quarta-feira, 26 de abril de 2017

Nas arribas do mar (faíscas de fogo morto)

Por todo este almaraz ao terreno ondulando, 
Tal como ondula o mar, quando o tempo está brando. 
Nos contrastes de luz, no variado matiz, 
Nenhum lhe dá de rosto em volta do paiz.

The Praҫa do Comércio Lisbon, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

As folhas dos trigaes, vinhedos e pomares, 
Pendendo para o mar á beira dos algares.

Val de Flores, Rosal, a fecunda Sobreda, 
Conservando a azinhaga e a sombria vereda.

As "Villas de Azeitão", o medo de Albufeira, 
A Charneca, formando uma enorme clareira 
Cingida de pinhaes. No gracioso recorte, 
Cintra, no seu perfil, campeando sobre o norte.

A Arrábida domina ufana o Sado e Tejo. 
Não tem outra rival por todo esse Alemtejo.

Vista do Tejo tomada de Belém, Bellisle looking down the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

O Atlântico á barra. O rio, a desaguar, 
Funde na vaga azul a tinta verde-mar.

Seja em que ponto for é relancear a vista; 
Sempre, no vasto quadro, uma nota imprevista.

Pescadores no Tejo, Fishermen at work off the mouth of the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

Rompe um formoso dia. O mar azul e manso. 
Vem as redes á Costa, e com soberbo lanço.

De toda a povoação, e remotos casaes, 
As recovas lá vão a travez dos juncaes.

Vista do Tejo e da Trafaria, The river Tagus at Trafaria, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

E a trepar a ladeira, — a saia coruscante, 
A cestinha á cabeça, o lenço fluctuante, 
— Correm, com seus pregões, á venda, as raparigas, 
Pregoes que têm um tom de jovenis cantigas!

Cae a noite. O farol, as frechas rutilantes, 
Atira pelo oceano e guia os navegantes.

Vista do Tejo e do Forte de S. Lourenço, Bugio Castle, the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

Accendem-se também Bugio e Sam Julião. 
A cidade illumina, e reflecte o clarão 
No Tejo que lá vae, na veia crystallina, 
Levando, a scintillar, o véo da tremulina. (1)


(1)  Bulhão Pato, Faíscas de fogo morto, Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciências, 1908

Artigo homónimo:
Nas arribas do mar (cf. Bulhão Pato, Memórias, Vol. III, Lisboa, 1894)

Artigo relacionado:
John Cleveley Junior e o Tejo, 1775

sábado, 1 de abril de 2017

Laura, a duquesa d'Abrantes

Fazia já calor, e os campos dos arredores ofereciam uma vista encantadora. Alegrava-me plenamente com esta bela natureza, e todos os dias ia passear em "gôndola" pelo Tejo, fosse para ir a Almada, ou para subir a Sacavém, ou, mesmo ainda, para aproveitar a brisa ao fim da tarde e ir em "calèche" até Pedrosa, a uma charmosa quinta que possuía neste lugar a duquesa do Cadaval [...] (1)

Panorâmica da Lisboa ribeirinha antes do Terramoto de 1755,
tomada a partir dos jardins do palácio do Marquês de Abrantes (onde hoje se encontra a embaixada de França).
Imagem: Museu de Lisboa

Pude sair. O meu marido reservou o escaler e fomos pela água a Almada, no outro lado do Tejo.

Estava fraca, estonteada, como que saída de uma longa doença. Este passeio recuperou-me. Entretanto não pude comer mais do que uma laranja em todo o dia e, durante vários dias, foi-me impossível cheirar uma flor.

Vista do Tejo tomada do palácio da embaixada de França, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Image: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

Almada, de que falei, é uma grande vila situada sobre a margem do Alemtejo, sobre o lado do sul.

É lá que vários habitantes têm as quintas. As colinas, que as envolvem, sáo retalhadas pelas flores mais belas. A convolvulus tricolor cobre a terra com as suas belas flores [bons-dias, bela-manhã] em rasgos de azul-celeste rivalizando com o belo céu do país.

