quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Bombeiros Voluntários do Caramujo

Já está definitamente organisada a companhia dos bombeiros voluntarios do Caramujo. Assim o communicou á Camara Municipal d 'Almada uma commissão nomeada para tal effeito.

Manoel José Gomes & Filhos, fábrica de moagem do Caramujo, nota de divida de 1881 (detalhe).
Imagem: Delcampe

Existe desde alguns meses a associação dos bombeiros voluntarios de Almada, que n'aquella localidade estabeleceu esse philantropico serviço. Tem aquella associação feito successivos exercicios no Alfeite com a bomba ali existente, e deseja augmentar os seus socios para poder realisar com mais vantagem os serviços a que se destina. 

Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo, edifícios de 1864, 1872 e 1889.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

Algumas divergencias, cremos nós havidas na associação, o que são sempre para lastimar, deram logar a que se creasse outra sociedade de bombeiros voluntarios no Caramujo. Parece-nos existir inquieta rivalidade d'esta com aquella sociedade.

Praia do Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

Mas esse sentimento deve ser substituido pelo da confraternidade sincera, se o desejo da nova sociedade, como o da mais antiga, é unica e simplesmente, como deve ser, o de servir a causa da humanidade e da sociedade. Rivalisar só no amor do bem. Fraternidade no exercicio do mesmo apostolado.

Bombeiro em Lisboa,
Typos Costumes Portugueses n.° 41,  João Palhares c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Exclusão absoluta das paixões pequenas, e ávante. (1)
Simbologia dos Bombeiros Voluntário d'Almada, 1882.
Imagem: bombeiros-portugal.net

Do sr. presidente d'esta associação recebemos a seguinte carta a que gostosamente damos publicidade fazendo sinceros votos para que a associação dos bombeiros voluntarios do Caramujo se torne digna pela sua seriedade e pelos seus bons servi ços, da consideração publica.

Eis a carta a que nos referimos:

"Sr. redactor.

A associação dos bombeiros voluntarios do Caramujo, acha-se penhoradissima para com v ., pela noticia inserida no Bombeiro de 15 de junho proximo passado.

Emquanto ás divergencias havidas na associação dos bombeiros voluntarios d 'Almada é na verdade para lastimar que as houvesse, porém d'ellas emanou esta associação que soube á custa de mil sacrificios e prívações e estabelecer no curto espaço de 60 dias a 1.a estação no concelho a que pertence, tencionando no dia 20 fazer a inauguração com a sua machina.

Bomba a vapor Jauck n.° 1.
Consome esta machiina 1500 litros d'agua por miuuto, e o jacto alcança a distancia de 60 metros...
Imagem: O Bombeiro Portuguez n.° 8, 15 de julho de 1282

Sendo effectivamente os socios d'esta associaçãto desprovidos de paixões mesquinhas, trabalhando apenas em prol da humanidade, veem os mesmos demonstrar publicamente que nenhuma rivalidade existe entre esta corporação e os bombeiros voluntarios d'Almada; por isso pedimos á redacção a publicação do presente officio pelo que nos consideramos summamente agradecidos.

Lisboa 11 de julho de 1882.

Sr. redactor do Bombeiro Portuguez.


O presidente, José Maria Subtil d'Andrade" (2)

Piedade, D. Carlos de Bragança 1885.
Imagem: ComJeitoeArte

No dia 23 do passado a Associação dos bombeiros voluntarios do Caramujo abriu a sua primeira estação, na rua de S. Thiago, em Almada, tendo o material necessario para o serviço do incendios. (3)


(1) O Bombeiro Portuguez n.° 6, 15 de junho de 1282
(2) O Bombeiro Portuguez n.° 8, 15 de julho de 1282
(3) O Bombeiro Portuguez n.° 9, 1 de agosto de 1282

Artigos relacionados:
O incendio da fabrica da Margueira
Museu de Bombeiros

Mais informação
Hemeroteca Digital de Lisboa: O Bombeiro Portuguez

[Abaixo publicamos algumas referências cordialmente elaboradas pelo professor Alexandre Magno Flores, relativas à efémera associação dos Bombeiros Voluntários do Caramujo e ao material contido nesta mensagem:]

Para quem estiver interessado em aprofundar a história dos «Bombeiros Voluntários do Caramujo», aconselhamos também a consulta de trabalhos sobre a mesma temática, publicados há vários anos. Registamos, por exemplo, os seguintes títulos: «Bombeiros Voluntários do Caramujo (...)», da autoria de Manuel Lourenço Soares, in "Jornal de Almada", n.º 1687, 25 de Dezembro de 1983, páginas 17 e 18 // «Almada Antiga e Moderna - Roteiro Iconográfico -II. Freguesia de Cacilhas, CMA, 1987, página 108 // «Almada Antiga e Moderna - Roteiro Iconográfico - III. Freguesia da Cova da Piedade, CMA, 1990, páginas 73, 84, 85 e 94 // «Bombeiros do Concelho de Almada (século XIX)», (separata revista e actualizada da publicação periódica «Anais de Almada», 2004-2005, n.ºs 7 e 8, páginas 113-150), da autoria de Alexandre M. Flores, Edição dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 2007, páginas 18,19,20,21,22,38,39. Em relação às imagens reproduzidas no texto do «Almada Virtual Museum», importa referir que a foto da "Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo"(de Maria Conceição Toscano) , nos foi cedida pelo por Mário Faria de Carvalho, bisneto do industrial e benemérito António José Gomes, para reprodução no livro «António José Gomes: o Homem e o Industrial (1847-1909)», editado pela Junta de Freguesia da Cova da Piedade, em 1991, na página 30. Quanto à reprodução do «símbolo dos Bombeiros Voluntários de Almada», a imagem foi plagiada por alguém e a colocou no «bombeiro-Portugal.net.», a partir da referida revista cultural «Anais de Almada», 2004-2005, n.ºs 7 e 8, na página 120 // ou a partir do livro, atrás citado, «Bombeiros do Concelho de Almada», 2007, na página 19.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Jackass Bay (ou Os ingleses em Cacilhas)

No século XIV, os peregrinos ingleses levantaram, em Cacilhas, a Casa dos Palmeiros, ainda existente em meados de quinhentos e destinada a agasalhar os peregrinos: "Nos tempos passados, escreve o autor quinhentista, vierão a este reyno os ingleses romeiros e chegando a Cacilhas, lugar dalém pegado com o mar, não acharam gasalhado, e vindo a esta cidade acharam a mesma falta.

A entrada em Jerusalém, Giotto (c. 1266 - 1337), c. 1305.
Imagem: The Athenaeum

Espantados muyto de em tão nobre cidade não aver gasalhado para os peregrinos determinarão fazer aas suas custas dous espritaes hum no mesmo lugar de Cacilhas e o outro na cidade". Era o Sprital dos Palmeiros. (1)

O almirante John Leake, comandante da expedição a Málaga em 1704, e cuja base era Lisboa procurou instalar, nesta cidade, um hospital destinado à Marinha de Guerra Inglesa. As negociações, levadas a cabo pelo embaixador inglês, foram difíceis e longas a ponto do almirante se referir, em termos pouco abonatórios, à colaboração, ou falta dela, dos portugueses.

A squadron of the Red lying in the Tagus off the Belem Tower, Lisbon, Peter Monamy (1689-1749).
Imagem: artnet

O que é um facto é que, um ano depois, estava em funcionamento, o hospital identificado como sendo "near Almeida on the south bank of River Tagus", povoação esta que não pode ser outra que Almada. Pese embora as várias diligências efectuadas não foi possfvel conhecer qual a data em que este hospital foi encerrado o que se averiguou foi que, em 1745, o hospital estaria instalado em Lisboa de onde, por determinação régia, teria de sair.

De acordo com o cônsul britânico Charles Compton as freiras do convento que se encontrava nas proximidades do hospital ter-se-iam queixado que haveria perigo de contágio o que teria levado a Coroa a mandar encerrá-lo. De acordo com o cônsul as acusações não tinham qualquer fundamento mas, apesar disso, o cirurgião tinha transferido os doentes para bordo de alguns navios. Em carta de 22 de Março de 1745 o cônsul informa já ter encontrado uma casa adequada à instalação do hospital, mais uma vez na margem Sul do Tejo.

É esse hospital que aparece retratado numa pintura de Noel com o titulo de "A view taken from Lisbon , the english Hospital and the Convento of Almada" de 1793.

