia foge da cadeia do Limoeiro, quando aguardava a condenação à morte.

José Elias Garcia.
Imagem: ANTT

Elias Garcia estuda primeiro na Escola de Comércio de Lisboa, que conclui em 1848. Mais tarde entra na Escola Politécnica de Lisboa, seguindo posteriormente para a Escola do Exército (1857). Enveredando pela carreira militar assenta praça em 31 de Agosto de 1853, como voluntário no Regimento de Granadeiros da Rainha, atingindo o posto de coronel em 27-09-1888.

Dedicando-se ao ensino, foi convidado para leccionar a cadeira de Mecânica Aplicada, na Escola do Exército. Ocupou ainda outras funções como: no Conselho Geral de Instrução Militar, Conselho Naval, presidente da Junta Departamental do Sul e da Associação dos Jornalistas e Escritores Portugueses.

José Elias Garcia por Joshua Benoliel.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Foi um dos principais responsáveis pelo aparecimento de um grupo republicano cerca de 1850, fruto das consequências das revoltas que tinham eclodido na Europa em 1848 [...](1)

*
*     *

Após a aclamação de D. Miguel (26-6-1828) seguem-se seis anos de terror, com perseguições, deportações e execuções. Em 27-10-1828 é publicado o Edital da Intendência Geral da Polícia que obrigava os cidadãos a denunciar a "infame e criminosa seita maçónica" para pôr cobro ao "nefando e horroroso projeto de destruir o Altar e o Trono".

Retrato de Elias Garcia.
Imagem: ANTT

O triunfo definitivo do liberalismo (1834) e a ascenção de D. Pedro IV, Grão-Mestre da Maçonaria brasileira, marca um período de apogeu da Ordem, que só viria a terminar com a Revolução de 28 de Maio de 1926. 

No princípio do séc. XIX a Maçonaria contava com milhares de filiados, incluindo nas ilhas dos Açores e Madeira e nas antigas colónias, justificando-se, assim, uma organização federadora, ou Grande Loja.

Esta foi criada em 1802 com o nome de "Grande Oriente Lusitano" (G.O.L.), recebendo o reconhecimento da Grande Loja de Inglaterra em Maio desse ano, embora o respetivo tratado só tenha chegado a Portugal em 1803. Foi eleito primeiro Grão-Mestre o desembargador da Casa de Suplicação, Sebastião José de São Paio de Melo e Castro Lusignam. 

O G.O.L. é, assim, o tronco da Ordem maçónica no nosso país. A sua  Constituição foi aprovada em 1806. Entre 1849 e 1859 o "Grande Oriente Lusitano" denominou-se "Grande Oriente de Portugal", e a partir de 1869 "Grande Oriente Lusitano Unido", retomando a designação original em 1985. 

Desde 1826 e até meados da centúria, o G.O.L. representou a corrente conservadora da Maçonaria, ligada à ideologia política do "cartismo", tendo como Grão-Mestres Silva Carvalho e Costa Cabral.

Este comprometimento provocou várias cisões: do Marechal Saldanha, que fundou em 1828 o "Oriente do Sul", de Passos Manuel, que fundou o "Oriente do Norte" (1834), e de Elias Garcia que [iniciado na Maçonaria em 1853 com o nome simbólico de Péricles, na Loja 5 de Novembro, em Lisboa, ligada ao rito francês e subordinada à "Confederação Maçónica Portuguesa"] criou a "Federação Maçónica" (1863).

Estas cisões corresponderam às diversas correntes do liberalismo e consequen-te conquista do poder, funcionando as respetivas Lojas como células partidárias, como aconteceu com a Loja "Liberdade", fundada em Coimbra em 1863 por lentes da Universidade e intelectuais (António Aires de Gouveia, Bernardo de Albuquerque e Lourenço de Almeida e Azevedo, entre outros menos conhecidos). 

Por isso, as vicissitudes da política repercutiram-se negativamente no prestígio e coesão da Ordem Maçónica. Por seu turno, o próprio G.O.L. havia de gerar a cisão de Silva Carvalho que, com outros, constituiu o "Oriente do Rito Escocês". 

Contudo, em 1869 foi possível reconciliar os Irmãos desavindos, com a criação do "Grande Oriente Lusitano Unido", sob o Grão-Mestrado do Conde de Paraty. Desde então, e excetuando pequenas convulsões, reinou a unidade da família maçónica. Foi o período áureo da Maconaria portuguesa.

Passaram pelo Grão-Mestrado figuras tão ilustres como Elias Garcia António Augusto de Aguiar, Bernardino Machado, mais tarde presidente da República e Sebastião de Magalhães Lima.

Retrato e assinatura de Elias Garcia.
Imagem: Casario do Ginjal

Foram igualmente maçons nomes prestigiados como Mouzinho da Silveira, Alexandre Herculano, Garrett, João de Deus, o cardeal Saraiva, patriarca de Lisboa, Machado Santos, Afonso Costa, António José de Almeida, António Maria da Silva, Miguel Bombarda, Sidónio Pais, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Eça de Queirós, Rafael Bordalo Pinheiro, Egas Moniz (prémio Nobel da Medicina), Teixeira de Pascoais, Jaime Cortesão e Aquilino Ribeiro. (2)

*
*     *

Entrou na política, com tendências pronunciadamente democráticas, e em 1854 fundou o primeiro jornal republicano, intitulado O Trabalho; em 1858 apareceu o Futuro, jornal fundado e sustentado por um grupo a que pertencia José Elias Garcia.

Almada, um aspecto do cortejo de homenagem a Elias Garcia, 1933.
Imagem: ANTT

Neste ano ainda se não havia constituído em Portugal o Partido Republicano; José Felix Henriques Nogueira e Lopes de Mendonça não tinham conseguido formar em torno de si um grupo de acção. 