Boca de Vento, estrada da Fonte da Pipa, junto à altura da Casa da Cerca.
Vista de Lisboa tomada da margem esquerda do Tejo, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Image: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

A igreja de Almada merece ser vista, e é um fim de passeio tão mais agradável que revemos sempre com um novo charme Lisboa e os seus ricos arredores.

Era em Almada que se davam no verão as corridas de touros. Há um circo por detrás da praça do Rocio, mas as gentes de Lisboa preferiam ir ver os touros a Almada do que a esse sítio fechado, e eles tinham razão. De resto, o melhor teria sido de não ter ido de todo, porque as corridas de touros em Portugal não são mais do que uma má paródia às de Espanha.

Os touros são boleados. Metem-lhes bolas de marfim ou de osso, grandes como uma maçã, na ponta dos cornos, e desta maneira o homem que os combate corre menos perigo.

Esta medida foi ordenada desde que o filho do conde dos Arcos foi morto por um touro ao combatê-lo. O touro apanhou-o de surpresa, quando o infeliz jovem se retornava para falar ao rei.

A morte do Conde dos Arcos, aguarela de Alfredo Roque Gameiro.
O marquês de Marialva vingando a sua morte do seu filho na ultima corrida real de Salvaterra de Magos.
Imagem: issuu

Acontecem sempre os acidentes apesar disso, e eu fui testemunha de uma infelicidade no primeiro dia que fui a Almada. Um homem apresenta-se para combater o touro. O animal tinha o sentido da sua força, mas sabendo que esta estava neutralizada no uso dos seus cornos, não tenta sómente se servir dela. Fundiu-se sobre o homem, e com o focinho fendeu-lhe o externo. O infeliz grita vomitando goles de sangue e expira antes de ser transportado para fora do circo.

Amo Almada. Amo sobretudo a sua igreja, situada sobre uma altura...

Laure Permon (Junot) (1784-1838), duchesse d'Abrantes.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

É principalmente ao fim da tarde que se deve ir a Almada.

Almada c. 1810, Pierre Eugène Aubert  (assina 'Aubert fils' c. 1815 e 'Aubert père' a partir de 1840), segundo
Lisbon from Fort Almeida [sic],
Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden, Fieldmarshal The Duke of Wellington

Deve-se partir de Lisboa ao pôr-do-sol. Vê-se ainda os cimos das colinas dourados pelos seus ultimos raios. Depois eles enfraquecem. O céu fica mais escuro, o vento arrefece e levanta-se [...] (2)


(1) Alber Savine, Le Portugal il y a cent ans..., Paris, Louis-Michaud, 1912
(2) Idem

Leitura relacionada:
Fonseca Benevides, Francisco, No tempo dos francezes, Lisboa, A Editora, 1908, 319 págs.

Bibliografia relacionada:
Laure Junot (1784-1838), duchesse d'Abrantès...

quarta-feira, 29 de março de 2017

Fazer a barba... em Cacilhas

Janotas que vinham fazer a barba a Cacilhas por um pataco, pagavam o barco e ainda restava dinheiro para o copo de vinho. (1)

Vista norte de Cacilhas. Em primeiro plano ao lado esquerdo, dois marinheiros carregam cestos a partir de uma barcaça, com a inscrição 'JWells Aqua', para o convés de um ferry-boat onde uma mulher e dois homens aguardam. Do lado direito um barco transporta um passageiro abrigado por um dossel e seis remadores. Vista da igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso, do porto e do lugar de Cacilhas. A bandeira inglesa sobre o hospital. Ao fundo, veleiros no rio Tejo.
in British Library    
Imagem: Cabral Moncada Leilões