Vista norte de Cacilhas. Em primeiro plano ao lado esquerdo, dois marinheiros carregam cestos a partir de uma barcaça, com a inscrição 'JWells Aqua', para o convés de um ferry-boat onde uma mulher e dois homens aguardam. Do lado direito um barco transporta um passageiro abrigado por um dossel e seis remadores. Vista da igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso, do porto e do lugar de Cacilhas. A bandeira inglesa sobre o hospital. Ao fundo, veleiros no rio Tejo.
in British Library 
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Em 1798 Heinrich Friedrick Link [Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha] refere a existência, logo abaixo de Almada, no sopé da colina, de um grande hospital inglês para a marinhagem, em especial a das frotas e que ficava junto a um armazém grande de vinhos.

Edward Thornton, 1.° Conde de Cacilhas, c. 1799.
Imagem: Wikipedia

Um dos doentes que foi tratado naquele hospital foi o almirante Francis Beauford, o inventor da ainda em uso escala de ventos, que tendo sido ferido em 28 de Outubro de 1800, aquando da captura do navio espanhol S. José, veio completar a cura em Almada onde, segundo refere, dava grandes passeios pelos arredores. Beauford só veio a largar de Lisboa, findo o tratamento, em 18 de Agosto de 1801. 

Em 15 de Janeiro de 1802 a Gazeta de Lisboa publicava o seguinte anúncio: Terça feira 19 do corrente mês, pelas 10 horas da manhã, na casa da Praça do Comércio se hão de vender em leilão vários restos de medicamentos, instrumentos de cirurgia, camas, lençóis, cobertores e outras pertenças do Hospital da Marinha Britânica, sito no lugar de Cacilhas, aonde se poderão examinar os ditos artigos nos três dias antecedentes à venda; e tanto ali, como na Casa da Praça, se achará a sua relação, e as condições da arrematação. (2)

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O lado sul do Tejo ou Outra Banda [...] consiste numa cadeia de colinas revestidas de vinha que se estendem até Cacilhas, em frente ao Arsenal, onde a margem faz uma curva em direção a sudeste, formando uma baía espaçosa chamada Cova da Piedade, conhecida dos marinheiros ingleses pelo menos eufórico título de "Jackass Bay" [Baía dos Burros]. (3)


Os ingleses em Cacilhas, Os costumes antigos - Portugal de algum dia, ilustração de Roque Gameiro, 1931.
Imagem: Roque Gameiro.org

O Tejo, que lava as fundações a todo o comprimento da cidade, estende-se para o leste numa baía espaçosa chamada Cova da Piedade, e elegantemente pelos marinheiros ingleses, "Jackass Bay", provavelmente devido ao número da raça de orelha comprida que estão constantemente à espera no seu extremo para transportar os visitantes pelo país. (4)

Costa da Caparica, 1907.
Imagem: Delcampe

Um dia, depois do nosso regresso, navegamos o Tejo até Cacilhas, a aldeia no Alemtejo, frente à cidade. O lugar de atracagem tem sido chamado "Jackass Bay" pelos marinheiros ingleses, por causa da multidão de burros e rapazes, clamorosos por emprego, que assaltam os estranhos que lá chegam.

Edward Thornton, 2.° Conde de Cacilhas, 1886.
Imagem: Wikipedia

Montados em burros robustos, subimos até a estação do telégrafo, da qual tivemos a vista panorâmica mais esplêndida de "Lisboa antiga". (5)

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Partiu o comboio ao longo das margens do Tejo, que logo se abriram no amplo lago de esteiros  conhecido pelos marinheiros ingleses como Jackass Bay. (6)

Almada [Cova da Piedade], Uma Burricada, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 14, década de 1900.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Do Portugal de ha século e meio escasseia o documento, e a não juntarem-se agora os elementos fragmentádos, e a não apontarem-se as memórias que sôbrevivem, cerzindo-se umas a outras neste Portugal de algum dia, êsse período tão longínquo, e ainda tão perto da nossa sensibilidade, ficaria impreciso n'uma das suas facêtas mais reverberantes e mais comunicativas. (7)


(1) Mário Martins S. J., Peregrinações e livros de milagres..., Lisboa, ed. Brotéria, 1937
(2) Revista da Armada  nº 459, janeiro de 2012
(3) Joaquim António de Macedo, A guide to Lisbon and its environs..., 1874
(4) The stranger's guide in Lisbon, 1848
(5) William Edward Baxter, The Tagus and the Tiber, 1852
(6) J. Richard Digby Beste, Nowadays; or, Courts, courtiers, churchmen..., 1870
(7) Roque Gameiro/Matos Sequeira, Portugal de algum dia..., 1931

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Associação de Socorros Mútuos Primeiro de Dezembro

Este livro [Livro do Centenário da Associação de Socorros Mútuos Primeiro de Dezembro, 1883-1983] escrito e ilustrado por António Henriques [v. Centenário de António Henriques (1915-2015)] em 1983, data da comemoração do centenário da Associação, debruça-se sobre a sua fundação e história; contém a lista dos sócios fundadores e principais beneméritos, exposição do processo da construção da sede da coletividade, descrição das comemorações e solenidades registadas por ocasião das festividades do dito centenário; listagem dos médicos que prestaram serviços para a associação, bem como as representações feitas por esta nos funerais dos sócios; relações dos corpos sociais no decorrer daquele século de história e uma sucinta narrativa da história do mutualismo em Portugal, com o registo dos montepios existentes no país. (1)

Associação de Socorros Mútuos 1.° de Dezembro
Imagem: InfoGestNet

Nos anos de 1861 a 1889 a Pátria Portuguesa esteve sob o reinado de. D. Luís, cognominado "O Popular", época assinalada por grandes melhoramentos e importantes reformas que muito contribuiram para o progresso material e moral da Nação, principalmente em 1883 que se distinguiu pelas explorações científicas que se efectuaram através do continente africano, em terras sertanejas de Moçamedes e Quelimane, num percurso de alguns milhares de quilómetros, que causaram, ao tempo, a admiração da Europa e glorificaram o nome de Portugal. 

António Henriques, notável associativista almadense.
Imagem: Centenário de António Henriques (1915-2015)

Ao mencionarmos aquele longínquo ano, Almada foi também palco do que pode-10 querer decisivo dos homens, na ideia concebidas em consistentes princípios de relevância social e humanitária, de protecção aos trabalhadores que esteve na origem da criação, a 22 de Novembro, da Associação dos Operários de Cortiça "1.° de Dezembro", acontecimento de muito orgulho para os almadenses, denominação que em Novembro de 1884, se transformou em Associação dos Operários de Cortiça e Artes Correlativas "1.° de Dezembro", até Fevereiro de 1885, passando a partir desta data, e até hoje, a chamar-se Associação de Socorros Mútuos Primeiro de Dezembro.

Os notáveis fundadores todos operários da classe corticeira, em Margueira foram, com a concordância de todos os cidadãos: Francisco Borja de Almeida Ferreira, José Tavares Veloso, Norberto dos Santos Júnior, José Anastácio de Almeida e, muito provavelmente, José Custódio Gomes e José da Costa ou José da Costa Leal.

Cacilhas, Caes e Farol, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

A Associação teve a sua primeira sede social em Cacilhas, na Rua Direita de Cacilhas (antiga denominação) com o número 30, de polícia, actualmente Rua Cândido dos Reis.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

O edifício ficava a direita de quem se dirige para Almada, localizado imediatamente a seguir a Igreja de N.ª S.ª do Bom Sucesso, em frente da que foi "Escola de Instrução Primária, da Professora D. Henriqueta" (foto assinalada com X).


Mas, segundo outra fonte (talvez menos verosímil) , a primeira sede ficaria no prédio situado no começo da Calçada da Pedreira, também em Cacilhas, actual Rua Elias Garcia, a direita de quem se encaminha para Almada, ligeiramente defronte do portão da já desaparecida "Quinta do Pinto" [...] mantendo-se a Associação em Cacilhas até fins do ano de 1887 [...]

Almada, Largo do Poço em Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 03, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Esta Comissão iniciou, de pronto, os seus trabalhos para a aquisição de um imóvel ao aparecer-lhe para venda uma casa abarracada e quintal, situada, segundo consta da respectiva acta, entre as Ruas do Forno e da Judiaria, em Almada [...]