O Futuro, mais tarde, em 1862, fundiu-se com a Discussão, tomando o nome de Política Liberal; foi este um dos jornais que mais valentemente combateram contra a vinda a Portugal das irmãs de caridade e dos lazaristas franceses, sendo secundado nessa luta por José Estêvão na câmara dos deputados.

Em 1868 pertenceu ao célebre grupo do pátio do Salema, donde saiu o Partido Reformista, que foi, por assim dizer, a guarda avançada do Partido Republicano. 

Elias Garcia foi convidado para entrar no ministério presidido pelo bispo de Viseu, D. António Alves Martins, e doutra vez recebeu convite do visconde de Sá do Bandeira. Recusou essa honra, que muitas mais vezes repeliu, mesmo depois de ser eleito para o directório do Partido Republicano.

Cacilhas, um aspecto do cortejo de homenagem a Elias Garcia, 1933.
Imagem: ANTT

Em 1865 foi também redactor principal do Jornal de Lisboa, que redigiu até ao último número. 

A 12 de outubro de 1873 publicou-se o primeiro número da Democracia, jornal redigido por José Elias Garcia, inserindo um artigo editorial escrito por Latino Coelho, precedendo a exposição do programa republicano, que era o do jornal. 

Mais tarde, em 1876, organizou-se um centro republicano, devido especialmente a Elias Garcia. Não foi, porém, este o primeiro centro estabelecido no país, pois já haviam sido fundados em Coimbra, mas até à data da instituição do de Lisboa, ainda o Partido Republicano não estava definitivamente constituído.

José Elias Garcia foi deputado pela primeira vez em setembro de 1870, quando tinha ainda o seu nome ligado ao Partido Reformista, que, por ser então o mais liberal, era o que convinha aos homens que compunham a guarda avançada da democracia. 

Em 1881, depois da valente campanha do tratado de Loureço Marques, em que ele tomou parte muito activa, comparecendo nos comícios particulares que se realizaram em Lisboa contra aquele tratado, e como protesto contra o governo regenerador que iniciara o período das perseguições, foi eleito pelo círculo 95, de Lisboa, para a legislatura que começou em 2 de janeiro de 1882, e terminou pela dissolução de 24 de maio de 1884.

Tornou a ser deputado na legislatura de 15 de dezembro do referido ano de 1884 até 7 de janeiro de 1887, dia em que foi dissolvida a câmara. Também pertenceu à legislatura de 2 de abril de 1887, dissolvendo-se a Câmara em 11 de julho de 1889. Nas eleições que se seguiram, a lista republicana ficou derrotada, porque, não tendo sido atendidas as reclamações dos centros republicanos, a votação se dividiu.

Colocação da lápide na casa onde nasceu Elias Garcia em Cacilhas, 1933.
Imagem: ANTT

Com a questão inglesa e os primeiros actos do despotismo do governo regenerador, o partido republicano novamente se animou, e apesar das simpatias gerais dos candidatos do governo, escolhidos entre os africanistas de maior popularidade, a lista republicana triunfou no dia 29 do março de 1890, sendo Elias Garcia novamente eleito, juntamente com Latino Coelho e Manuel Arriaga.

Durante o tempo em que foi vereador da Câmara Municipal, prestou muitos e importantes serviços; estabeleceu as escolas centrais, o ensino da ginástica, os batalhões escolares, o ensino do desenho de ornato, o canto coral das escolas e as bibliotecas populares. A primeira junta escolar que funcionou foi por ele presidida [...] 

Elias Garcia morreu pobre, porque sacrificou tudo quanto auferia pelos seus trabalhos, em proveito do seu partido, e para a sustentação da Democracia, jornal que ele fundara, e que lhe merecia a maior dedicação. 

A sua morte foi muito sentida; a imprensa unânime, de todas as cores políticas do país, consagram nas colunas dos seus jornais, indeléveis testemunhos de quanto apreciava e respeitava o carácter e merecimento de tão útil e benemérito cidadão, e lastimava a sua perda.

Estandarte da Loja Elias Garcia referente ao vintém das Escolas
Escola n° 1
Imagem: Fundação Mário Soares
O funeral foi imponentíssimo. Ali se viam incorporadas diversas associações as crianças do asilo de S. João, as escolas municipais com os respectivos professores, os alunos e o corpo docente da Escola do Exército representantes de todos os partidos políticos, da câmara municipal, da maçonaria portuguesa, bombeiros municipais, etc. 

Quatro anos depois em 21 de abril de 1895, o Grande Oriente Lusitano mandou levantar um jazigo no cemitério Oriental, para onde foram trasladados os seus restos mortais. Também foi uma manifestação imponente. O monumento é simples, tem a forma de obelisco, foi delineado por Silvestre da Silva Matos. Está levantado em terreno concedido gratuitamente pela câmara municipal, que tomou o encargo da sua conservação e reparação [...] (3)


(1) Almanaque Republicano
(2) António Arnaut, Introdução à Maçonaria
(3) Dicionário histórico

Leitura adicional:
Heliodoro Salgado, A insurreição de janeiro..., Porto, Typ. Emp. Lit. Typ., 1894
Eduardo Barros Lobo, A volta do Chiado, Lisboa, A. M. Pereira, 1902
A maçonaria em Portugal..., Edição da Ligue Anti-Maçonnique.
Luís Alves Milheiro e Abrantes Raposo, José Elias Garcia, Junta de Freguesia de Cacilhas, 2005
A República nos Concelho da Margem Sul

Mais leituras:
A Illustração Popular
Occidente 445, 1 de maio de 1891
O Tiro Civil 109, 1 de abril de 1897
lllustração portugueza 271, 1 de maio de 1911