— Se o Doutor João Bernardo [da Costa Loureiro] fosse a Caçilhas fazer a barba porque lá he mais barato, depois de lá estar em Caçilhas, e ter escapado das delicadas mãos dos barbeiros de Caçilhas, quando tornasse para Lisboa, no meio do rio, alli ao pé das Náos onde estão os Francezes (coitadinhos!) o Arraes da Falua, hum delles que eu conheço mais assomado, chamado Zé nordeste , baldeasse com o Senhor Doutor Joáo Bernardo ao meio do rio, por não lhe querer pagar, depois de V. m. fícar muito bem affogado, e metido no buxo de alguma alforreca, náo se poderia dizer, com verdade que V. m. tinha visto Caçilhas e chegado ao fim da sua acção,  que era fazer a barba em Caçilhas?

The Harbour of Lisbon, segundo Alexandre Jean Noël, 1796.

Sim Senhor, dirá V. m., mas isso nao prova, porque o resto da companha quando chegasse ao Cáes podia dizer, o Doutor Joáo Bernardo, vindo já escanhoado de Cacilhas, que he o que lá foi fazer, foi affogado pelo mestre Arraes Zé nordeste, por lhe não querer pagar [...] (2)


(1) Romeu Correia, Cais do Ginjal, Lisboa, Editorial Notícias, 1989, 188 págs.
(2) José Agostinho de Macedo, O Exame examinado..., Lisboa, Impressão Régia, 1812

segunda-feira, 20 de março de 2017

Fonte da Pipa e sua água

LISBOA , em Lat. Ulissipo [phn, Tejo], de que vém a ser cor. voc. o significar "água bôa" em que nada esta Cidade (a maior das conhecidas na Europa, Capital do Reino de Portugal) que há mais pequena escavação, logo apparece: o t. he Árabe; e porque parte desta água apezar de em muitas partes ser minerál, e sulphúrica, como se vê dos banhos das "alcacerias" pertencentes ao Duque de Cadaval, abunda muito Lisboa, de que tóma o nome; mas porque as águas potáveis afóra o antigo chafariz chamado de Elrei na Ribeira Velha, que córre por nove bicas sem cessar, e que se concertou em o tempo da Regencia, que o Sr. D. João VI. retirado no Brazil, deixara em Portugal, óbra prima de hydraulica, sem que o chafariz parasse de correr, e cuja ruína já era espantoza; abasta a Cidade: foi da providencia do Rei D. João V. encanar do Cazal d'águas livres, que rebenta em grandes olhos a água em Bellas a duas léguas de Lisbôa, "Villa de Pedro Correia", assim chamada em outro tempo, por hum aqueducto, que he huma óbra perfeitamente Romana, que nunca cedêu de sua feitúra pelo terremoto, que abastece de água a Cidade, independente do poço chamado d'água sancta , rúa da Prata, que nunca seccou, e em que se recórre em occazião de sêccas graves, e da água da outra banda, de que se faz águáda para os navíos (chamada a da Fonte da Pipa), porque vinha, em pipas vender se ao Cáes do Sodré antes de feito o sobredicto aqueducto — Águas livres.

Fonte da Pipa, aguarela de Álvaro da Fonseca, c. 1915.
Imagem: Almada na Historia, Boletim de Fontes Documentais, 27-28

— Desgraça he que sendo esta água tão bélla, e potavel esteja imprégnada com outras inferiôres em bondade pela concessão mal entendida de deixar tirar do aqueducto pénnas, e anéis d'água com a obrigação de lhe substituir porção igual, que nunca igualára sua primitiva bondade.

Fonte da Pipa, Álvaro da Fonseca, c. 1915.
Imagem: Hemeroteca Digital

"Quem não vío Lisbôa, não vío couza bôa." adag. (1)


(1) António Maria do Couto, Diccionário da maior parte dos termos homónymos, e equívocos da lingua portugueza..., Lisboa, Typ. António José da Rocha, 1842


Artigo relacionado:
Fonte da Pipa e seu caminho

terça-feira, 14 de março de 2017

Romeu Correia (um percurso...)