A mesma Comissão, depois de, naturalmente, ter procedido a mais "démarches", optou pela compra da casa abarracada, situada em Almada, também na Rua Direita, ao Cabo da Vila (hoje Rua Capitão Leitão), pelo preço de 1.300.000 reis, que acrescida da quantia de 2.300.000 reis, importância calculada para a construção do 1.º andar e apropriar o r/chão, totalizava 3.600.000 reis. 

Apresentados os resultados das diligências efectuadas a Assembleia Geral, bem como a decisão da Comissão favorável a compra do dito imóvel, sito ao Cabo da Vila, foi aprovada por maioria a sua aquisição, atendendo, principalmente, a localização das que seriam as futuras instalações desta tão benemerente instituição [...]

Para o bom êxito desta transacção, bastante se ficou a dever, também, aos sócios Manuel Ferreira, José Francisco de Avelar e Silva, Eduardo Augusto Cristóvão, João Pedro Rodrigues de Paiva. 

Rapidamente, foram estudados e aprovados os planos das obras a efectuar para a construção da Sede, as quais começaram, ainda, no aludido ano de 1904, sob a orientação técnica do Mestre-de-obras, José Avelar.


A inauguração da nova Sede, propriedade da Associação, dá-se a 12 de Março de 1905, com toda a solenidade e a presença das duas Bandas Musicais da terra, a Incrível e a Academia Almadense, que se faziam acompanhar de bastante público.


Em Novembro de 1933, foram feitas reparações interiores e exteriores no prédio, tendo sido colocada no cimo da fachada do edifício uma pedra com o nome da Associação e a data da sua fundação, num trabalho do técnico profissional, o almadense José Duarte Cordeiro. (2)

100 anos de amor ao próximo

Faltavam ainda dezassete anos para entrarmos no Século XX quando um grupo de trabalhadores de Almada tentou realizar mais um sonho incrível...  — a fundação de uma associação de socorros mútuos. De mãos calejadas e vazias de reais, cercados das carências mais elementares e vivendo numa época de atraso técnico e científico, estes cidadãos uniram-se num grande querer — e o milagre aconteceu.

A então vila de Almada comportava uns escassos milhares de almas que se consumiam em dez, doze e mais horas de trabalho diário, tendo na Sociedade Filarmónica Incrível Almadense (1848) e na Associação dos Artistas Almadenses (1856) os únicos oásis recreativos e culturais.

As ruas da freguesia deixaram por essa ocasião de ser alumiadas a óleo de peixe aparecendo a novidade dos candeeiros a petróleo. A escola Conde de Ferreira, no Campo de São Paulo, era a única fonte do saber oficial. Tardavam em aparecer a Cooperativa Almadense (1891) e a Piedense (1893), assim como as filarmónicas da SFUAP (1889) e da Academia (1895). Os bombeiros de Cacilhas (1891) e de Almada (1913) não passavam de desejos. Os grupos desportivos só no próximo século germinariam timidamente. Tabernas não faltavam e uma zona de prostituição era autorizada na Rua do registo Civil, na Boca do Vento. A praga do analfabetismo no reinado de el-Rei D.Luís I rondava os 80 por cento.

Romeu Correia, escritor almadense neorrealista.

Mas aquele punhado de operários e lojistas sabiam que na unidade residia a força que operava prodígios. Os ideais republicanos conquistavam os jovens mais esclarecidos e uma boa parcela de intelectuais da pequena burguesia. Faltavam oito anos para a primeira tentativa, aliás frustrada da revolução republicana de 31 de Janeiro de 1891. Seria preciso esperar ainda até 1910 para que a Monarquia secular fosse derrubada. 

Os habitantes desta margem do Tejo orgulhavam-se de Almada ter sido berço do mais prestigioso vulto da propaganda republicana na sua primeira fase: José Elias Garcia (1830-1891). Cidadão nascido em Cacilhas, tinha dois anos quando seu pai condenado ao suplício da forca pelos miguelistas fora libertado pela vitória liberal de 23 de Julho de 1833. Mas cinquenta anos depois (a 22 de Novembro de 1883), quando nasce a Associação de Socorros Mútuos "1.° de Dezembro", o leque político dividia-se por anarco-sindicalistas, socialistas e republicanos liberais, além dos adeptos da monarquia vigente. 

Luís de Queiroz, almadense notável e dirigente da
Associação de Socorros Mútuos 1.° de Dezembro

Recordando o mundo de então sob o ponto de vista sanitário e estabelecendo o confronto com o progresso actual, verificamos um atraso que causa espanto. A tuberculose e a sífilis pairavam no horizonte dos jovens como um mal fatalista. As crianças enfrentavam mil moléstias antes de dar os primeiros passos. As pestes periódicas ceifavam famílias inteiras. Do vocábulo "micróbio" até então ninguém tinha ouvido falar... 

Apelando para a paciência do leitor, talvez seja oportuno recordar algumas das principais criações do génio do Homem quando e depois da fundação da "1.° de Dezembro". Um pouco antes Alexandre G. Bell inventara o telefone (1876) e Thomas Edison o gramofone (1877). Pasteur descobre a vacina anti-rábica (1885). Construção da Torre Eiffel; Exposição Universal de Paris (1889). Os irmãos Lumière inventam o animatógrafo (1895). Marconi descobre a T.S.F. e Rontgen os raios X (1896); 1.a corrida de automóveis em 1896; 1.° voo de avião em 1897. Curie descobre o rádio (1898). Einstein formula as leis da relatividade (1905). Augusto Lumiére cria a fotografia a cores (1907). Travessia aérea da Mancha em 1908. Descoberta da vitamina Funk (1912). Advento do cinema sonoro; travessia aérea do Atlântico por Lindberg (1927). Alexandre Fleming descobre a penicilina (1928). Lançamento pelos americanos da primeira bomba atómica (1945). Experiencias com a bomba sobre Hiroshima e Nagasaki (1945). Apelo de Estocolmo para a interdição da bomba atómica (1950). Experiências com a bomba de hidrogénio (1956). Lançamento do primeiro satélite artificial pela União Soviética (1957). Os americanos pisam a Lua (1970).

José Carlos de Melo, almadense notável e dirigente da
Associação de Socorros Mútuos 1.° de Dezembro

Mas na pacata vila de Almada, hoje cidade, a nossa Associação de Socorros Mútuos manteve-se contra procelas sociais e politicas, numa prova indestrutível da obra mutualista dos generosos fundadores. Muito do seu historial se perdeu no correr dos anos. Mas sabemos que muito cedo adquirira edifício próprio para sede, da qual legitimamente se orgulhava. Como regalias dispensadas aos associados, a "1.° de Dezembro" tinha assistência médica e medicamentosa, enfermagem e, em anos melhores, parteira, subsídio para cura de água, carro funerário e enterro.

Pelas direcções passaram centenas de cidadãos dos melhores quadros do movimento associativo da vila, hoje cidade. Os antigos almadenses falam ainda, saudosos, da grande festa anual em beneficio da Associação no Teatro da Trindade, em Lisboa. Durante meses, os associados e seus familiares sonhavam com o deslumbrante passeio, os vestidos e as farpelas a estrear, o espectáculo, o baile — oh gentes daquele tempo como a solidariedade floria em amor e felicidade! 

Pelicano Eucarístico
Associação de Socorros Mútuos 1.° de Dezembro
Imagem: InfoGestNet

Mas os anos e os homens são outros, Hoje resta-nos desejar que a árvore secular seja mais acarinhada, mais auxiliada, mais reconhecida por quem pode e manda neste País de milhões de pobres e de alguns milhares de senhores tão ricos, tão ricos.

São os nossos votos. Ámen

Romeu Correia (3)


(1) InfoGestNet
(2) Idem
(3) Idem, ibidem

Informação relacionada:
Centenário de António Henriques (1915-2015)
Almada em 1897
José Carlos de Melo

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Ao fim da memória

Também me lembro da casa da minha bisavó, em Cacilhas, isto é, lembro-me de uma casa onde havia sempre muita gente, onde não me obrigavam a beber café com leite, onde ninguém me ralhava nem me punha de castigo. O resto, os pormenores, o tempo se encarregou de mos revelar; á medida que íamos crescendo, os meus irmãos e eu. 