1.º Percurso deste roteiro literário:
Avenida Heliodoro Salgado e Rua Capitão Leitão
(da Câmara Velha ao Museu da Música Filarmónica)

Praça Camões, Tribunal e Paços do Concelho — Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Ciclo de visitas organizadas pela APCALMADA-USALMA
a locais que evocam a vida e a obra de Romeu Correia através da sua "voz",
isto é, daquilo que deixou escrito.

Romeu Correia no miradouro Luís de Queirós ou Boca do Vento.
Imagem: Wikipédia

Data: 5.ª Feira, 23 de março de 2017

Concentração às 14H30 nos Paços do Concelho, no LARGO LUÍS DE CAMÕES,
no início da R. Capitão Leitão, junto à Incrível Almadense.

Em cada um dos locais que vão ser referidos vão evocar-se factos da vida do escritor Romeu Correia, acontecimentos e vultos almadenses dignos de serem lembrados. Será sempre Romeu Correia a "falar" connosco, através da leitura de pequenos excertos da sua escrita em prefácios, artigos da sua vastíssima colaboração jornalística, contos, romances e obras sobre a história local.

Sábado sem Sol, 1947, ilustração Fernando Camarinha.
Imagem: Tertúlia Bibliófila

Programa:

— No antigo LARGO DA CÂMARA evocaremos com as palavras de Romeu Correia alguns dos momentos inesquecíveis que aí se viveram [Trapo Azul (1948), Chico Grilo in Sábado sem Sol (1947)].

O carvoeiro, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

— Na AVENIDA HELIODORO SALGADO, sempre acompanhados com as palavras do escritor:

Avenida Heliodoro Salgado — Almada, ed. desc.,
(ex avenida Gomes Netto no tempo da monarquia).
Imagem: Delcampe

Veremos o n.º 13, que foi o local da casa dos tios José Carlos de Melo e Julieta Correia, onde Romeu Correia viveu dos 21 aos 33 anos (de 1938 a 1950);

Sede da Incrível Almadense e habitação de José Carlos de Melo de 1938 a 1959.
Imagem: Alexandre Castanheira, Romeu Correia, Memória Viva de Almada...

faremos a evocação do namoro e casamento dos tios, conheceremos um resumo biográfico sobre José Carlos de Melo e destacaremos que foi neste local que iniciou a sua escrita teatral, jornalística, de contista e de romancista [Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada (1978), Prefácio de Tonecas, a Tragédia que enlutou Almada, de Vítor Aparício, Sempre Menino in Sábado sem Sol (1947), Dois Mil Contos in Um Passo em Frente (1976), O Tritão (1982)];

Carta Postal (detalhe), ed. Câmara Municipal de Almada, c. 1940.
Imagem: Delcampe

Veremos o atual n.º4 , que foi o local da casa do dr. Alberto Araújo — evocação da amizade recíproca e resumo biográfico deste insigne almadense [Jornal de Almada (14 de dezembro de 1974), Trapo Azul (1948), Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada (1978)].

Contamos com a presença e testemunho da filha do escritor, Julieta Correia Branco, que nasceu e viveu na casa dos tios.

— Na RUA CAPITÃO LEITÃO:

Almada. Rua Direita e Egreja de S Paulo Câmara Municipal, ed. Martins/Martins & Silva, 31, c. 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Visitaremos a Incrível Almadense, fundada em 1848, numa visita guiada pelos dirigentes Luís Milheiro e coronel Carlos Guilherme.

Banda da Incrível Almadense, c. 1894 - 1896.
Imagem: Restos de Colecção

Na sala do bar ou noutra sala, sentamo-nos e ouviremos Romeu Correia a "falar" dos bailes de outrora;

Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, baile em 1959.
Imagem: Casario do Ginjal

das bandas filarmónicas; da saída de José Maria de Oliveira em 1894 (e que veio a fundar a Academia Almadense em 1895);

Banda da Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense, 1925
Imagem: Restos de Colecção

do corte entre as duas coletividades e das pazes em 1948;

da biblioteca onde na década de 40 conheceu e colaborou com Alexandre Castanheira e da colaboração que recebeu de António Henriques [Jornal de Almada (25 de março de 1972), Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada (1978), Trapo Azul (1948)].