Almada, Largo do Poço em Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 05, década de 1900
Imagem: Delcampe

Era uma casa pombalina, cor-de-rosa. Nem pequena nem enorme, tinha janelas de sacada com grades pintadas de verde e muitos vasos de sardinheiras nas varandas. A casa de jantar e a sala, ambas muito grandes, tinham pinturas a fresco nas paredes, cenas de caça na primeira, anjinhos, instrumentos musicais e grinaldas de flores na segunda. 

Rua Direita — Cacilhas, ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe, Oliveira

Os quartos, excepto o da minha bisavó e o da tia Emiliana, eram alcovas com portas de vidrinhos que davam para a sala e para a casa de jantar. O sótão, enorme, tinha um delicioso cheiro a pó e a bafio. 

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

Por uma grande escada de pedra chegávamos aos aposentos da tia Emiliana que se compunham de sala, quarto de dormir, quarto de vestir e lavagens. O quarto de dormir tinha uma janela que dava para o Tejo, podendo ver, quando estava deitada, o vaivém das fragatas no rio. 

Cacilhas, Caes e Pharol, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

No pátio lajeado da cozinha havia outra escada de pedra toda enredada numa trepadeira que dava umas flores esverdeadas chamadas "martírios". 

Cacilhas, Molhe e pharol, ed. Martins/Martins & Silva, 19, c. 1900.
Imagem: Delcampe, Oliveira

A quinta que me parecia muito grande era, na realidade, pequena e bastante mal tratada por falta de água e por já não haver, nessa altura, hortelão nem jardineiro. Ainda assim tinha algumas árvores de fruto, pereiras e macieiras, alguns pés de uva moscatel, uma enorme amoreira e duas figueiras que davam uns figos pequenos mas muito doces. 

Almada, Pharol de Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 03, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

E havia ainda o mirante, a praia da Margueira e o poço onde – dizia a cozinheira Guilhermina – viviam lagartos e lacraus [...] (1)

Cacilhas, Caes e Pharol, ed.Tabacaria Havaneza, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Já estavam todos à mesa. Todos, menos o tio António. A tia Emiliana, severa, voltou-se para Carolina:   – Vai dizer ao menino António que estamos à espera... que a senhora está à espera.
– O menino António não almoça, está doente.
– Doente com quê? Não se adoece assim de repente, sem razão.
Anica interrompeu-a:  
– Teimou em ir tomar banho à Margueira, esteve uma hora dentro de água, apanhou frio e agora tem febre [...] (2)

Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 20, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Estou aqui na ilha de Faro à beira da Riamas que fio de Ariana me levou para bem longe, para a casa da minha infância?  A doçura da tarde? O voo das gaivotas? O reflexo dos últimos raios de sol na água imóvel? De repente compreendi; não era o lento subir da maré que eu captava, nem o susurro da água na areia, mas o longinquo marulhar do Tejo aqui na praia da Margueira. (3)


(1) Voies du paysage: représentations du monde lusophone cf. Fernanda de Castro, Ao fim da memória, Porto, Verbo, 1986
(2) As Margueiras..., Junta de Freguesia de Cacilhas, 2013 cf. Fernanda de Castro, Maria da Lua, Lisboa, Círculo de Leitores, 2007
(3) Voies du paysage: représentations du monde lusophone cf. Fernanda de Castro, Ao fim da memória, Porto, Verbo, 1986



Fernanda de Castro (1900-1994) descreve-nos a casa pombalina da sua bisavó, Maria Maurícia Telles de Castro e Silva casada com Francisco Liberato e Silva [ref. no Arquivo Distrital de Setúbal], 2.° comandante da Guarda Municipal, pais de Francisco Liberato Telles de Castro e Silva (1842-1902), nascido em Cacilhas [v. artigo dedicado].

A autora nasce do casamento de Ana Isaura Codina Teles de Castro da Silva (1879-1914), filha de Liberato Telles, com João Filipe das Dores de Quadros (1874-1943), Capitão-Tenente da Marinha e Comendador da Ordem Militar de Avis.

Do casamento de Fernanda de Castro em 1922 com António Ferro, nasceram António Quadros, filósofo e ensaísta, e Fernando Manuel de Quadros Ferro. A escritora Rita Ferro é sua neta.

domingo, 10 de setembro de 2017

A banhos na Margueira com Romeu Correia

A praia da Margueira Velha, que era uma autêntica piscina natural, era um dos locais escolhidos por Orlando Avelar e muitos outros jovens da altura como: Sérgio Malpique, António Calado, Francisco Avelar, Romeu Correia, Ramiro Ferrão e Mário da Cruz Fernandes, para irem ao banho e conviverem. (1)

Saltando da muralha (detalhe).
Imagem: Imagem: Boletim "O Pharol"

Pois esta Margueira (Velha) era livre e a malta ia para lá com plena autonomia. Tinha um esporão que entrava pela água dentro e era aí que a rapaziada aprendia a atirar-se para as salsas ondas do rio.

Para entrar na outra (Margueira Nova) já piava mais fino. Apesar de ser mais solicitada tinha que se passar junto a um Posto da Guarda-fiscal e quando estavam de serviço os guardas Caturra e Barreto, nem pensar por lá seguir.

Aonde é que os meninos vão? Perguntavam os guardas de cinzento...

Nós vamos ao banho, senhor guarda, afirmavam com voz muito humilde. Pois se os meninos querem ir ao banho, vão pela Margueira Velha que a água é igual [...]

Para a doca da Margueira,
Iam os putos reinar,
Quais capitães da areia,
Para ali iam nadar.

Para o rio, na Margueira,
A muralha era um céu,
Acabou-se a brincadeira,
Quando a Lisnave apareceu.

Só em pelo, sem calção,
Todos nus, em ritual,
Mas sempre com atenção,
Ao mau do guarda fiscal. (2)

Venância Quaresma Correia Guerreiro, irmã do escritor almadense Romeu Correia, por parte do pai, nasceu em Cacilhas, no Ginjal no dia 16 de Junho de 1933.

Foto de 1935, na praia da Margueira. Da esquerda para a direita: 1o plano: Francisco Avelar e Orlando Avelar. 2o plano: Eduardo (padeiro), Romeu Correia, Ramiro Ferrão e António Calado. (Foto de Mário da Cruz Fernandes, cedida pelo seu filho Mário Simões Fernandes)
Imagem: As Margueiras

Recorda ainda hoje com vivacidade as suas primeiras idas à praia com o seu irmão, sempre acompanhados por um grupo de amigos, do qual faziam parte Francisco Calado, Francisco Avelar, Francisco Bastos, Sérgio Malpique e Chico Carapinha, Jorge Parada e Adelino Moura, entre outros, quase todos eles praticantes de atletismo.

Naquele tempo, para tomarem um bom banho os jovens não precisavam de apanhar qualquer meio de transporte.

O rio Tejo, com as suas águas límpidas, tranquilas e convidativas, estava mesmo ali pertinho de casa. Era só descer a pé pela rua da Margueira, que se bifurcava em dois caminhos. À direita ficava a praia da Margueira Nova, onde se encontrava a guarita da Guarda-Fiscal, que controlava o acesso à praia de seixos e areia branca, onde a Guarda proibia a entrada à rapaziada. 

No entanto, para alguns privilegiados a mesma guarita servia de vestiário.

À esquerda encontrava-se a praia da Margueira Velha, junto à casa da família Carbone onde se tinha de ter cuidado com as cascas de ostras para não cortar os pés descalços. Por vezes, quando os mais destemidos da malta mergulhavam sem pensar e calculavam mal o nível da maré-cheia, ficavam todos cortados nas ostras. Nesta praia, portanto, tinham de ser ter alguns cuidados e, acima de tudo, aproveitar para tomar banho com a maré bem cheia.

Saltando da muralha.
Imagem: Boletim "O Pharol"

Foi nesta mesma praia da Margueira Velha que o Romeu ensinou a sua irmã Venância a nadar. Mais tarde, haveria também de neste local ensinar a nadar a sua mulher Almerinda.

Cuidadosamente, o Romeu para proteger a irmã quando iam ao banho, levava-a às cavalitas. Na falta de fato de banho apropriado, a pequena ia habitualmente para dentro de água vestida de cuecas, que tinha de secar antes de vestir a roupa. As tias não podiam descobrir que estava molhada, quando chegava a casa, pois ela estava mesmo proibida de ir ao banho.

Vista panorâmica da Margueira (detalhe), Mário Novais, década de 1930
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Uma vez, desprevenida, molhou também o vestido. Estava no pontão a correr, agitando o vestido para o secar, quando se desequilibrou, caiu à água e voltou a molhar completamente as duas peças de roupa que tinha vestido nesse dia.

Margueira antiga (desenho original de Humberto Borges) sobreposição a actual vista satélite no Google Maps.
Imagem: Boletim "O Pharol"

Não tendo tempo para voltar a secar o vestuário, chegou a casa com ele ainda molhado. A partir daí, descoberta a sua já proibida ida a banhos, a menina Venância ficou igualmente proibida pela família de ir à praia da Margueira. (3)

Praia de doce encanto
Onde desde cedo
As crianças se banhavam.
Em suas límpidas águas sonhavam,
Desde manhã
ao sol se pôr na epifania.

Margueira, Anyana, 1981.
Imagem: As Margueiras..., Junta de Freguesia de Cacilhas, 2013

Na ansiada hora
Da maré cheia
Eram tão sãos
Os gritos de alegria
Junto aos chamados
Da mãe que os repreendia.

E quando no caminho
Em aromas suaves da aurora
Derramando a vivacidade da sua energia
Aqueles seres pequeninos
Saltavam em pés coxinhos
Como alcatruzes nas noras.

E era tão belo
O correr do momento
E era tão sã
A sã euforia
Que marcaram bem
Na distância
No tempo
O que lhes ficou
No pensamento
O que jamais na razão desaparecia
Vamos! Está na hora da maré!
Era um grito
Na chamada de lar em lar
E sem esperar
Sempre correndo em frente
Aquele magote de gente
Se encontrava em cruzamento das Margueiras,
A nova e a velha,
Como que em juramento
De crédito na vida
No amor, na verdade, na fé plena
Na fé de esperança e caridade
Que corre ainda hoje
Estes caminhos
Nas memórias da saudade.

AnyAna (4)



(1) As Margueiras..., Junta de Freguesia de Cacilhas, 2013
(2) As Margueiras..., cf. José Luis Tavares, Almada minha, 2010
(3) As Margueiras..., Junta de Freguesia de Cacilhas, 2013
(4) AnyAna in As Margueiras..., Junta de Freguesia de Cacilhas, 2013

Informação relacionada:
Recordar as Margueiras - I
Recordar as Margueiras - II
Júlio Diniz

sábado, 12 de agosto de 2017

Lisboa vista do Porto Brandão por James Holland

James Holland (1800-1870), pintor de aguarelas, nasceu em Burslem em 17 de outubro de 1800 onde o seu pai, e outros membros da família, trabalhavam na fábrica de cerâmica de William Davenport. 

Lisboa vista do Porto Brandão, James Holland, 1837, 1838 ou 1847.
Imagem: Museu de Lisboa

Em idade precoce trabalhou em pintura de flores de cerâmica e porcelana, tendo partido para Londres, em 1819, para praticar pintura de flores e frequentar aulas de desenho de paisagem, arquitetura e temas marinhos. 

Lisbon from Porto Brandão, James Holland, 1845 1838 ou 1847.
[v. art authority]
Imagem: Art UK (ex BBC Your Paintings)

Expôs pela primeira vez na Royal Academy em 1824, e em 1830 visitou a França e fez estudos sobre a arquitetura desse país. Em 1823,exibiu uma imagem de "Londres vista de Blackheath". Em 1835, tornou-se expositor associado da (agora Royal) Society of Painters in Water-colours, mas deixou essa sociedade em 1843 e juntou-se à (agora Royal) Society of British Artists, na qual permaneceu membro até 1848. 

Regressou à Society of Painters in Water-colours em 1856 e foi eleito membro de pleno direito dois anos depois. Trabalhou muito em desenho para anuários ilustrados [The tourist in Portugal, illustrated from paintings by James Holland, London, 1839]  e, nesse propósito, visitou Veneza, Milão, Genebra e Paris em 1836 e Portugal em 1838 [1837, chegou em julho e partiu no outono desse mesmo ano, cf. Walker Art Gallery].

Vista do Porto tomada do Convento da Serra do Pilar em Gaia, James Holland, 1838.
[incl. em The tourist in Portugal, 1839]
Imagem: Palácio do Correio Velho

Em 1839 expôs na Royal Academy uma bela pintura de Lisboa.

Almada, vista de [Alfama, sé patriarcal?] Lisboa, James Holland, 1837.
Imagem: Walker Art Gallery

Em 1845, foi para Roterdão, em 1850, para Normandia e Norte do País de Gales, em 1851 novamente para Genebra e, em 1857, novamente para Veneza.

No South Kensington Museum [Victoria & Albert Museum] há uma série de esboços em Portugal datados de 1847, dos quais parece que ele visitou o país pela segunda vez. 

Lisboa, Parte do Tesouro Velho; James Holland, 1837.
Imagem: Victoria & Albert Museum

Ao longo da vida, exibiu, além de suas contribuições para a Water-colours Society, trinta e duas imagens na Royal Academy, noventa e uma na British Institution, e cento e oito na Society of British Artists. 

Ruínas do Convento de S. Francisco, James Holland, 1837.
Imagem: Peppiatt Fine Art

Embora geralmente classificado como um pintor de aguarelas, era igualmente hábil na pintura a  óleo. Foi um dos melhores coloristas da Escola Inglesa, e as suas imagens, especialmente as de Veneza, embora negligenciadas durante a sua vida, são agora ansiosamente procuradas e obtêm avultados preços. 

Uma vista de Coimbra, James Holland, 1837 ou 1838.
 [incl. em The tourist in Portugal, 1839]
Imagem: Christie's

Parece ter deixado de exibir em 1857. Morreu em 12 de dezembro de 1870. 

No Greenwich Hospital, há uma pintura sua de Greenwich, e no South Kensington Museum estão duas pequenas imagens a óleo e algumas aguarelas, mas não existe um bom exemplo do seu trabalho nas coleções nacionais [britânicas]. (1)


(1) Wikisource cf. Redgrave's Dict.; Bryan's Dict. (Graves); Graves's Dict...

Mais informação:
Victoria & Albert Museum
Art UK (ex BBC Your Paintings)

James Holland na Biblioteca Nacional de Portugal

Leitura relacionada:
W. H. Harrison, The tourist in Portugal, illustrated from paintings by James Holland, London, 1839

quarta-feira, 19 de julho de 2017

O Marquez e a Trafaria

Sebastião José de Carvalho e Melo (1699–1782)

Ainda um traço horrível d'aquelles "óptimos" tempos. Passo outros, para não dizerem que, propositadamente, ando a remexer no tumulo as cinzas do grande homem. Repugna-me invadir um campo vedado á critica, mas cujas barreiras teem sido, aliás, transpostas pelas divagações contemporâneas de achineladas farandulas e phariseus amaneirados.

Marquês de Pombal, Louis-Michel van Loo e Claude-Joseph Vernet, 1767.
Imagem: Oeiras com História

Este caso, porem, é pouco conhecido. Quando a elle me referi n'outro livro [Ferro de marca, publicado em 1913], houve quem duvidasse da sua realidade. Agora o reproduzo, sem diminuir-lhe ou alterar-lhe o sabor especialíssimo, que o próprio historiador Soriano reconheceu, apezar de, por vezes, mostrar-se captivado pelo primeiro "estadista portuguez" escrevendo comtudo a tal respeito:

"Foi esta finalmente a ultima das muitas barbaridades que tão memoráveis fizeram a administração do marquez de Pombal, concluindo assim a carreira despótica do seu governo com a sua tyrannia, sem que talvez ainda lhe ficasse satisfeita com ella o seu bárbaro coração."


José Pedro Ferrás Gramoza, não obstante a sua parcialidade bem acentuada em favor de Sebastião José, também d'elle foi escrevendo: 

"É inegável que causou gravíssimos e incalculáveis prejuízos em honras, vidas e fazendas de milhares de pessoas, por não arrear do seu péssimo sistema; e pesando-se em huma balança os beneficios públicos... e os males e prejuizos causados... pende a balança para estes".

Sebastião José, como deixou dito Gramoza, "não arreou do péssimo sistema" porque tinha a covardia do medo, a peior de todas as covardias dos déspotas. Reconhecendo-se odiado, temia-se dos ódios. Não sendo nem um luctador, nem uma capacidade, tratava de vencer pela força bruta, seguro de bem guardado e de que dispunha da illimitada confiança e rudimentar intelligencia de D. José.