Romeu, o primeiro da direita, durante uma das visitas de Alves Redol a Almada, Arquivo da Academia Almadense.
Imagem: Luis Alves Milheiro, Romeu e a biblioteca da Academia Almadense

Contamos com a presença e testemunhos de Alexandre Castanheira, que celebra este ano o seu 90.º aniversário e do coronel Carlos Guilherme, filho de António Henriques.

À saída da Incrível indicaremos o Clube de Campismo de Almada e veremos um grande artigo que sobre ele escreveu Romeu Correia no Jornal de Almada.

Seguiremos para o Museu da Música Filarmónica.

Romeu vai "dizer-nos" que aí foi a casa onde nasceu o grande maestro Leonel Duarte Ferreira [Jornal de Almada (25 de março de 1972), Academia Almadense - Memória de 100 Anos (1995)].

Visitaremos, com o dr. João Valente, este museu, que guarda testemunhos das bandas da Incrível, da Academia (onde iremos no 2.º percurso) e de outras associações locais.

O Septimino de Saxofones da A.I.R.F.A.. Da esquerda 1.° plano: Maria Amélia. Ferreira, Luísa Avelar, Manuela. Avelar, Maria Pratas, Maria Ondina Pinto, Antónia Rodrigues e Aida Alves. Em 2.° plano: Hilário dos Santos Ferreira, Maestro Leonel Duarte Ferreira. e Américo Gonçalves Ferreira.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

No final assistiremos a um pequeno filme interativo, que refere o maestro Leonel Duarte Ferreira, a importância das bandas filarmónicas e que acaba com uma citação do escritor Romeu Correia.

Contamos com colaborações várias para dar voz aos excertos de Romeu Correia, com destaque para representantes do Conselho de Delegados da USALMA.

Organização das professoras Ângela Mota e Edite Condeixa.

Visita sem inscrições.
Basta estar às 14h30,de 5.ª feira, 23 de março,
em frente dos Paços do Concelho, junto à Incrível Almadense.



Tema:
Romeu Correia

Informação complementar:
Manuel J. C. Jerónimo, Leonel Duarte Ferreira (1894-1959)..., Universidade Nova de Lisboa, 2012

domingo, 12 de março de 2017

Festejos na Outra Banda hontem 23 de julho de 1873

Logo ao nascer do sol embandeiraram quasi todas as cazas, e subiram ao ar muitos foguetes em signal de regosijo pelo anniversario da entrada das tropas liberaes. 

Pátria coroando os seus heróis, Veloso Salgado, 1904.
Museu Militar de Lisboa, Sala das Lutas Liberais (ex Sala das Campanhas da Liberdade).
Imagem: Maria João Vieira Marques

A direcção dos festejos por tão fausto acontecimento tinha sido confiada a uma grande commissão composta dos seguintes cavalheiros: — Presidente, Eduardo Tavares — Wenceslau Francisco da Silva — Jose Maria do Valle — Augusto Cesar de Lima — A. L. J. Quintella Emauz — João Antonio Xavier Carvalho Freirinha — Julio Cesar Coelho — Antonio Faria G. Zagallo — S. Duarte Ferreira — Rafael Fortunato Alves Cunha — Antonio Francisco Silva Junior — Manuel Francisco da Silva — Christovam de Mattos— Antonio Candido Lopes — João Alegro Pereira Ernesto — Alvaro Seabra — Barreiros (Delegado) e Guilherme Maria de Nogueira.

Esta commissão veiu de Almada para o largo da Piedade, ás 7 horas da tarde, acompanhada da philarmonica da villa, e de muitas senhoras que todas vestiam de azul e branco.