Retrato de D. José I, Miguel António do Amaral, c. 1773.
Imagem: Wikimedia

Verdugo para com os fracos, receava os fortes, calando-os pela morte, ou amordaçando-os pelo cárcere. Na agitação permanente do seu espirito sanguinário, invadirão o terror dos ódios semeados. Fizera da vaidade e da ambição as suas armas; esgrimia-as... matando. 

Até 1759 escoltára-se por uma companhia de dragões, levando os sessenta soldados as espadas desembainhadas, com ordens terminantes de acutilarem sem piedade. Esta prerogativa fora "extorquida a El-Rei", affirma Gramoza. 

Retrato do Marquês de Pombal
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Precedia-o um tambor, de elevada estatura, vestindo peles e envolvendo a cabeça num turbante, tocando "continuamente uma grande caxa militar", num "som áspero e forte, que não deixava de causar respeito", ficando o povo "aturdido e espaventado". E, o mais curioso, é que, até ali, "nem mesmo a pessoa do Rei usava de similhante guarda"!

Ao apear-se da sege, depois de relancear olhares perscrutadores, apoiava-se ao braço do capitão da guarda. O terror augmentou-lhe quando se suppoz perseguido de mais perto, não pelos espectros das victimas já mortas, ou ainda morrendo lentamente, mas pelos vivos ousando encaral'o. (1)

A aurora do dia 13 de janeiro de 1759 alvorejava uma luz azulada do eclipse n'aquelle dia, por
entre castellos pardacentos de nuvens esfumaradas que, a espaços, saraivavam bátegas de aguaceiros glaciaes. O cadafalso, construído durante a noite, estava húmido [...]


Demonstração do theatro em que depois de justiçados..., representação do dia 13 de janeiro de 1759.
Imagem: Camillo Castello Branco, O perfil do marquez de Pombal, Porto, Lopes & C.a, 1900

Na casa do conde de Aveiras, e não Avero, como se lê em Colmenar, nas Delícias de Portugal, estava o Pátio dos bichos, donde saíram os condenados para o patíbulo. Este palácio foi comprado pela casa real, e é hoje o paço de Belém. (2)

Palácio dos condes de Aveiras
[no local do actual Palácio de Belém, imagem que ainda hoje é confundida com a das casas que o  duque de Aveiro teria em Belém], Les delices de l Espagne et du Portugal, Juan Alvarez de Colmenar, 1707.
Imagem: Wikipédia

Quando foi do conhecido caso de Villa Viçosa, a 3 de Dezembro de 1769, aproveitou-o para guardar-se com superior cuidado, na aparência de defender melhor a pessoa do rei. Novas ordens, mais severas, levaram a soldadesca a affastar-lhe da portada quaesquer transeuntes suspeitos, e, ás estribeiras da sege, cavalgavam desde aquelle dia dois officiaes de patente, previamente escolhidos, a quem o déspota, contrariando a proverbial avareza, sentava á sua meza, enchendo-lhes estômago e algibeiras á custa do erário.

Não ficou por aqui o beneficio auferido. Aquelle pobre idiota de João de Sousa, atirando uma paulada a D. José e duas aos condes do Prado e da Ponte, elevou-se, numa reservada intenção, de modesto serrador aloucado á categoria de regicida vendido aos jesuítas. 

Reconhecido como doido, a quem o embargo d'uma jumenta arrastara ao desforço, o marquez mandou-o torturar e matar nos cárceres da Junqueira, ordenando depois as celeberrimas instrucções de 3 de Março do anno seguinte, coartando de vez a liberdade das reclamações pessoaes e directas ao soberano.

Os queixosos, os expoliados e os perseguidos perderam assim a possibilidade d'um ultimo recurso, porque, confessa Gramoza, "a sua máxima era que El-Rei ignorasse o que se fazia em seu Nome".

Cercado de tropa, guardando-se na rua e na própria casa, onde tinha permanentemente uma força considerável, certo da ignorância superior dos seus crimes, Sebastião José considerou-se intangível.

Retrato do Marquês de Pombal.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Comtúdo, a 6 de Setembro de 1771, um mendigo quási nú, segundo referío mr. de Montigny, representante da França, conseguio attravessar a escolta, alvejando-Ihe a sege com duas pedras. Quando o prenderam apenas lastimou "não ter conseguido matar o marquez, embora o tivessem feito em bocados".

Sem conseguirem arrancar-lhe o nome pela tortura, garrotaram-no no matadoiro da Junqueira. Foi este o systema summario mais a seu contento até 1770.

Retrato do Marquês de Pombal.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Ali acabara também, annos antes, depois de bem esmagado, aquelle outro alemtejano rico de cognome Toscano, só pelo facto de, em conversa com um pseudo amigo, que veio denuncial-o, apodar de injusta a perseguição exercida contra Diogo de Mendonça Corte Real [desterrado para Mazagão em agosto de 1756], collega do déspota na secretaria da marinha e do ultramar, morto em Peniche para satisfação dos seus rancores.

Sebastião José extinguio, neste outro incidente, trez vidas: o collega, que se attrevera a discordar da sua opinião; o alemtejano, que tomara o partido da victima, e, ainda, o próprio denunciante, para que não repetisse o que dizia haver escutado.

O carrasco emérito não poupava os collegas. Alem de Mendonça, sabe-se o destino que teve o velho magistrado Thomé Joaquim da Costa Corte Real, a quem o supplicio de Malagrida arrancara um brado de protesto, secundando a voz do octogenário frei Francisco de São Thomé, o qual, num repellão de justiça, quebrara a penna com que pretendiam obrigal-o a assignar a infamissima sentença.

Pombal fez morrer no castello de Leiria o antigo companheiro no ministério, enclausurando-o numa prisão tão lúgubre que a loucura antecipou-se ao derradeiro alento, e, ao juiz digníssimo, apesar da sua muita edade e doença, violentou-o a acceitar o bispado de Angola e a embarcar sem demora, morrendo a poucas milhas da foz do Tejo.

Ainda, como primorosa obra de tal fera, será bom não esquecer o caso do genovez João Baptista Pelle, cuja sentença foi redigida pelo seu próprio punho, mandando-o conduzir num carro com insígnias de fogo á praça da Cordoaria, na Junqueira, onde lhe cortariam as mãos, sendo depois desmembrado por quatro cavallos, e, feito o corpo em pedaços, reduzido a cinzas, lançadas acto continuo ao vento.

Tudo isto, conclue a sentença, por conjurar contra a vida do "illustrissimo e excellentissimo marquez de Pombal, primeiro ministro e secretario de estado, immediato á real pessoa, e seu logar tenente"!

Não alterei uma virgula. O autografo da sentença é da própria lettra de Pombal, que o historiador Soriano vío e publicou no tomo II, pagina 156 da "Historia de D. José". Um decreto, apenso aos autos, determinou que se exacerbassem e estendessem ainda as penas merecidas por tão "infame e sacrílego réo"!

Não bastando o desmembramento pelos cavallos, applicaram-lhe também a tortura ordinária e extraordinária para descobrir qualquer cúmplice. Tão pouco admittiram embargos, executando-o no dia 11 de Outubro de 1775, depois da hora e meia da tarde [o erudito lente da Universidade de Coimbra António Luiz de Sousa Henriques Secco, alludindo ao facto nas "Memorias do tempo passado e presente", convenceu-se, pela leitura do processo, de que este desgraçado morrera innocente].

Como prisões de sua preferencia existiam outras, álêm dos fortes da Junqueira e Peniche, a torre do Bugio, o castello da Foz e o fortim de Pedrouços, por exemplo.

No ultimo jazeu durante oito annos D. Miguel da Annunciação, o desgraçado bispo de Coimbra, sahindo de lá trôpego, coberto de farrapos e quasi cego.

Tinha sido dedicado amigo de D. João V, perseguindo-o depois Pombal com feroz intransigência. Tendo 66 annos, expulsou-o do bispado e encarcerou-o.