Banda da Incrível Almadense, c. 1894 - 1896.
Imagem: Restos de Colecção

Ahi, collocando-se na frente da egreja, o sr. Eduardo Tavares, presidente da mesma commissão e deputado por aquelle circulo, fez um brilhante improviso, commemorando os factos da batalha dada n'aquelle sitio; disse que os que o acompanhavam n'aquella occasião não estavam ali como vencedores, nem tão pouco revestidos de odios de partidos; e appellou para o patriotismo de todos os portuguezes para conservarem a independencia e a liberdade que ha quarenta annos desfrutámos.

Eduardo Tavares (1831-1875).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Concluído o discurso, o sr. Tavares levantou vivas á liberdade, sendo correspondido pela grande multidão que o cercava. Então deram-se também vivas aos veteranos da liberdade e ao sr Eduardo Tavares.

Em seguida foi distribuído a 50 pobres um bodo que se compunha de 230 grammas de carne, um pão, meio kilo de arroz e 100 réis em dinheiro.

Este bodo foi oflerecido por uma commissão especial composta dos srs. Eduardo Tavares — João Allegro Pereira — Padre João Netto — A. L. J. Quintella Emauz — Manuel Joaquim Motta e Lourenço Anastacio Ferreira de Aguiar.

Durante o bodo tocou uma philarmonica difíerentes peças de musica. Acabado o bodo, dirigiram-se todos ao largo onde se achava collocado o busto do duque da Terceira; e ahi foram levantados novos vivas á liberdade e entusiasticamente correspondidos. 

Estátua do Duque da Terceira (detalhe).
Desenho de Simões d'Almeida, gravura J. Pedrozo, 1877.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Voltou depois a grande commissão a Almada acompanhada do povo, e dirigindo se á casa da camara ahi se levantaram novos vivas, que foram também correspondidos.

O sr. Eduardo Tavares foi novamente saudado. Em seguida marchou tudo para Cacilhas. 

O largo da Piedade está deslumbrante. Inaugurava-se ali um novo jardim com um elegante coreto, onde tocava uma nova philarmonica da localidade. 

Nas ruas de Cacilhas, Oliveira e Almada, estavam muitas casas embandeiradas, e as janellas de algumas apresentavam vistosas colchas. 

Rua Direita — Cacilhas, ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe, Oliveira

Todas as senhoras, como dissemos, trajavam de azul e branco; e todos os cavalheiros traziam ao peito um ramo de perpetuas preso com fitilhos também azues e brancos.

Do caes até á Fonte da Pipa, e pela rocha do Ginjal e rampa de S. Paulo estavam dispostas 150 barricas de alcatrão, que foram incendiadas ás 8 horas e meia da noite, produzindo um bonito effeito.

As casas da villa estavam illuminadas. No largo da Piedade tocavam, antes da chegada da commissão, tres philarmonicas. 

Jardim da Cova da Piedade, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 13
Imagem: Fundação Portimagem

Divisava-se em todos os semblantes o maior regosijo. Correu tudo com o maior enthusiasmo, o que se deve ao muito amor dos portuguezes á liberdade, e sem o mais pequeno incidente desagradavel, o que se deve á muita cordura dos ciadãos. (1)


(1) Diario Illustrado, 24 de julho de 1873

Artigo relacionado:
Os festejos de 24 de julho de 1874

Mais informação:
Duque da Terceira, Diario Illustrado, 24 de julho de 1873

Tema:
Guerras Liberais

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Grande passeio à Outra Banda (10 de 10)

Vão todos p'la rua abaixo,
Com medo como o diacho!

N'isto, junto de Soccorro,
Vê-se um trem á luz de um gaz,
Que dizía mesmo: "Morro,
Por indecente e incapaz!"

Era o landau do... D. Braz!!!
Tudo logo em berraria!
Tudo logo em gritaria!
Não ha horas, ruins, más!
Mana! papá! minha tia!
Olhe... veja... que alegria
D. Braz! D. Braz! Ó D. Braz!