Sabe-se também quanto o seu rancor por D. João V era temível, incidindo nos próprios filhos bastardos, D. Gaspar, D. José e D. António, os chamados meninos de Palhavan, nascidos os dois primeiros dos amores com D. Luiza Clara de Portugal, a Flor da Murta, cujo esposo, D. Jorge de Menezes, morreu de vergonha em 1735, e, o terceiro, talvez de D. Francisca de Mello, alcunhada a "Pimentinha" [outros dizem-no nascido ou de D. Catharina de Miranda e Castro, a Pimentinha, ou da zíngara Margarida do Monte, ou da cómica Petronilla. A edade atribuída a D. António corresponde, pelo seu nascimento, ás relações de D. João V com D. Francisca de Mello].

Bem desejara o irmão reinante protegel'os, logrando apenas evitar maior desaire ao mais velho, nomeando-o arcebispo de Braga, em 1756.

Quando, nesse mesmo anno, proveu no cargo de inquisidor geral o segundo, o rancor pombalino logo tratou de minar-lhes a influencia, perseguindo-lhes os mais dedicados amigos. Lá figuram no rol, quanto a D. Gaspar, os nomes de D. Francisco de Jesus Maria, Veríssimo da Annunciação e D. Manuel de Nossa Senhora, accusados de defenderem a innocencia dos Tavoras. 

Dos Íntimos de D. José de Bragança recordarei D. Estevão da Annunciação e o cruzio D. João de Santa Maria de Jesus, atirados para as masmorras da Junqueira, onde jazeram 17 annos.

Retrato do Marquês de Pombal.
Imagem: Wikipedia

Mas Sebastião José ambicionava mais: o logar de inquisidor geral para o irmão e o vexame para os filhos dilectos de D. João V. 

Consegui-o em 1760. D. José de Bragança foi coagido a demittir-se em 5 de Julho, e, quatorze dias depois, elle e D. António, viram, durante a noite, o palácio de Palhavan invadido pelos sicários pombalinos, que o saqueiaram completamente, seguindo elles, debaixo de prisão, para o Bussaco. 

Paulo de Carvalho, o irmão do déspota, occupou, desde aquelle anno até 1770, a presidência suprema do Santo Officio, cujo novo Regimento, mais bárbaro e despótico, Sebastião José redigio em 1774.

First degree of Torture by the Inquisition, Historical military picturesque..., George Landmann.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Para sacial-o não bastavam já as muralhas negras dos fortes, nos subterrâneos pavorosos. O ideal supremo para amarguramento de vidas transitou para os cárceres do Rocio, em cujos equuleos morreram, á força de tractos, centenas de infelizes.

As sinistras masmorras de Sua Magestade a Inquisição, na graciosíssima mercê, encontraram-se abarrotados quando foi demittido, sendo da Historia o facto provado de ordenar a adopção rigorosa e esperta dos mais dolorosos artifícios de tormento, desde o potro, onde a victima, completamente núa, era deitada sobre quinas agudas e apertada gradualmente para bem as sentir cravando-se-lhe na carne, até ao desconjuntamento na polé, collocado o paciente a muita altura do solo, suspenso pelos pulsos ligados atraz das costas e tendo um peso enorme nos pés, deixando-o depois cahir bruscamente repetidas vezes, sem nunca alcançar o pavimento!

Second degree of Torture by the Inquisition, Historical military picturesque..., George Landmann.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Só da Inquisição foram retirados quasi mortos, em 1777, perto de oitocentos desgraçados. Os menos infelizes ou estavam cegos e idiotas, ou inchados e incapazes de andar. A quasi todos nem mesmo havia sido instaurado processo!

E quantos ali morreram, não podendo resistir á tortura, ou vieram, como [Gabriel] Malagrida, recrear na fogueira o pospasto dos opíparos festins dos julgadores?

O trabalho de Moore, publicado em Londres em 1814, alguma coisa diz a esse respeito, salientando o Auto de Fé realisado em 27 de Outubro de 1765, assistindo-Ihe Sebastião José e o irmão, commodamente gosando as delicias de tal funcção em poltronas privilegiadas com alterosos espaldares, facto que surprehendeu Mr. de Saint-Priest, officiando a extranhar a lúgubre occorrencia, para que fora convidado, e, por ultimo, esclarecendo o seu governo de que a "Inquisição", presidida por Paulo de Carvalho, "era um instrumento que o marquez de Pombal tinha ás suas ordens".

Sebastiao José Carvalho e Melo, Marquês de Pombal, rodeado de sus hermanos: Monseñor Don Paulo de Carvalho e Mendonça, Gran Prior de Guimaraes, Arzobispo y Cardenal de Lisboa, y Don Francisco Xavier de Mendonça e Furtado, Capital General y Gobernador de Grao-Pará y Maranha, siglo XVIII. Techo de la Sala de la Concordia del Palacio del Marqués de Pombal, Oeiras. Concesión por el Ayuntamiento de Oeiras, Portugal
cf. Las Reformas en La Monarquía Portuguesa...

A covardia, o orgulho e a vaidade inspiravam Sebastião José na organisação d'esses espectáculos sanguinários, cujos programmas capricharam em requintes de horroroso barbarismo. Não sou eu que o digo; é a Historia, que todos podem e devem vêr, hoje que já não é prohibida a leitura e a simples posse das obras contrarias ao Santo Officio, como Pombal determinou, castigando severamente os desobedientes.

Comtúdo, nesta ancia recente de notoriedade, que o alardeamento d'um patriotismo equivoco pretende justificar, andam, modernamente, os pseudo-liberaes tecendo louvaminhas e traçando encómios a tão avinagrado carrasco, por cujas garras elles próprios ficariam despedaçados se tivessem vivido na sua epocha.

Vê-se que, entre victimas e algoz, captiva-os o segundo, como fonte ubérrima de mais grata inspiração a seus artigos, discursos e ensinamentos de laudatórias homenagens. Frederico Soulié, por exemplo, costumava rodear-se de esquifes e de esqueletos, procurando nos espectros da Morte a desejada veia.

É natural que também escrevesse ás escuras, como de Vigny, ou apenas utilisando luzes diffundidas pelas órbitas vazias d'um craneo. Se conhecesse a vida de Pombal dispensaria taes decorações macabras, bastando-lhe retroceder na Historia portugueza e evocar as imagens das victimas conhecidas e desconhecidas, nesse tripúdio infernal do seu estuoso governo, excruciante em flagellos e crimes sem precedentes.

Onde porem Soulié encontraria razões de severa critica, taes outros descobriram motivos de júbilo, num excitante recreativo pelos males alheios. Será, portanto, para elles, mais este trecho histórico, aperitivo consolo das suas almas tenebrosas...

D. José avançava rapidamente para a Eternidade. As dores, sempre mais agudas, levavam-no a soltar fortes gritos. É possível que os remorsos por tantos actos de fraqueza, acceitando ás cegas a tutela do seu primeiro ministro, concorressem para o apavoramento nessas intermináveis noites antecessoras da eterna.

Retrato do Marquês de Pombal, Joana do Salitre (atrib.), 1770.
Imagem: Museu de Lisboa

É também natural que, nos últimos mezes, avergado e arrependido, o acabrunhassem os espectros das victimas, muitas gemendo ainda pelas enxovias lúgubres, outras acabando aos poucos nas cellas miseráveis de alguns conventos.

O espectáculo do terreiro de Belém, que presenciara de longe, tendo o rosto afincado ás vidraças da Ajuda, e, d'aquella mesma noite trágica, a pavorosa fogueira tingindo de sangue as nuvens acastelladas sobre o ceu, deviam com certeza reproduzir-se na sua imaginação enfraquecida, pensando talvez na ex-amante, causadora indirecta do horroroso morticínio.

Panorâmica do Bairro da Ajuda [jardim de Lázaro Leitão, Real barraca da Ajuda etc.], B. R. Bourdet.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Fosse porque fosse, D. José recebia no soffrimento physico, progressivamente augmentando, retribuição merecida pelas boas obras consentidas. Mas, ainda sem energia, como irresoluto andróide, queria o predilecto ministro bem perto de si, confiando talvez que do seu empedernido coração brotassem allivios.

O marquez, entretanto, illudindo-se com a marcha da doença, resolvera nova façanha. Um mez antes da morte do real amo e pupíllo, cravou ainda as garras em peitos innocentes.

Foi na madrugada de 24 de Janeiro de 1777. Chegavam d'álêm fronteiras ameaças pouco tranquillisadoras. A Hespanha, farta de aturar-lhe as evasivas e as prosápias, dispunha-se a guerrear-nos.