Tudo se ácerca do trem,
Tudo quer ver o amigo,
Tudo pergunta ao postigo:
"Como passou, passou bem?

Como está, senhor morgado?
O figado seu, como vai?
O baço está desinchado?
Ainda bem que já sahe!
A perua já se curou?
O bofe já melhorou?"

E tudo sobre elle cahe...
Que quasi o esborrachou!
 O cocheiro no pescante,
Com seu enorme penante,
Toda aquella scena via,
E como melro sorria.

Padre José, com agrado,
Quer abraçar o morgado;
Mas como ás escuras fal-o,
A dar aos braços avança,
E n'um amplexo.. zás!
A cabeça de um cavallo,
Abraçou ao pé da lança,
Julgando que era o D. Braz!!!

D. Braz Pimenta Athayde
De Vasconcellos e Cid
Noronha da Cunha Mattos,
Morgado dos Carrapatos,
Um vinculo instituido,
Por D. Manuel da Falperra,
Em Sines, a sua terra...

Estava dentro do landau,
De cara pasmada .. só,
O que todo o rancho espanta,
Porque o nosso personagem,
Na mais pequena viagem,
Traz a velha governanta,
E o seu amigo doutor,
Medico assás erudito,
Que lhe acode á menor dor,
E ao menor faniquito.

(Gambôa)

Oh! D. Braz, d'onde vens tu?
E elle diz-lhe ao ouvido:

(D. Braz)

"Fui por mandos de Cupido,
A um rico rendez-vous."

(Gambôa)

Ora adeus! fanfarronadas...
Toleimas... parlapatices...
Setecentas patacuadas,
Imposturas e tolices!...

Mas o gaz não apar'cia,
E o nosso fidalgote,
A palacio recolhia,
Suspirando p'r'um archote.
E bisarro, e generozo,
Franco, como os que são francos,
Dizia assáz gracioso,
(Que elle tem ditos facêtos,)
"Os pretos hoje são brancos,
E os brapcos parecem pretos."

Se vão p'ra casa, vai tudo,
Aqui dentro da typoia,
É uma dansa d'entrudo,
Porém eu não vejo boia!

D. Francisca, a patroa,
Vai no colo do Gamboa,
Vossa excellencia entendeu?...
A mana, sento eu no meu,
Tu Alfredo, aqui em pé,
As meninas, ambas, sim,
"Aqui em frente de mim."
E o padre então galhofeiro,
Piscou o olho á creada,
E foram para a almofada,
Sentar-se ao pé do cocheiro.

Roda "el coche", e dentro "el níño",
Par'cia um carro de bois.
Onde ia o rei dos heroes,
A passo, devagarinho.

Sem contratempo ou quisilia,
Chegou a casa a familia,
Do nosso q'rido Gambôa,
Que a rir sempre alegre anda; 
E assim acabou-se em paz 
Em noite escura, sem gaz, 
O passeio á Outra Banda.

(Final)

Com modos muito cordatos,
O nosso amavel e q'rido,
Morgado dos Carrapatos
Disse ao Gambôa, ao ouvido:

"Em segredo isto te digo,
Tu que és meu dedicado,
E um verdadeiro amigo,
No high-life do Illustrado,
Amanhil, faze sair,
Esta coisa... e obrigado".
E abraçou-o muito a rir.

Era um papel que dizia
Sem normas de orthographia:

"Parte ámanhã para Carnide, 
P'r'á sua quinta dos Gatos, 
D. Braz Vasconcellos Cid, 
Morgado dos Carrapatos.
E faz tenção tambem mais, 
Não esticando o pernil, 
D'ir setembro p'ra Cascaes, 
E outubro p'ró Estoril.
Sua excellencia que a vida, 
Só disfructa entre regalos, 
P'rá vivenda apetecida, 
Leva o trem e os cavallos."

(Fim)


(1) Diário Illustrado, 17 de agosto de 1896