No Tejo haviam ancorado doze naus de combate, sob o commando do almirante de Castella. A marinha portugueza estava reduzidíssima; o exercito, mal pago, não tinha na effectividade mais de quarenta mil homens.

Ordenou-se um recrutamento violento, arrebanhando-se gente para a possibilidade de uma guerra contrariada pela alma do paiz. A aura pombalina offuscára-se; a nação estava farta d'elle. O povo, pesando-lhe os rancores, minava-lhe o pedestal.

Quando os esbirros prenderam novos e velhos numa varredoira, deu-se uma debandada. A gente moça tratou de escapulir-se, alguma acoutando-se pelas serranias do norte, outra, em menor numero, refugiando-se na Trafaria.

Vista do Tejo e da Trafaria, The river Tagus at Trafaria, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

Soube da fuga o ministro, informando-se do que por lá fazia, entre os pescadores, aquélla ralé da Lisboa insubmissa. Constou-lhe que, num rompante de ódio, tinha empalhado uma estatua á sua imagem, queimando-a como moderno Judas.

Effectivamente, para quem se rojara supplicante aos pés do jesuita Carbone, e, recebendo auxilio, mordera as mãos protectoras, não havia desarrasoamento na parecença. Comtudo, semelhante attentado irritou-o.

Se os mandasse simplesmente prender, chibatar e metter á força nos quartéis, não ficaria bem vingado. Resolveu portanto retribuir-lhes a rebeldia, mandando fazer ao vivo o que os míseros tinham realisado platonicamente num boneco de palha.

O intendente da policia chamava-se Diogo Ignacio de Pina Manique, de génio áspero que lhe cahíra no agrado. Chamou-o, dando-lhe uma ordem em segredo.

Correu versão de que o intendente, apesar da rijeza, empallidecera e perguntara:
— Todos?!
— Sim, todos, respondeu Pombal, olhando-o pelas grossas lentes da sua luneta de aros de oiro.
E accrescentou :
— Leve trezentas praças e bastantes archotes.

Alta noite, Pina Manique atravessou o Tejo, cercando a povoação adormecida.

Rio Tejo e Torre de Belém (efeito de luar).

Os pobres pescadores e os fugitivos de Lisboa amontoavam-se em casas humildes, colmaçadas, construídas de simples tabiques. A milséria encontrara naquelle ermo um refugio. 

Quando a linha da soldadesca, de armas aperradas, fechou o circuito, o intendente deu o signal da matança. Os esbirros, accendendo os archotes, entraram na povoação, incendiando as habitações e os mattos accumulados. Num momento o fogo irrompeu de todos os lados, cruzando-se e alteando-se as labaredas, tingindo as aguas do rio...

Do palácio da Ajuda, Pombal assistio de longe á pavorosa scena, contente pelo clarão sinistro que vencia a claridade turva da manhã, aquecendo-lhe o sangue dos seus 78 invernos.

Também, 18 annos antes, naquelle mesmo mez, sentira prazer egual, vendo, lá baixo, no terreiro de Belém, outro clarão semelhante... Aquelle homem herdara os fígados de Nero e Tigelino!

Retrato do Marquês de Pombal.
Imagem: Wikimedia

Entretanto, na Trafaria, as victimas, apanhadas de surpreza, corriam desorientadas por entre as chammas, as mães procurando salvar os filhinhos, os homens transportando ás costas os doentes e os inválidos, para que o fumo não os asphixiasse. 

Para álêm das labaredas estavam porem os soldados, recusando-lhes passagem á força de coronhadas. Alguns, enojados por tanta selvageria, abriram espaço, deixando fugir poucos míseros. Pina Manique fingio não ver a transgressão das ordens. Mas os que partiram, occultando-se desorientados pelas furnas das penedias, nem sequer levaram roupa que os abrigasse. 

A maioria ficou porém na fogueira, amontoada sobre os restos das casas fumegantes, lavrando o pavoroso incêndio até consumir tudo. Suppõe-se que morreram d'esta forma 230 infelizes! A povoação desappareceu. Quando já nada restava do que fora, a tropa e os incendiários retiraram.

Paisagem com pescadores e cabana de palha a arder, Joaquim Manuel Rocha (1727-1786).
Imagem: Palácio do Correio Velho

O intendente, com o fato manchado pela cinza, dirigio-se á Ajuda. A ordem estava cumprida, e, D. José, desconhecendo o facto, entrou nos arrancos que duraram trinta dias.

Medonha agonia foi a sua, conjugando-se a doença, minando-o desde 1775, com as allucinaçoes do ultimo período. Nos momentos lúcidos das punhaladas cerebraes, agarrando as mãos de D. Marianna Victoria de Bourbon, supplicava-lhe que não deixasse de influir no espirito de sua filha, tornando-a compassiva para com o causador de tantos aggravos anteriores.

A irmã de Carlos III de Hespanha, prestes a reconhecer-se viuva de facto, animava-o, mas já não dessimulava como até ali a inimizade contra o orgulhoso valido, do qual nem sequer acceitou homenagens na própria camará do moribundo. 

Chamando então D. Maria Francisca, regente desde 29 de Dezembro, D. José implorou-lhe que poupasse Sebastião José na decrepitude. Sem resolução de firmar ainda qualquer documento protegendo-o, entregou-o apenas á duvidosa clemência da successora!

Ao corrente da tempestade próxima, longe estava comtúdo o marquez de suppôr, no orgulho de Judas satisfeito, que, pouco tempo depois, entrando naquelle mesmo paço, onde fora senhor absoluto, sahiria a embargar-lhe os passos o cardeal da Cunha, dízendo-lhe em nome da futura rainha: "V. Ex.a póde retírar-se; nada tem que fazer aqui".

A 4 de março recebia também, das mãos de Martinho de Mello e Castro, o decreto demittindo-o de primeiro ministro. A noticia, logo conhecida, foi como rajada de vento norte dispersando nuvens sombrias. Escancarados os cárceres, reencontraram-se emfim parentes e amigos que se suppunham mortos.

A onda popular, no dia seguinte áquelle, apedrejou-lhe a sege que o transportava para o exilio, e, no Terreiro do Paço, outro tanto succedeu ao seu medalhão em bronze, por elle próprio mandado collocar no monumento, obrigando o governo a retiral-o d'ali [foi reposto no mesmo sitio em 12 de Outubro de 1833].


Estátua equestre de D. José I,
gravura de Joaquim Carneiro da Silva segundo desenho de Machado de Castro.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Mais tarde, entrevado e leproso, arguido de concessionário, de libertino e traidor, procurou-o emfim a morte em 8 de Maio de 1782. 

Perto da hora extrema implorou misericórdia. O terror pelo desconhecido esmagou-o. É que o remorso foi sempre antecessor do fim. Impoe-no a consciência alarmada pela certeza da inevitável transição. Nem ha corações de bronze que lhe resistam, nem blasfémias ultimas suffocando-o. Sebastião José cahio, ouvindo, só então, o arrancado estertor de muitas boccas, acompanhando-o o referver da carne humana em sacrifícios de innocentes. 

O último interrogatório do Marquês de Pombal (janeiro de 1780), José Malhoa,1891.
Imagem: Matriz.net

Aquéllas labaredas da Trafaria foram, portanto, para elle, os brandões collossaes do seu próprio esquife, que os soldados de Massena arrombaram em 1810, espalhando-lhe os ossos pela egreja de Santo António de Pombal. (3)


(1) Augusto Forjaz, Livres das féras, Lisboa, Livraria Férin, 1915
(2) Camillo Castello Branco, O perfil do marquez de Pombal, Porto, Lopes & C.a, 1900
(3) Augusto Forjaz, Idem

Leitura relacionada:
Luz Soriano, Historia do reinado de el-rei D. José... Tomo II, Lisboa, Typ. Universal, 1867
José P. F. Gramoza, Sucessos de Portugal..., Lisboa, Typ. do Diário da Manhã, 1882
Camillo Castello Branco, O perfil do marquez de Pombal, Porto, Lopes & C.a, 1900
Miguel Sotto-Mayor, O Marquez de Pombal..., Porto, Livraria Editora, 1905
Uma História do confronto entre o Marquês de Pombal e a Companhia de Jesus 1750- 1759
O incêndio de 23 para 24 de Janeiro de 1777 na Trafaria